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Estado de Minas Diário da quarentena

Nada pior do que se ver sem máscara numa avenida lotada

O poeta Afonso Henrique Neto narra no Diário da quarentena sonho que o perturbou em noite mal dormida


18/08/2020 04:00

Afonso Henrique Neto
Poeta, ficcionista, tradutor, professor universitário e membro da Academia Mineira de Letras

Pior do que acordar e perceber de súbito que você vai enfrentar mais um dia de isolamento social em razão da pandemia provocada pelo coronavírus, mais um dia de solidão forçada, é se recordar com um frio na barriga de alguns relâmpagos do incômodo sonho que o perturbou durante a noite mal dormida. O pesadelo o transportara para várias décadas atrás, quando trabalhava na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.

Era hora do almoço e o desconforto principiava no momento em que procurava descer e então se apertava às pessoas dentro do elevador que vinha já bastante cheio dos andares superiores. Depois saía para a avenida apinhada de gente e seguia esbarrando naquela multidão em busca do restaurante onde almoçar. E aí a ficha que subitamente caía: não estava usando máscara, assim como todas aquelas pessoas no elevador e as que febrilmente corriam de um lado para outro 
na avenida.

Portanto, o susto, o pânico, o horror era se perceber sem máscara desde o trabalho da manhã em uma sala com muitos funcionários até o instante em que se encontrava com toda essa gente também sem proteção a se perder de vista ao longo das ruas e com a peste a girar invisível em meio à balbúrdia. Não usar máscara naqueles momentos era idêntico a se ver por inteiro nu dentro da multidão.

Imerso em extremo desamparo, buscava inutilmente chegar a algum lugar onde pudesse sentir-se isolado e seguro. Mas tudo era inútil, pois a aglomeração só fazia crescer e contaminar o que encontrasse no caminho.

Havia completado 70 anos de idade no mês passado. Era viúvo e pertencia a um grupo de risco, às pessoas com mais de 60 anos que não podiam de jeito algum se infectar, uma vez que o perigo de sequelas graves ou de morte era alto.

Vivia sozinho e o único filho que tivera estava casado e morando com a mulher e os dois netos no exterior. Era cada vez mais difícil organizar o cotidiano naquela situação de tão absurdo isolamento. Lembrou-se de Antônio, amigo de longa data com quem há muito não conversava. Ligou para ele e, depois de algumas trocas de ideias, narrou o sonho que tivera na noite anterior, a pontuar que a paranoia era de 
fato marca registrada desses momentos estranhos por que todos estavam passando.

Antônio, que era três anos mais velho, recordou então de uma terrível experiência que vivera durante a genocida ditadura militar na Argentina na década de 1970. Viajara para Buenos Aires com uma equipe de cineastas na condição de fotógrafo. Iam realizar um filme sobre o futebol argentino. Em certa noite saíra sozinho do hotel para comprar cigarros na esquina e se vira preso por uma patrulha do exército. Os militares o confundiram com um ativista político procurado e ele passara uma semana preso em um cubículo infecto onde não podia ficar de pé, pois o teto era muito baixo. A comida era a pior possível e as necessidades eram feitas em um buraco no chão. Ficava o tempo todo sentado ou deitado sobre uns trapos, sempre a sofrer ameaças. Por fim, quando estava certo que seria morto, fora de repente solto também sem maiores explicações.

Portanto, dizia Antônio, quando se via muito chateado em razão do isolamento, se lembrava daquela atroz experiência portenha e o estar preso no conforto da própria casa passava a ser para ele uma bem suportável situação. As coisas são mesmo bastante relativas, meu caro, me falou Antônio se despedindo. A conversa me deu fôlego para os próximos longos dias.

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