Crescimento do PIB acima das estimativas é uma armadilha para gestão Lula
Estímulos fiscais nos dois primeiros anos de mandato levam a medidas restritivas, como alta dos juros, para desacelerar a economia no período de disputa eleitoral
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Era para ser motivo de comemoração apenas, no entanto, o crescimento de 3,8% da economia registrado em 2024 endossou a discussão sobre erros na condução da política fiscal do governo Lula e a necessidade do choque de juros promovido pelo Banco Central. A análise que se faz no mercado é : a equipe econômica inverteu a lógica do Ciclo Político de Negócios.
O termo refere-se à implementação de políticas públicas restritivas na primeira metade do mandato para equilibrar as contas com a adoção, nos dois anos seguintes, de medidas de aumento dos gastos para maximizar a popularidade dos governantes. No terceiro mandato, Lula faz o contrário: aumentou os gastos nos dois primeiros anos e, em 2025 e 2026, precisara segurar o crescimento da economia para controlar a inflação.
O Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do BC ainda é uma prévia do desempenho da economia no ano passado e mostra uma atividade mais acelerada do que previa a própria equipe econômica e os analistas de mercado (3,5%), ainda na esteira dos impulsos fiscais dados pelo governo em 2023, primeiro ano da gestão Lula-3. Na lista da agenda fiscal positiva para economia, nesse período, estão o aumento do salário mínimo, o reajuste dos servidores públicos, a correção da tabela do Imposto de Renda, a ampliação do Bolsa Família ei pagamento de precatórios represados. Sã gastos públicos que impactaram a renda e o consumo, estimulando investimentos das empresas e o mercado de crédito.
Isso levou ao que, no final do ano passado, o então diretor de Política Monetária do BC, Gabriel Galípolo, chamou de “efeito multiplicador surpreendente” na atividade econômica. Segundo o economista, o fenômeno se deu menos pelo tamanho do impulso fiscal e, mais, pelo “efeito que está gerando”. Hoje, como presidente do BC, ele comanda um choque de juros com objetivo de conter a consequência desses estímulos fiscais: mais inflação.
Essa pressão nos preços vem, em parte, porque a demanda está maior do que a capacidade de ofertar bens e serviços. Para analistas e economistas, o nível de crescimento da economia brasileira sem riscos para inflação oscilaria entre 2% e 2,5% ao ano. O dado oficial que mostrará quanto o Brasil cresceu, de fato, em 2024 só será divulgado em março pelo IBGE. Mas a prévia de 3,8% aponta um ritmo bem acima do potencial do país.
“Há aprendizados importantes nesse dado: a expansão fiscal de cerca de 3% do PIB em 2023 gerou muita distorção”, diz o economista Roberto Padovani (Banco Votorantim). “Primeiro, foi financiada com mais endividamento público e a dívida explodiu, depois colocou o PIB acima do potencial e gerou mais inflação.”
O remédio para tentar reequilibrar a economia e tentar fazer com que a inflação que beira os 5% recue para o patamar de 3% já foi ministrado pelo BC: alta de dois pontos percentuais na taxa básica de juros, a Selic, em dois meses e a previsão de mais um ponto de elevação no mês que vem, alcançando 14,25% ao ano. Pelas projeções atuais do mercado, os juros ficarão em torno de 15% ao ano durante boa parte de 2025.
A estratégia é desacelerar a economia. Acredita-se que o PIB de 2025 deva ficar abaixo de 2%. E o canal principal para o BC é o mercado de crédito, que ajuda a desestimular investimentos financiados em especial dos pequenos e médios negócios e reduz emprego e renda. O problema é que tudo isso deverá se consolidar a partir do segundo semestre deste ano e em 2026, ano de disputa eleitoral pela sucessão do presidente Lula. E, também, período em que o petista já disse que quer colher frutos das medidas implementadas nos primeiros anos da sua gestão.