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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Carta para Waninha

Ela chegou como se fosse um anjo de olhos verdes. Instalou-se para sempre na minha vida


postado em 08/12/2019 08:00 / atualizado em 08/12/2019 17:20

(foto: Arte/Lelis)
(foto: Arte/Lelis)

Como você bem observou, no tempo em que estive na Serra do Cipó, não sei educar filhos. Criar com regras, imposições e limites, como ditam os manuais mais severos de pedagogia. Lembrei-me do já falecido Içami Tiba, que pregava limites na educação dos filhos o tempo todo. Ele até esbravejava, mas prefiro a opinião do pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, que dizia: “A única forma de educar é dar exemplo”. Lembrei-me também dos que acham que sabem de tudo, dão conselhos sem que ninguém peça. Lembrei-me das escolas sem partido, dos templos que infernizam a vida de mães e filhos, ameaçando-os com as labaredas do inferno, com seus dogmas assustadores de hoje: “Não faça isso, não deixe de falar aquilo”, em lições de moral e civismo. Lembrei-me da culpa católica.
 
Com a filha adotada há dois anos, em um difícil processo de adaptação e conquista mútuas, as regras de boa educação também caíram por terra. Ela chegou como se fosse um anjo de olhos verdes. Instalou-se para sempre na minha vida. Lembra-se, Waninha? Quando ela me pede algo com aqueles olhos verdes, umedecidos de tristeza, talvez pelos maus-tratos e abandono anteriores, tudo é permitido. Até dormir na minha cama de lençóis limpos, que acabaram de ser trocados. Ela vem de mansinho, manhosa e retira os véus do meu coração. Vai chegando, chegando para garantir o lugar dela. Quando noto, já ocupou todo o espaço, me empurrou para o canto, nossa, já estou quase caindo da cama – e não adianta pedir. Ela se enrosca em mim como se fosse uma gata.

Mel é assim. Tudo o que ela pede com aqueles olhos verdes eu dou, seja comida, cama, abraço, carinho. Quando conto para alguém sobre esse comportamento, as pessoas também dão palpites. Foi você quem deixou, não deu limites, não soube educá-la. Sim, minha escola é filiada ao partido do afeto e da sensibilidade. Minha escola tem partido sim e fica do lado esquerdo do peito.

Mesmo nas minhas andanças pela cidade, quando algum morador de rua pede dinheiro para comprar leite para o filho, com aqueles olhos embriagados de miséria, não dou. Mas se ele contar a verdade e pedir um trocado para comprar cachaça, eu dou o dinheiro na hora, sem hesitar. Morador de rua não precisa daquele leite industrializado, aguado, sem vitamina ne- nhuma. Precisa é de algo que o faça esquecer a vida indigna em que vive nas ruas de um país cujo partido é “um coração partido”, como cantava Cazuza. Um país cheio de regrinhas e ditames, breguice – e por que não dizer, babaquice? Poupem-me!

A Mel chegou à minha vida para ser amada, quebrar regras. A culpa de Mel ser mimada, acariciada e amada é minha, minha culpa, minha máxima culpa, confesso de joelhos. Tem gente que odeia animais, não é Waninha? Tem até uma palavra antiga e fora de moda para definir o que elas sentem. É ojeriza, a ponto de chutá-los na rua, passar com o carro por cima e abandonar o corpo na pista ou de envenená-los, porque os cães são livres de qualquer maldade. Sabem farejar as energias vampiras, sabem separar os bons dos maus.

Foi o caso de Generoso e, por último, de Pretinho. Eles não faziam mal a ninguém. Eram livres, mas você, Waninha, cuidou muito bem deles, mesmo que fossem animais abandonados. Dava água, comida, carinho, cuidava das feridas com violeta de genciana, dava remédio para pulgas e carrapatos e até levou Pretinho para castrar na caravana que passou aí na Serra do Cipó, para que ele não multiplicasse o abandono. Mas também foi brutalmente envenenado. No Cipó, cidade onde morei por um tempo e adotei a Mel por insistência sua, que é protetora dos animais, das águas, das plantas, das flores, árvores, pássaros e qualquer espécie de ser vivo.

Não queria mais cachorro depois da morte da Frida, mas quando vi a Mel, desabei de afeto. Foi amor à primeira vista. Mas vim embora, porque sou muito urbana para viver no mato. Apesar de ter aprendido muito com o nativo Toni, de planta, de flor, de inseto, de bicho e principalmente de estrelas. Ele era capaz de apontar as Três Marias, a Via Láctea, de desvendar o Universo como se fosse um astrônomo – e tudo a olho nu, sem telescópio. Era a intimidade com o céu que só o Toni tem. Por favor, Waninha, dê um abraço no Toni, diga que sinto saudade das nossas conversas e de observar o Universo na companhia dele, de esperar pelas estrelas cadentes. Diga que ele me ensinou muito e principalmente a ser uma pessoa mais simples. Diga para o Toni também que daqui é difícil demais vasculhar o céu da janela do apartamento. Quando estou com saudade ligo o computador, no site Zhênite, e admiro o Universo com toda a sua grandeza.

Voltando à Mel, digo que ela está bem. A vida urbana não lhe fez mal. Sabe por quê? Porque tem afeto, abrigo, carinho e comida. Ela tem amor. Acho que ela – assim como eu – às vezes sente saudade de andar no meio do mato, de tomar banho de rio e de cachoeira, de cheirar flor e de ouvir a sinfonia dos pássaros ao amanhecer. Das corujas piando em cima dos postes de luz. Mel sente falta de comer grama, de correr livre, sem rumo. Mas aqui Mel tem amor não adestrado, do tamanho que ela merece.

Bem, Waninha, por hoje é só. Com gratidão me despeço de você. Mel está bem, manda lembranças do lado de cá, confortavelmente instalada na minha cama.

PS: Para desejar um Feliz Natal e que a estrela-guia aponte o caminho para que a gente possa encontrar um lugar onde haja simplicidade, delicadeza, doçura e compaixão.


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