Microcrédito ajuda a realizar grandes sonhos
Com taxas de juros mais baixas, empréstimos orientados voltados para o campo possibilitam o retorno às origens, transformando vidas e contribuindo para o desenv
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Um pouco que vira muito e transforma vidas. Este é o resultado do microcrédito, que avança cada vez mais no Brasil, fomentando a inclusão econômica. O sistema é inspirado no modelo do Grameen Bank, criado pelo economista Muhammad Yunus, vencedor do Prêmio Nobel da Paz pela iniciativa revolucionária de conceder pequenos empréstimos a pessoas de baixa renda sem exigir garantias.
O microcrédito também virou uma ferramenta de estímulo aos pequenos produtores rurais, entre os ex-retirantes do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, que saíram do semiárido mineiro fugindo da seca em busca de emprego e renda, pegando no pesado no corte de cana, colheitas e outros serviços e voltaram à terra de origem, retomando a produção no campo, focalizados na série de reportagens “De volta para casa”, do Estado de Minas.
No recomeço da atividade produtiva, após a volta à terra natal, além de aplicar o dinheiro suado que conseguiram juntar enquanto trabalhavam em lugares distantes, os ex-migrantes do semiárido mineiro contam com uma “mãozinha” do Agroamigo, programa de microfinança rural do Banco do Nordeste (BNB). Voltada para agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a linha de crédito concede empréstimos facilitados e orientados, com taxas de juros baixas (em torno de 0,5% ao ano) e descontos que podem chegar a 40% para quem paga as parcelas em dia.
Conforme dados do BNB, 2025 foi o maior ano da história do Agroamigo no Brasil, com R$ 9,5 bilhões contratados na área de abrangência da instituição (nove estados do Nordeste, juntamente com Minas Gerais e o Espirito Santo). Com R$ 833,3 milhões aplicados, Minas foi o sexto colocado na lista dos estados que mais receberam recursos do programa.
DO ARAME À ENERGIA SOLAR
Um dos ex-retirantes contemplados com a “mão amiga” do microcrédito é o ex-cortador de cana Jeremias dos Santos, de 43 anos, da localidade de Tesouras, no município de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. Ele deixou o local de origem pela primeira vez aos 19 anos, em 2002, para enfrentar a dura rotina de usinas de açúcar e álcool no interior de São Paulo, no Rio de Janeiro e Triângulo Mineiro. Depois de cinco anos seguidos trabalhando fora, interrompeu a migração e de fixou na terra natal, onde passou a cultivar na propriedade da família.
“Para mim, o financiamento do microcrédito foi essencial, uma bênção de Deus”, afirma Jeremias, que, de cortador, virou produtor de cana. Hoje, ele tem um canavial de 3 hectares, voltado à produção de rapadura e cachaça, atividade à qual se dedica atualmente, no período de estiagem “época da moenda”, como se diz na região. Também planta milho, feijão e mandioca, em sistema irrigado, usando água de uma barragem (Calhauzinho).
Jeremias conta que pegou o primeiro financiamento do Agroamigo no valor de R$ 500, uma pequena cifra, mas que valeu muito por viabilizar a compra do arame para o cercamento do seu terreno. Depois disso, conta ele, “renovou” – pegou, na verdade, o financiamento por mais quatro ocasiões, nos valores de R$ 1.500 (aplicado em uma máquina de fazer ração), R$ 2.500 (duas vezes no mesmo valor para aluguel de máquinas, preparação de terreno para o plantio e outras benfeitorias), de R$ 15 mil (compra de caixa d’água e equipamentos para irrigação); e de R$ 20 mil (aquisição de equipamentos e montagem de uma usina solar na propriedade).
“Estou muito satisfeito. Acho que o microcrédito veio para apoiar de fato os pequenos (produtores) da zona rural”, declara Jeremias, que trabalha junto com a Adilane Luiz Ramalho, de 34, e com a ajuda de um dos três filhos do casal.
UM POUCO DE TUDO
Outro ex-retirante que recorreu ao microcrédito destinado ao fomento da agricultura familiar para fazer o caminho inverso do êxodo rural é Aurílio Pereira da Silva, de 51, da comunidade de Água Fria, no município de Fruta de Leite, no Norte de Minas. Em 2000, aos 26 anos, ele deixou a região em direção a Araguari, no Triângulo Mineiro, onde trabalhou em colheita de café, fazenda de gado e criação de peru. Em 2011, pegou o caminho de volta. Com o dinheiro que conseguiu juntar nas jornadas longe de casa, comprou um pedaço de terra, de 34 hectares, na localidade de Água Fria.
Aurílio recorda que comprou a terra, mas faltava o dinheiro para investir na atividade produtiva. Foi aí que recorreu ao Agroamigo, ainda que estivesse um pouco indeciso. “Eu voltei cheio de dúvidas. Me diziam: 'Você é doido de ter coragem de deixar uma região rica (Araguari) para voltar para uma região seca'. Mas eu tinha um sonho de ter o meu próprio chão”, relata. Com o impulso do programa de microcrédito, ele realizou o sonho e melhorou de vida.
O agricultor conta que fez o primeiro financiamento no programa de microcrédito em 2012, no valor de R$ 12 mil, quantia que foi aplicada na compra de vaca, uma máquina de fazer ração (desintegrador) e na construção de uma pequena represa em seu terreno. Na sequência, recebeu vários outros empréstimos.
“Sem o apoio do banco (BNB) seria quase impossível enfrentar os anos seguidos de seca aqui”, diz Aurílio. “Hoje, posso dizer que tenho a produção de tudo, de porcos, frangos, peixe, um gadinho de leite, cultivo de frutas, como banana, mamão, mexerica ponkan e acerola, e hortaliças em geral”, conclui o ex-migrante, que, além do mercado regional, fornece frutas e verduras para a merenda escolar. Ele é casado e pai de um filho.
FRUTOS DA IRRIGAÇÃO
Ainda no município de Fruta de Leite, na localidade de Ribeirão do Jequi, Vilson Barbosa da Silva, de 58, também protagoniza a história de ex-retirante a bem-sucedido agricultor familiar com o empurrão do microcrédito. Vilson deixou a zona rural de Fruta de Leite menor de idade, em meados dos anos 1980, e foi para São Paulo procurar emprego.
Depois de 17 anos de labuta como carregador na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), começou a trabalhar numa área de cultivo de hortaliças e frutas de um descendente de japonês em Cosmópolis, na Região Metropolitana de Campinas. No lugar aprendeu o manejo do plantio de goiaba.
Em 2015, retornou a Fruta de Leite e comprou um terreno de 7,5 hectares, onde passou a aplicar na prática o que aprendeu em São Paulo, se dedicando à produção. Vilson recorreu ao Agroamigo – já recebeu o financiamento com juros diferenciados três vezes, sendo o último empréstimo no valor de R$ 15 mil. Investiu o recurso na preparação do terreno e em equipamentos de irrigação de uma área plantada de 1,5 hectare. “Com a irrigação melhorou muito. Antes, eu tinha que molhar os pés de goiaba de balde, carregando à mão”, afirma o pequeno agricultor, que vende a produção em Fruta de Leite e nos municípios vizinhos de Salinas e Novorizonte, fornecendo também para a merenda escolar.
Vilson afirma que voltou à terra natal porque “cansou” da rotina pesada em São Paulo. “Eu deveria ter voltado antes. Se eu tivesse feito isso, acredito que hoje eu estaria melhor ainda”, diz o ex-migrante. “Graças a Deus, aqui está dando tudo certo. O microcrédito foi uma bênção. Pra gente que é fraco, esse empréstimo é tudo”, afirma o pequeno agricultor, que conta com o auxílio da esposa, Maria de Fátima Correia da Silva.
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Com o dinheiro do financiamento a taxas diferenciadas, ele conseguiu comprar 17 cabeças de gado e fazer um curral. “Com o gadinho e o curral, agora tenho o esterco e não preciso mais gastar com a compra de adubo para as goiabeiras”, comemora.