Quando pintei a Folhinha de Mariana de verde e amarelo
Seleção Brasileira sem Cruzeiro, não é seleção. Precisei repetir em voz alta para abafar a vontade de gritar "Brasil" que ia me dominando. Não consegui...
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Enfeitar a rua, as casas e todo o bairro de verde e amarelo ou se trancar no quarto, só riscando o passar dos dias na Folhinha de Mariana pregada atrás da porta, torcendo para a Copa do Mundo terminar o mais rápido possível?
Calma, extremista! A pergunta reflexiva não carrega cunho político-partidário. Trata-se apenas de uma dúvida bem honesta de um cruzeirense que já está morrendo de saudades do nosso Cabuloso em campo. Angustiado por ter de esperar por mais 50 dias para ver o meu escrete azul estrelado voltar a disputar as suas próprias copas – do Brasil e Libertadores – e o Brasileirão.
Para piorar os efeitos colaterais provocados pela longa parada das competições interclubes por conta do mundial de seleções, nenhum de nossos jogadores na pré-lista do treinador Carlo Ancelotti foi de fato convocado.
Futebol sem Cruzeiro, não é futebol. Seleção Brasileira sem Cruzeiro, não é seleção. Um dilema a atormentar alguns dos milhões de corações cruzeirenses.
Confesso (pela milésima vez) que passei a torcer contra o escrete nacional a partir da Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália. Não foi por trauma, ideologia política ou ato de rebeldia sem justificativa. Mas, sim, pelo fato absurdo do treinador Sebastião Lazaroni não convocar o meu ídolo Balu para ocupar a lateral direita da Seleção Brasileira.
Ali, eu colocava em prática o meu protesto em forma de lei individual: não torceria mais pelo Brasil nas Copas do Mundo.
Mas manter essa promessa não seria fácil, pois meu amor pelo Brasil (país e nação soberana) era – e continua sendo – imensurável. Ver todas as ruas enfeitadas e o povão se enchendo de esperança derruba qualquer coração brasileiro que tenta ficar alheio a essa catarse.
Então, para diminuir a dureza da minha lei-protesto, acabei por criar um adendo à nova regra: continuaria torcendo contra a Seleção Brasileira, porém, se algum jogador do Cruzeiro fosse convocado, eu daria uma trégua e me entregaria a gritar pelo “Brasil! Brasil!”.
Já na Copa do Mundo seguinte, em 1994, fui obrigado a acionar a prerrogativa criada por mim mesmo. O “menino Ronaldo”, com apenas 17 anos de idade, era o nosso representante entre os selecionados por Carlos Alberto Parreira. Tínhamos um jogador do Cruzeiro na Copa dos Estados Unidos! Eu seria Brasil!
Mesmo sem ele em campo (mas com o gênio Romário) em nenhuma das pelejas, vibrei como nunca a cada vitória daquela campanha sofrida até a conquista do tetra diante da Itália.
Em 2002, Edílson “Capetinha”, convocado por Felipão como jogador do Cruzeiro, me fez acionar novamente o dispositivo. Pulei e me embriaguei de verde e amarelo quando conquistamos a Copa do Mundo sobre a Alemanha.
Ancelotti divulgou a lista. Como já era de se esperar, Fabrício Bruno, Kaiki, Gerson, Matheus Pereira e Kaio Jorge não ficaram entre os convocados para a Copa do Mundo que se inicia no próximo dia 11, no Estádio Azteca, no México.
Seleção Brasileira sem Cruzeiro, não é seleção. Precisei repetir em voz alta para abafar a vontade de gritar “Brasil, Brasil” que ia me dominando. Não consegui...
Convoquei minha consciência, a racionalidade e a passionalidade para uma reunião de urgência. Argumentei. Escutei críticas, aplausos e repúdios, mas ao final consegui incluir um novo adendo à lei-protesto de não torcer pela Seleção Brasileira.
Caminhei em direção ao quarto escuro. Fui até a porta e olhei com amor para a Folhinha de Mariana, o centenário almanaque a marcar o passar dos dias. Tirei a caneta azul do bolso e, no dia 22 de julho, escrevi um lembrete: “Reencontro com meu amor, Cruzeiro.”
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Depois, saquei mais duas canetas e passei a colorir os 50 dias faltantes de verde e amarelo. O Thiago foi revelado pelo Cruzeiro e nos representa na Seleção Brasileira. Pelo segundo adendo, estou permitido a gritar “Brasil, Brasil!”.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
