Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade

A morte que não aconteceu

Quando a morte é usada como recurso estético para anunciar recomeços, o luto dos outros também é convocado para a cena

Publicidade

Mais lidas

 Há muitos anos venho me dedicando a compreender filosoficamente a morte, o que faz de mim alguém que a considera um evento muito especial. Não porque me seja querida ou desejada, mas porque acredito que ela representa a possibilidade última da experiência humana.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Por alguma razão que desconheço, essa fase final da vida me emociona profundamente, de modo que me comove saber que alguém que conheci finalizou sua existência. Por isso, sofro de um modo às vezes até mesmo injustificado e, sempre que posso, compareço ao velório de familiares, amigos e conhecidos para render minhas últimas homenagens. 

Na semana passada, recebi de uma colega a informação de que outra colega havia falecido. Minhas pernas tremeram, fiquei completamente em choque: ali, na minha frente, o santinho com dia, horário e local, de alguém com quem eu já havia partilhado muitas manhãs.

O que me perturbou foi exatamente o fato de ela não ter mais de cinquenta anos, ser aparentemente muito saudável e não ter demonstrado ao longo da convivência qualquer problema de saúde. Mesmo atordoada, defini que iria ao velório - que ocorreria no outro dia, ao meio-dia, em um cemitério da cidade, tudo perfeitamente descrito no convite fúnebre.

Consternada, liguei para uma outra colega e, para minha surpresa, quando relatei a notícia ela me encaminhou um link direto ao Instagram da pessoa cuja morte havia sido anunciada, no qual havia um vídeo em que ela expunha ao público as razões pelas quais, mais cedo, havia convidado todos para o seu velório. O vídeo explicava que ela não havia morrido fisicamente, mas sim que, simbolicamente, havia decidido encerrar um ciclo, morrendo e renascendo. O santinho era uma metáfora e a morte foi usada como recurso estético para anunciar um recomeço. 

Confesso que fiquei algum tempo sem saber o que fazer com o que eu estava sentindo. A minha tristeza, meu choque e meu luto foram reais. Fiquei com um sentimento que não chegou a ser raiva propriamente, mas uma espécie de estranhamento filosófico em perceber que alguém havia se apropriado do símbolo mais absoluto da existência humana – a morte - para narrar uma transição pessoal.

E eu, que, por dedicar tanto tempo ao seu estudo, a considero intocável em sua seriedade, havia sido convocada a sentir – e senti – como plateia de uma performance que nunca contou com meu consentimento. 

Em seu livro "A Sociedade do Cansaço", o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, dá uma boa descrição sobre como as pessoas transformaram cada dimensão das suas vidas interiores em narrativas a serem exibidas para o público. A obra do autor nos ajuda a compreender que talvez não haja má intenção em muitos desses gestos, mas uma lógica cultural que não reconhece fronteiras.

Nesse sentido, não há experiências suficientemente sérias para escapar da gramática do conteúdo digital: o anúncio de uma morte e a própria morte, que pertencem ao registro do absoluto, do irreversível e do inexprimível e exigem de nós o silêncio, foram capturados. Tornaram-se recurso estético disponível para narrar uma transição pessoal.

Mas dois problemas surgem quando a morte é usada como linguagem de autoexibição. O primeiro deles se refere ao esvaziamento cultural do significado da morte. Quando lhe retiramos, ainda que simbolicamente, o caráter irreversível e absoluto, corremos o risco de nunca nos confrontarmos verdadeiramente com a nossa morte, e esse é o único caminho para realmente entendermos o significado de sermos humanos.

O segundo é o esvaziamento é ético. Quando alguém mobiliza o aparato simbólico da morte para produzir conteúdo, essa pessoa convoca o luto alheio sem consentimento, reduzindo o outro à condição de audiência de uma narrativa da qual ele não quer ser parte.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Que fique claro, morte não é metáfora – e quando a tratamos como se ela fosse, perdemos não somente o seu sentido, mas também a capacidade de sermos afetados por aquilo que realmente importa e que conta com o nosso consentimento.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

amigos emocao morte velorio vida

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay