‘Só por uma noite’ é comédia em que sexo se tornou ilegal
No longa em cartaz, dois jovens solteiros tentam aproveitar a única ocasião em que é permitido transar antes do casamento, nos EUA, num futuro nem tão distante
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Injustamente consideradas um gênero menor, as comédias românticas por vezes rendem mais do que boas risadas e alguns suspiros. Além do entretenimento de vida curta, podem trazer, por exemplo, visões sagazes do amor de seu tempo.
“Só por uma noite”, de Will Gluck, não tem vocação para se tornar um clássico da categoria. Ainda assim, vale o ingresso, a começar por sua premissa. Num futuro nem tão distante, o sexo antes do casamento foi banido dos Estados Unidos por obra de um governo fascista. Biossensores fazem o controle, impossível de ser burlado, sob pena de prisão. A proibição, porém, é suspensa temporariamente uma noite por ano, no verão.
Ocasião perfeita para roupas curtíssimas e decotadas, paqueras ostensivas, quebra no estoque de camisinhas, amassos prolongados nas ruas, no metrô, nos bares, em casa.
Numa Nova York ensolarada, acompanhamos Allie, papel de Monica Barbaro, e Owen, vivido por Callum Turner, por pouco mais de 12 horas. Cantora de jingles promocionais, ela está solteira e quer encontrar um parceiro para transar, mas não só.
Dono de pizzaria, ele se prepara para pedir a namorada, encarnada por Maya Hawke, de “Stranger things”, em casamento num restaurante japonês da moda, mas recebe a notícia de que a agora ex-noiva prefere transar com o vizinho gato.
Allie e Owen não se conhecem, mas, como costuma acontecer nos longas do gênero, passam a noite se esbarrando nas mais esdrúxulas circunstâncias. Não é preciso ser especialista para adivinhar, já nos primeiros minutos, que ficarão juntos. De fato, não é o suspense nem a surpresa que fazem o charme do filme.
COMENTÁRIO
O roteiro, irregular, tem lances hilários e comoventes, mas algumas fraquezas. A masturbação também é proibida? Por que o amor hétero é tão preponderante? Há ainda alguns deslizes de continuidade e incongruências.
Mais interessante, no fim das contas, é o comentário que a história traz sobre o lugar do sexo e do romance no mundo em que vivemos, marcado por conservadorismo, excesso de telas, solidão, ghosting. É difícil ver o filme sem lembrar das estatísticas que indicam que os jovens de hoje transam com menor frequência do que no passado.
Em “Imaginação da catástrofe”, célebre ensaio publicado nos anos 1960, Susan Sontag explica que filmes ambientados no futuro costumam expressar medos e desejos reais do presente.
Nessa perspectiva, “Só por uma noite” parece tentar reencantar o sexo, a paquera e o desejo. O roteiro produz esse efeito, embora sob uma mensagem de fundo conservador, como é típico do gênero: o final das comédias românticas costuma conduzir a um restabelecimento da ordem, com cada um encontrando seu cada qual, num apogeu que não raro leva ao casamento.
Ainda que os políticos sejam criticados pela lei tão radical e sem sentido, não há sinais de uma revolta e, nesse mundo distópico, o casamento é, curiosamente, o melhor horizonte de sexo livre.
Trata-se de uma comédia romântica simpática, nem tão engraçada ou tão romântica quanto os memoráveis roteiros de Nora Ephron, como “Harry e Sally”, de 1989.
Os atores são bons, mas sem o brilho de estrelas do gênero, como Julia Roberts ou Meg Ryan. Ainda assim, é garantia de diversão, algum romantismo e talvez a alegria de viver em um mundo em que não é crime transar de vez em quando.
OUTRAS ESTREIAS
Entraram em cartaz também nesta semana em BH a comédia “Amigas sem filtro”, de Jon Lucas e Scott Moore; o drama adolescente “Coração partido”, de Mikhail Vaynberg; o suspense “Refém por um fio” (foto), de Gus van Sant; o terror “Sobrenatural: Agora entre nós”, de Jacob Chase; e a comédia brasileira “O Shaolin do sertão 2”, de Halder Gomes. Exclusivamente no Cine Belas Artes e no cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas, está em exibição “Anistia 79”, documentário nacional de Anita Leandro sobre exilados da ditadura brasileira que o governo se recusava a anistiar. Também no Belas está em cartaz o documentário “Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer”, de Hélio Goldsztejn. O filme lança novo olhar sobre a vida e a obra da artista paulistana morta em 2017, aos 90 anos, que transformou a própria casa em ateliê e experimentou materiais tão diversos quanto acrílico, chapas de metal, pedras e conchas.
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“SÓ POR UMA NOITE”
(EUA, 102 min. De Will Gluck. Com Callum Turner, Tyonne Chambers, Grace Dumdaw e Duncan Jui. Classificação: 16 anos). Em cartaz no Cine Belas Artes e nos shoppings BH, Big, Boulevard, Cidade, Contagem, Del Rey, Diamond, Estação, Itaú Power, Minas, Monte Carmo, Norte, Partage, Pátio e Ponteio.