O café produzido na Chapada de Minas, região formada por 22 municípios no Vale do Jequitinhonha, teve sua Indicação Geográfica (IG) reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), na modalidade Indicação de Procedência (IP). A produtora Carmen Lydia Junqueira Puliti Meirelles, presidente do Instituto do Café da Chapada de Minas (ICCM), explica que a conquista é fruto de um intenso trabalho focado na melhoria da qualidade do grão, uma vez que a região não tem uma longa tradição na produção cafeeira.
Lydinha, como é mais conhecida na região, explica que o solo da Chapada de Minas é mais pobre que o do Sul de Minas, onde nasceu e também produz café, na Serra da Mantiqueira. “O solo a gente corrige, mas o clima ninguém consegue corrigir, é Deus que decide. Por isso é importante irrigar o café. Antigamente aqui era muito úmido, mas hoje a gente já não vê mais aquela umidade constante que tinha, principalmente no inverno”, explicou.
E não é à toa que a presidente do ICCM fala sobre o clima. Os produtores da Chapada de Minas não convivem com o “fantasma” das geadas, um dos principais problemas do produtor de café, que foi o fator que arruinou os cafezais do seu sogro no Sul de Minas, e o que levou ela e o marido agrônomo para a Chapada há 38 anos. Outro “tempero” importante fornecido pela região para se ter um café de qualidade é a altitude média de 1.000 metros.
Além do cultivo, o pós-colheita foi outro ponto que passou a ser observado pelos produtores da região. “O produtor colhia o café e já vendia para pagar as contas. E nós trabalhamos para que ele agregasse valor ao produto. Não adianta cuidar bem da planta se, depois de colher o café, você joga no terreiro de secagem e deixa ele sujeito à umidade, à chuva, sem rodar direito? Esse café não vai ter boa qualidade”, explicou Lydinha.
Entre os cuidados adotados após colher o café estão a secagem em terreiros suspensos e a cobertura para proteger esse grão durante a noite. Os cafés especiais chegam a ser colhidos à mão. Mesmo com o café comum (commodity), colhido com máquina, existe um cuidado no processo de secagem que resulta em uma melhor qualidade.
Além do trabalho pela qualidade do café, implementado por meio de palestras e dias de campo, também foi dada uma atenção para a gestão do negócio por meio dos projetos Educampo, do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae/MG), e a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg). Um projeto do ICCM chamado “Visita de Bons Exemplos” levava os produtores da região a fazendas de café bem estruturadas para mostrar os pontos que poderiam ser replicados dentro de orçamentos limitados.
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Outro ponto trabalhado junto aos produtores de Chapada de Minas foi entender que tipo de café eles estão colhendo, por meio de cursos de degustação e classificação do grão. O próprio ICCM recebe amostras de seus associados para prova e classificação em seu laboratório.
“Antigamente eles não tinham noção do café que colhiam. Os corretores de café chegavam e colocavam defeito no produto para pagar menos que o justo. Hoje, eles já têm argumentos para negociar melhor esse café e isso faz muita diferença. Teve um pequeno produtor que me agradeceu porque, com o nosso laudo de classificação, seu café valorizou em mais de R$ 70 a saca”, relatou Carmen Lydia.
Cooperativa de produção
Apesar de ainda estar comemorando a Indicação Geográfica, ainda existe muito a ser feito pelo setor cafeeiro da Chapada de Minas. A presidente do ICCM conta que está se mobilizando para fundar uma cooperativa de produção, que traria muitos benefícios para os produtores da região. “Para mandar um café para o Sul de Minas, a gente paga R$ 5 mil de frete. Chegando lá, ele tem que ficar estocado e você também paga armazenamento. Isso diminui a nossa margem de lucro ou aumenta os custos para quem compra”, explicou.
Carmen Lydia, presidente do Instituto do Café da Chapada de Minas, está se mobilizando para formar uma cooperativa de produção
Para Lydinha, a materialização dessa cooperativa é um “trabalho de formiguinha”, mas a atual conquista criou um clima mais favorável no sentido de aumentar a consciência de que é preciso ter união entre os produtores. Ela explica que, atualmente, o café da região é direcionado para o Sul de Minas, a 800 quilômetros dali, o que faz com que perca a sua identidade. “Com uma cooperativa o produtor pode ter tudo à mão para comprar. Para se ter ideia, aqui na Chapada o calcário tem que vir de Arcos e o adubo vem da Bahia”, exemplificou.
Recente tradição
De acordo com Carmen Lydia, a produção de café na Chapada de Minas é relativamente recente, com cerca de 50 anos, entre a primeira e segunda geração de produtores. A presidente do ICCM descreve o desafio que foi reunir a documentação necessária para comprovar a presença da cafeicultura na região há pelo menos 40 anos: “O mineiro é desconfiado por natureza. Então, quando a gente chegava na fazenda de alguém para reunir esse histórico, eles ficavam com o pé atrás. Isso atrasou bastante o nosso trabalho, apesar deles saberem que era do instituto, que era para o Sebrae, que foi o foi e é o nosso grande parceiro nessa caminhada.”
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A Chapada de Minas é formada pelos municípios de Água Boa, Angelândia, Aricanduva, Capelinha, Caraí, Carbonita, Catuji, Diamantina, Felício dos Santos, Franciscópolis, Itaipé, Itamarandiba, José Gonçalves, Ladainha, Leme do Prado, Malacacheta, Minas Novas, Novo Cruzeiro, Senador Modestino Gonçalves, Setubinha, Turmalina e Veredinha.
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Essa região reúne cerca de 5.800 produtores e 30 mil hectares de área cultivada de café. De acordo com a última estimativa, a atividade gera 20 mil empregos diretos e indiretos, com uma produção anual de 400 mil sacas de café arábica. No entanto, como esse cálculo já tem 14 anos, Lydinha acredita que atualmente essa produção seja muito maior.
