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Reforço pré-natal para o cérebro

Grávidas que ingerem de seis a sete porções de fruta por dia têm filhos com desenvolvimento cognitivo melhor. Pesquisa foi feita com 688 crianças depois de completarem 1 ano de idade

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postado em 02/06/2016 00:12



Maçã, acerola e banana são indicadas para a saúde do cérebro. Antes mesmo, inclusive, de ele estar totalmente completo. Segundo cientistas do Canadá, mulheres que seguem uma dieta rica em frutas durante a gestação têm filhos com melhor desempenho cognitivo. Detalhes do estudo foram divulgados no jornal EbioMedicine e reforçam o quanto os cuidados durante o pré-natal funcionam como fator de peso no desenvolvimento de um indivíduo. A hipótese da equipe liderada por Piush Mandhane é que dois compostos presentes nesses alimentos –  o licopeno e a frutose – estejam por trás desse benefício.

“Sabemos que quanto mais tempo uma criança está no útero, mais ela se desenvolve. E ter mais uma porção de fruta por dia na dieta da mãe fornece ao bebê um benefício igual ao que teria se ele nascesse uma semana mais tarde”, explicou, em comunicado,  Piush Mandhane, também professor-associado de pediatria na Faculdade de Medicina e Odontologia da Universidade de Alberta.

Para chegar à conclusão, a equipe liderada por Mandhane usou dados do Canadian Healthy Infant Longitudinal Development Study, um corte de nascimentos em todo o Canadá que envolve informações de mais de 3.500 lactantes e suas famílias. Os pesquisadores focaram nos participantes da cidade de Edmonton, somando informações de 688 meninos e meninas. Além dos testes de cognição e das entrevistas sobre a dieta seguida pelas mães, levaram em conta fatores que normalmente afetam a aprendizagem e o desenvolvimento de uma criança, como renda familiar, grau de instrução dos pais e tempo gestacional.

A análise dos dados indicou que filhos de mulheres que comiam seis ou sete porções de frutas ou de suco de frutas por dia tinham seis ou sete pontos a mais na escala de quociente de inteligência (QI). “Trata-se de uma diferença substncial. É quase a metade do desvio-padrão”, analisou Mandhane. O QI médio é 100, sendo 15 pontos a oscilação esperada. A estimativa é de que dois terços da população fique entre 85 e 115 pontos. “Descobrimos que um dos maiores preditores do desenvolvimento cognitivo foi a quantidade de frutas que as mães consumiam durante a gravidez. Quanto mais, maior o desenvolvimento cognitivo da criança”, reforçou o cientista.

Parceria Para dar continuidade à pesquisa, Mandhane uniu os seus resultados ao trabalho de François Bolduc, professor adjunto da Faculdade de Medicina e da Divisão de Neurologia Pediátrica de Odontologia da universidade canadense. Bolduc pesquisa a base genética da cognição em humanos e em moscas-de-fruta. “As moscas são muito diferentes, mas, surpreendentemente, elas têm 85% dos genes envolvidos no funcionamento do cérebro humano. Isso as torna um excelente modelo para estudar a genética da memória”, disse Bolduc para justificar a parceria.

Segundo ele, há um longo histórico científico sobre aprendizagem e memória das moscas-de-fruta. Foi descoberto, por exemplo, que vários genes indispensáveis ao processo de memorização desses insetos também estão envolvidos na deficiência mental e no autismo em humanos. “É excepcional poder melhorar a memória de um indivíduo sem uma intervenção genética. Por isso, ficamos extremamente interessados em compreender a relação observada entre o aumento da ingestão de frutas no período pré-natal e a cognição mais elevada”, disse.

Bolduc conseguiu provar, em experimentos, que moscas nascidas de insetos alimentados com suco de fruta têm significativa melhora na capacidade de memória, conclusão semelhante à feita por Piush Mandhane após o estudo com crianças de 1 ano. Não houve uma diferença de aprendizagem quando moscas e humanos foram alimentados com frutas depois do parto.

Apesar dos resultados animadores, Mandhane alerta que não foram consideradas complicações ligadas ao consumo de frutas durante a gravidez, como o risco de diabetes gestacional, condição associada ao aumento da ingestão de açúcares. Por isso, diz, a importância de a mulher combinar a dieta com o especialista que a está acompanhando.

O trabalho canadense terá continuidade. A intenção é examinar se os benefícios do consumo de frutas durante a gestação se mantêm nos filhos ao longo dos anos e descobrir se esses alimentos podem interferir positivamente no desenvolvimento de atividades executivas das crianças, como as ligadas às áreas de planejamento, organização e memória de trabalho.

Acima do recomendado  
A proposta feita pelos canadenses ultrapassa o valor diário indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A agência das Nações Unidas sugere a ingestão de 4.000g diários de frutas e hortaliças, o equivalente a cinco porções desses alimentos. A recomendação, porém, é pouco seguida no Brasil. Segundo o último Vigitel, do Ministério da Saúde,
apenas 24,1% dos brasileiros seguem a dieta, sendo 28,3% de mulheres e 19,3% dos homens.
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