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Estado de Minas COLUNA HIT

O jeito é encarar a louça suja

No 'Diário da quarentena', o escritor Luis Fernandes de Assis revela sua rotina às voltas com roupas no varal, almoço para fazer, pó nos móveis e Dostoiévski


postado em 02/07/2020 04:00 / atualizado em 01/07/2020 21:13



''Agora descubro que o trabalho doméstico é intenso, insano, repetitivo, massacrante''

Luis Fernandes de Assis, Historiador e escritor


Agora que acabei de ajeitar as louças do almoço na pia, posso fazer uma pausa e vir aqui escrever este texto.       Aliás, só agora me sobrou um pouco de tempo livre, pois desde que me levantei da cama não parei mais: acordo cedo, faço um café simples, frutas e pão com manteiga, depois coloco um som no Spotify, boto roupa na máquina de lavar, arrumo minha cama, varro a casa, passo pano úmido no pó dos móveis, lavo banheiro... ufa... Pausa para ler um bom romance ao sol (acabei Os demônios, estou no O idiota e me aguarda O adolescente, todos do grande autor russo do século 19 Fiódor Dostoiévski).

Daí, já deu tempo de recolher as roupas do varal (felizmente, o vento e o sol intenso secam tudo muito rápido). Se tiver paciência, passo a ferro algumas camisetas e bermudas. Algo cada vez mais raro. Já que não estou saindo, pra que passar roupa?

Onze horas. Já dá pra chupar uma laranja, esperando o almoço que eu mesmo terei de preparar. Que tédio! Já cansei de pedir comida congelada, então o jeito é encarar sem sofrer demais. Submeter legumes e hortaliças à higiene rigorosa, temperar a carne moída, preparar arroz e feijão, fazer uma salada verde.

Almoçar tem se transformado em algo tão mecânico e sem graça que eu preferiria um comprimido de astronauta, se existisse, apenas para pular a enfadonha rotina de preparar tudo e almoçar sozinho todos os dias. Mas o pior ainda está por vir, pois, inevitavelmente, vai sobrar outra pia cheia de louças para lavar.

Moro sozinho. Depois de 100 dias em confinamento (mal saio para o supermercado e o sacolão, pois peço a maioria das coisas pela internet), não há como não refletir sobre o trabalho doméstico, aquele que até então era invisível, ou melhor, imperceptível. A diarista duas vezes por semana e o almoço fora todos os dias me mantinham distante dessa enorme e enfadonha tarefa que recomeça e recomeça e que, até aqui, desprezávamos cotidianamente, quase inconscientes.

Em realidade, a obrigação de cuidar da casa nos chega nestes tempos sombrios com uma força desconhecida, pois já não temos a quem repassar tão chata tarefa (nem todos, no entanto, pois tenho observado que alguns vizinhos insistem em manter suas “secretárias” em atividade, mesmo em tempos de pandemia e contágio nos ônibus).

O trabalho doméstico, sabemos por viagens para fora do país, há muito faz parte da rotina da classe média dos europeus e estadunidenses, mas nunca tinha chegado com força ao Brasil. Em tempos pretéritos, as nossas mães, verdadeiras donas de casa, tinham uma ou duas empregadas para socorrê-las. Como resquício tardio da escravidão, encarávamos essas auxiliares como membros postiços da família, deixando-as, hipocritamente, almoçar na mesma mesa conosco. Gente como a gente. Tudo para aliviar a consciência, como se, de fato, não tivéssemos preconceito de classe ou cor. Tá bom. Conta outra.

Esse lugar social da empregada doméstica era tão consolidado que, desconfio, a classe média brasileira começou a desejar derrubar a presidenta, em 2016, no dia em que ela transformou em realidade, ou melhor, em lei, os direitos trabalhistas antes negados a essas trabalhadoras. Lembro-me de que houve chiadeira geral das madames e alguma vontade de bater panelas nas varandas.

Agora descubro que o trabalho doméstico é intenso, insano, repetitivo, massacrante e que eu daria tudo para não fazê-lo todo dia. Cheguei mesmo a comprar um robô, que é também aspirador de pó, mão na roda. Mas a pia me persegue. Ok, comprei máquina de lavar louça, mas a colocação dos talheres e pratos e panelas é tão exigente e irritante que prefiro passar a esponja de sabão rapidinho antes mesmo de abrir o aparelho.

Procuro procrastinar ao máximo o ato de encostar a barriga na pia da cozinha, mas não tem jeito. Pia cheia é como fralda suja de bebê. Não vai melhorar se deixarmos pra depois. Então, paro de escrever este texto e lá vamos resolver logo o tal assunto chato. Depois, tenho de preparar uma nova lista de compras de produtos de limpeza, pois o sabão em pó está acabando.

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