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Abelhas ajudam a detectar contaminação do ar por metais pesados

Durante pesquisa da Ufop foram encontrados metais como arsênico, chumbo, níquel, cromo, ferro, cádmio, cobre, manganês e alumínio. Em alguns casos, a concentração verificada estava 20 vezes maior que a habitual.

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postado em 20/10/2014 09:00 / atualizado em 20/10/2014 08:57

Eduardo Tristão Girão /Estado de Minas

Uma pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) está usando as abelhas para detectar, por meio do pólen e do mel, o nível de contaminação do ar por metais pesados em áreas próximas às que atuam mineradoras. Pode parecer incomum, mas iniciativas semelhantes já foram desenvolvidas no Brasil e na Europa. A novidade fica por conta da espécie de inseto escolhida: a abelha Jataí (Tetragonisca angustula), uma espécie nativa do país, diferente da principal produtora de mel daqui, que é o cruzamento de variedades africana (Apis mellifera scutellata) e europeia (Apis mellifera mellifera).

“A Apis mellifera é muito generalista e, por ter porte maior, não consegue visitar certas espécias de plantas que dão flores pequenas. As abelhas brasileiras, ao contrário, evoluíram com as plantas daqui e visitam espécimes que as outras não conseguem. Além disso, elas não têm ferrão, facilitando o trabalho do homem. Escolhemos a jataí porque ela ocorre no Brasil todo, se adapta a diferentes ambientes e é bem resistente, tanto que alguns autores a chamam de rústica”, explica a autora da pesquisa, Nathália de Oliveira Nascimento, biológa e mestre em ecologia de biomas tropicais pela Ufop.

O trabalho, intitulado “Seriam as abelhas sem ferrão boas amostradoras ambientais de contaminação atmosférica?”, foi desenvolvido em conjunto com os departamentos de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente e de Geologia, envolvendo os professores Yasmine Antonini e Hermínio Arias Nalini Júnior e a doutoranda Fernanda Ataíde de Oliveira. Nathália pesquisa a relação entre as abelhas e a poluição desde a graduação, e teve a ideia de usar a espécie nacional ao perceber que as demais iniciativas privilegiavam a Apis mellifera.

Ninhos da abelha
Jataí foram instalados numa distância máxima de um quilômetro de cavas de mineradoras de pequeno porte em Ouro Preto, Mariana, Itabirito e Nova Lima. “Esse é o raio de ação desses animais. Ao longo de um ano, coletamos mel e pólen uma vez a cada estação e fizemos análise geoquímica de ambos para ver a concentração de metais pesados e descobrir quanto cada mineradora estava contribuindo com a dispersão de metais pesados no ar. Eles grudam no pelo das abelhas, no pólen, nas flores, nas plantas, sendo que o néctar já vem contaminado”, explica ela.

Também foi instalado um ninho numa região considerada área de controle, ou seja, afastada das áreas de mineração, para fins comparativos. Durante a pesquisa, foram encontrados metais como arsênico, chumbo, níquel, cromo, ferro, cádmio, cobre, manganês e alumínio, entre 15 variedades. Em alguns casos, a concentração verificada estava 20 vezes maior que a habitual. Posteriormente, os resultados dos períodos de seca e chuva foram comparados, levando à conclusão de que os metais pesados foram encontrados em altas concentrações na atmosfera, sobretudo no período de estiagem.

Preço
Outra conclusão tirada pela pesquisadora foi a de que o pólen é melhor para esse tipo de medição do que o mel. “O pólen fica mais exposto que o néctar, e isso facilita o depósito dos metais pesados dispersos no ar. Ele é poroso e tem constituição química que permite melhor fixação dos metais pesados, além de ficar mais exposto na flor do que o néctar. Também é importante dizer que o pólen não é processado pelas abelhas, que engolem o néctar e o regurgitam com várias enzimas”, explica. “Daí, o mel ter menor concentração de metais pesados que o pólen (10 a 20 vezes menos, às vezes).”

Uma das vantagens desse método de pesquisa, acredita Nathália, é seu baixo custo: “A abelha é barata e o equipamento para análise do mel e do pólen, geralmente, as mineradoras têm.” Fazem parte dessa aparelhagem itens como espectofotômetro (que informa quais elementos químicos foram encontrados e a concentração de cada um) e um tipo de forno de micro-ondas que atinge temperaturas mais elevadas que o doméstico (para eliminar elementos orgânicos da amostra). Além disso, o monitoramento feito por abelhas rende informações mais abrangentes que as fornecidas por coletores de poeira.

A pesquisadora informa que há mineradoras interessadas em adotar essa metodologia para medição de poluição. “Ano que vem, devemos iniciar esse trabalho com uma empresa grande, em conjunto com a Ufop”, adianta. Nathália dará prosseguimento à pesquisa em seu doutorado.

Legislação do mel em pauta

As abelhas nativas brasileiras também têm lugar de destaque nas discussões da cena gastronômica brasileira. De acordo com a legislação nacional, apenas o mel proveniente da Apis mellifera pode ser chamado como tal, em razão da espécie do inseto e do nível de umidade do produto final (que, no caso do mel nativo, é maior que o determinado – 20%). No momento, estão em pauta temas como a necessidade de legislação específica para esses méis e processos que diminuam a umidade presente neles.

“Os méis de abelhas brasileiras, que são cerca de 300 tipos, têm em torno de 30% a 35% de umidade. Então, fermentam. São vivos, como queijos e vinhos. Essa lei foi feita em 1952 e sem estudos profundos para dizer que esse tipo de mel poderia trazer doenças, se consumido. Repetindo: não há estudo científico comprovando que esse mel fermentado faça bem ou mal à saúde”, polemiza o chef Alex Atala, do restaurante paulistano D.O.M., defensor do ingrediente.

Ele aproveita para lembrar a também atual discussão em torno dos queijos artesanais mineiros, cujo processo de produção (com leite cru, não pasteurizado) ainda gera discussão sobre segurança alimentar. “Na Europa, também houve problema com esses queijos, e como resolveram o problema? Foi entendido que, uma vez que representam uma cultura e que séculos de consumo nunca mataram ninguém, a cultura salvaguardava a existência desse produto. Os méis brasileiros fermentados são usados pelos índios como remédio. Por que nossa cultura vai continuar ignorando uma sabedoria ancestral?”, conclui.

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