Entrevista Mateus Simões - governador de Minas Gerais

"O que eu tenho que fazer é trabalhar" 

Governador e pré-candidato à reeleição defende escola cívico-militar, tolerância zero com o crime e destaca investimentos em hospitais e na ampliação do metrô

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O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), defendeu o modelo de escolas cívico-militares durante entrevista exibida no último sábado no programa EM Minas, da TV Alterosa em parceria com o Estado de Minas. Ao comentar a suspensão do processo de consulta às comunidades escolares pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), Simões afirmou que os pais devem ter o direito de escolher o modelo educacional dos filhos e disse esperar a aprovação, pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), do projeto enviado pelo governo para regulamentar a iniciativa.

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Segundo o governador, o modelo proposto pelo Executivo não prevê interferência militar no conteúdo pedagógico das escolas, mas atuação disciplinar em unidades situadas em áreas de vulnerabilidade social. “É um militar na entrada controlando quem entra e um militar no pátio controlando o funcionamento fora de sala de aula”, afirmou. Simões também criticou manifestações contrárias ao projeto durante a entrega da Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, e disse que o governo não deve interferir na escolha das famílias sobre o tipo de educação desejada.

Durante a entrevista, o governador também falou sobre segurança pública, defendendo uma política de “tolerância zero” contra o crime organizado e apoiando a classificação de Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Simões ainda comentou a privatização da Copasa, afirmou que os recursos da venda serão destinados a obras de infraestrutura e habitação, e destacou investimentos em hospitais regionais, a ampliação do metrô de Belo Horizonte e recuperação de rodovias estaduais. Confira a entrevista.

Durante viagem inaugural de novo trem do metrô de BH, na última sexta-feira, o governador Mateus Simões leu edição histórica do EM
Durante viagem inaugural de novo trem do metrô de BH, na última sexta-feira, o governador Mateus Simões leu edição histórica do EM Jair Amaral/EM/D.A Press

O senhor se declarou favorável à decisão dos Estados Unidos de classificarem PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Por quê?
É muito importante porque, com essa classificação, todo o aparato de investigação financeira internacional dos Estados Unidos passa a estar à disposição do estrangulamento financeiro dessas organizações. E a melhor forma de acabar com o crime organizado é estrangular financeiramente esses grupos. Isso permite o uso de instrumentos de bloqueio de valores e imposição de sanções que até hoje não eram utilizados contra o PCC e o Comando Vermelho.

No seu governo, o senhor está adotando uma medida de tolerância zero para a organização criminosa. O que significa isso em Minas Gerais?
O Brasil convive há anos com o avanço de territórios dominados, especialmente em estados vizinhos como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Em Minas Gerais, o trabalho é impedir que essas estruturas se instalem aqui. Como o estado é rota de passagem entre regiões do país e fronteiras como Paraguai e Argentina, esses grupos estão muito presentes ao longo das rodovias federais. Nós vamos continuar trabalhando para expulsá-los, um a um, com lógica de tolerância zero.

Qual é o modelo de escola cívico-militar que o senhor defende para Minas Gerais?
O modelo que defendemos é o mesmo implantado em estados como São Paulo e Paraná, com consulta prévia à comunidade escolar. Pais, alunos e professores decidem se querem transformar a unidade em escola cívico-militar. Não é um colégio militar tradicional nem interfere na parte pedagógica. São dois militares por turno, atuando no controle de entrada e na organização dos espaços fora da sala de aula. A proposta é levar mais disciplina e segurança para escolas em regiões vulneráveis, onde há casos de tráfico de drogas e ameaças contra professores e alunos. Nós consultamos 95 escolas e a maioria quis aderir ao modelo, mas o Tribunal de Contas impediu a continuidade do processo. Por isso, enviamos um projeto de lei para a Assembleia.

Como tem sido a preparação do senhor como pré-candidato a mais um mandato pelo governo de Minas?
No meu caso, é mais fácil porque estou no cargo e o que eu tenho que fazer é trabalhar. Se eu entregar o adequado, as pessoas vão estar bem-humoradas comigo na eleição. Se eu não entregar o adequado, elas podem estar decepcionadas e buscar alguma outra alternativa. Estou animado com a possibilidade de suceder o Zema, com as entregas que estamos fazendo e com a oportunidade de rodar Minas e ver como a vida das pessoas está mudando

O senhor, quando assumiu o governo, colocou um projeto de 100 dias, para rodar as cidades do interior. Isso é para aproximar o Executivo das demandas do interior das cidades mineiras? Ainda está, inclusive, rodando o governo?
Estou rodando ainda. Apesar de eu ser do interior, eu estou em Belo Horizonte há mais de 30 anos. Separei as 19 regiões, estou visitando uma a uma em cada região, escolho uma capital e rodo em torno dela. Isso é para lembrar as pessoas que o governo de Minas reconhece que, em Minas Gerais, 76% da população está no interior, 80% do PIB. Nós somos o único estado do Sudeste, um dos únicos dois do Brasil, em que a maior parte da população não está na metropolitana.

O senhor já tem um balanço para apresentar?
Estou na 14ª cidade e já atendemos 110 mil pessoas nas feiras de serviços, com emissão de carteira de identidade, castramóvel e vacimóvel. O Estado pega tudo o que faz e leva para as pessoas verem que isso é o Estado trabalhando. Além disso, estou discutindo com prefeitos e deputados como usar os recursos da venda da Copasa. Já montei 14 planos de investimento de cinco anos em infraestrutura, definindo quais estradas serão duplicadas, asfaltadas ou recuperadas. Isso me dá muito ânimo, porque é uma forma responsável de tratar esse dinheiro

Vai ser importante para a população a privatização da Copasa, para uma universalização do serviço? Qual é a importância da privatização financeiramente? Como esse dinheiro vai ser investido em Minas Gerais?
A venda da Copasa não acontece por escolha do governo, mas por necessidade dentro das regras do Propag, que exige a alienação da companhia para a renegociação da dívida de Minas Gerais. Os recursos arrecadados terão uso exclusivo nas áreas previstas pelo programa, como infraestrutura, segurança e habitação. A ideia é transformar esse patrimônio em outros investimentos importantes para os mineiros, sem usar o dinheiro apenas para aliviar despesas momentâneas do Estado.


Outro ponto: a privatização não muda o preço da água nem do esgoto. Quem controla esse preço é a nossa agência de regulação. A qualidade da água e do esgoto vai melhorar, porque nós vamos ter condição de fiscalizar. Hoje o Estado não fiscaliza, porque ele mesmo é o proprietário da companhia. Terceiro, nós estamos obrigando quem entrar a cumprir todos os prazos de universalização de água e esgoto.

O senhor empossou há alguns dias a coronel Cleide Barcelos, comandante da Polícia Militar. Primeira mulher a assumir o comando da Polícia Militar de Minas Gerais em 251 anos de instituição. Qual é a importância disso?
Hoje, as três forças policiais de Minas são comandadas por mulheres: Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. O mais importante é que elas chegaram aos cargos pela competência e pela experiência que têm para exercer essas funções.

Recentemente, o Atlas da Violência divulgou a redução do número de homicídios no Brasil, comparado aos últimos anos. Minas Gerais acompanha esse número de redução de homicídios?
Nós tivemos aumento dos homicídios de causas não identificadas, o que mostra uma deficiência no quadro da Polícia Civil. Hoje eu tenho uma limitação legal de 7 mil policiais civis, mas Minas já teve 14 mil, então faltam investigadores. Já assumi o compromisso de buscar uma autorização extraordinária de contratação, inclusive recorrendo ao STF, se necessário. Apesar disso, Minas continua sendo o estado mais seguro do Sudeste e um dos mais seguros do país, ainda que na parte de investigação nós estejamos devendo por falta de efetivo

A gente tem um problema crônico ainda na nossa malha viária. É uma preocupação o investimento nas rodovias mineiras? Continua sendo uma prioridade do governo?
Sem dúvida nenhuma. Eu dividiria em três blocos o problema. O primeiro bloco é o das nossas rodovias estaduais, 24 mil quilômetros de estrada. A gente já conseguiu reformar 6 mil dos 9 mil que estavam em péssimo estado de trafegabilidade, mas ainda faltam 3 mil que a gente precisa continuar investindo. O governo federal é muito deficitário com a gente em investimento nas federais, 040, 381, 251 e 116. Espero que as concessões funcionem, porque as concessões do governo Dilma foram um desastre em Minas Gerais. Novas concessões foram feitas agora, a gente está esperando as obras. Em Belo Horizonte, nós temos um problema grave, que é o Anel Rodoviário, e temos a solução dada pelo governo do Estado, uma obra de R$ 11 bilhões, que é a construção do Rodoanel, que está parada por conta de um imbróglio jurídico inaceitável. Já até disse isso antes, mas se a Justiça Federal não liberar essa obra até o meio do ano, eu vou começar a propor que a gente redestine esse dinheiro para, por exemplo, a ampliação do metrô. Porque não tem cabimento a gente ficar esperando porque tem que ficar fazendo consulta a não sei quantos mil quilombolas.

Governador, o senhor prometeu entregar os cinco hospitais regionais ainda neste ano. Como está o andamento dessas obras?
O hospital de Teófilo Otoni começou a operar nesta semana. O de Divinópolis já foi entregue pronto e equipado ao governo federal e deve ser inaugurado oficialmente na próxima semana. Em Sete Lagoas, a entrega para a prefeitura acontece nos próximos dias, em uma obra de quase R$ 100 milhões, com mais quase R$ 100 milhões previstos para equipar a unidade. O de Governador Valadares será entregue entre o fim de junho e o início de julho. Já o de Conselheiro Lafaiete fica pronto no fim do ano.

Como é que o senhor enxerga Minas Gerais no fim deste mandato e numa possível reeleição em mais quatro anos?
Quando chegamos ao governo, Minas Gerais era um estado encabulado. O mineiro estava com vergonha da própria situação. Hoje, estamos devolvendo o orgulho para o mineiro, com um estado seguro, obras acontecendo, liderança na atração de investimentos e geração de empregos. Estamos com 3,8% de desemprego, algo que nunca aconteceu na história. Isso acontece porque o governo faz o necessário e sai da frente para que o mineiro avance. O mineiro é um povo extraordinário, do produtor de queijo àquele que trabalha na indústria.

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O que o senhor considera hoje ser o principal desafio em Minas Gerais?
O maior desafio de Minas Gerais é conseguir colocar a infraestrutura necessária à disposição de quem quer trabalhar. Seja estrada, seja ônibus rodando, o metrô rodando, a energia disponível. Porque isso demanda dinheiro. É por isso que ser responsável é importante. Não dá para fazer tudo. Mas tem que fazer aquilo que é importante para o estado poder deslanchar. Esse é o maior desafio de quem administra em Minas Gerais. 

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