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Aplicativos ajudam dependentes de smartphones a gerenciar tempo no aparelho

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postado em 28/08/2014 09:33 / atualizado em 28/08/2014 09:56

Zulmira Furbino

Beto Magalhaes/EM/D.A Press
Os smartphones estão com tudo no Brasil. A maneira como esses equipamentos conquistam os usuários pode ser medida pela sua penetração no mercado brasileiro. Até o fim do ano, estima-se que o número de assinaturas de internet móvel em território nacional chegará a 78,2 milhões. Segundo a PwC, em 2014 foram registrados 27% de acessos à internet com os aparelhos celulares, mas até 2018 estima-se que essa fatia mais do que dobrará, chegando a 59%. A febre dos smartphones, porém, tem um efeito colateral: o vício no aparelho. A novidade é que o número de aplicativos que têm como objetivo ajudar os dependentes a gerenciar seus impulsos na rede está aumentando. O último a sair do forno é o Moment, que propõe controlar o tempo que uma pessoa passa no aparelho iPhone, da Apple.


O criador do Moment, o norte-americano Kevin Holesh, explica que o aplicativo do sistema iOS rastreia automaticamente o uso que uma pessoa faz do seu smartphone todos os dias. “Criei o Moment para mim”, reconheceu Holesh, que um dia se viu ignorando a família e os amigos em favor do aparelho. Quando começou a usar o aplicativo, ele passava 75 minutos do dia ao celular. Agora, com o uso do app, redefiniu seu limite para 40 minutos. “Preciso do meu telefone para o trabalho e dependo disso para viver, mas passei a dizer para mim mesmo: “Vou fazer as tarefas com apenas 40 minutos em meu iPhone. Meu objetivo era encontrar um equilíbrio entre o tempo certo de estar conectado e desconectado”, explica.

Com o Moment, os usuários podem definir limites diários e escolher um som de aviso quando ultrapassarem o limite estabelecido. Também é possível receber avisos ocasionais ao longo do dia para que saibam de seu progresso. A ideia é equilibrar o uso do smartphone com os momentos em família e os amigos, porque Facebook, Instagram e mensagens de texto podem esperar. O aplicativo pode ser baixado por U$ 4,99 (equivalente a cerca de R$ 11,40). Veja o link no iTunes.

Reprodução Itunes

Um estudo feito pela Universidade de Bonn, na Alemanha, deu origem ao aplicativo Menthal (para o sistema android e gratuito) para atender à demanda das pessoas que precisam entrar numa espécie de dieta digital. O levantamento mostrou que os usuários desbloqueiam seu smartphone cerca de 80 vezes ao dia e que as características clássicas de um celular, como telefonar e mandar mensagens, correspondem a uma parte muito pequena do uso diário do aparelho.

Já o BreakFree, que é parcialmente grátis, também controla o tempo que uma pessoa gasta utilizando outros apps, como a frequência de desbloqueio do celular e o tempo que se gasta fazendo e recebendo chamadas telefônicas. Depois de calculado esse tempo, o app, compatível com o android, insere o usuário numa escala de vício. Além desses, o My Mobile Day e o The 25th Hour também prometem controlar o impulso desmedido das pessoas em relação aos seus aparelhos telefônicos inteligentes.

“Hoje existe uma geração on-time (em tempo) e on-line (conectada). Essa geração foca muito mais tempo na internet e nas redes sociais, o que às vezes atrapalha seu desempenho no mercado de trabalho. Os smartphones entram em tudo no dia a dia e a convivência virtual é maior do que a pessoal. As pessoas não ligam umas para as outras. É mais fácil mandar um recado pelo mural do Facebook”, resume Gardênia Rogatto, gerente sênior da PwC Brasil. Ela estima que boa parte da expectativa de elevação da participação desses aparelhos no mercado até 2018 ocorrerá pelos investimentos em infraestrutura de rede no país e pelo acesso das classes C e D aos smartphones.

Em excesso, contato pode virar vício 

Quando acorda e abre os olhos pela manhã, a primeira coisa que o estudante Wellington Alves Martins, de 18 anos, faz é desbloquear seu smartphone para saber o que ocorreu enquanto ele estava apagado, à noite. O estudante não sabe calcular quantas vezes por dia entra e sai do seu celular, mas reconhece que faz isso sem parar o dia inteiro, inclusive durante a aula. “Olho o WhatsApp e o Facebook antes de ir para o cursinho e, depois, quando chego. Aí respondo as mensagens e volto a prestar atenção na aula, mas fico com ele na mão o tempo inteiro”, conta. No dia em que seu Galaxy foi roubado, não se apertou. Recarregou a bateria de um Iphone 3 que ganhou de presente do pai, comprou um chip novo e se reconectou à rede rapidamente.

Wellington ficou surpreso ao saber da existência de aplicativos que têm o objetivo de controlar o uso dos smartphones porque, segundo ele, pessoas da sua geração não ficam sabendo dessas coisas, já que ninguém está interessdo em parar de usar a internet. O jovem admite, porém, que usaria um desses apps. “Sei que gasto muito tempo no celular, mas não tenho nem ideia de quantas horas por dia. Gostaria de experimentar até para verificar se estou exagerando. Pode ser que eu esteja perdendo outras coisas, até mesmo durante a aula”, diz.

Para Analice Gigliotti, chefe do setor de dependências químicas e comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro, é impossível viver sem smartphones e computadores no mundo de hoje e um dos motivos é que existe uma ligação entre trabalho e internet. “As pessoas ficam conectadas respondendo a e-mails que não tiveram tempo de responder no dia anterior. A gente não consegue mais viver sem o aparelho que usamos até para acessar nossa conta bancária”, lembra. Segundo ela, porém, apesar das facilidades proporcionadas pelos telefones celulares, o prejuízo ocorre quando uma pessoa passa mais tempo do que deveria nessas conexões.

Do normal ao patológico

Na avaliação da neuropsicóloga e sexóloga Sônia Eustáquia Fonseca, a linha que separa o normal do patológico pode ser tênue e imperceptível à primeira vista, porque a pessoa usa o trabalho como desculpa para o contato excessivo com o smartphone. “No início, a pessoa só precisa manter o celular ao alcance, depois, ele tem que estar junto, mesmo em um bolso ou na mão. A partir daí, tudo o que era resolvido com o computador, que de certa forma exige um ritual, como ligar, sentar em uma mesa etc., deixa de ser necessário”, observa. É nesse momento que os viciados na rede passam a resolver tudo pelo smartphone ou a consultá-lo a todo o momento. “Se a pessoa abria o computador uma ou duas vezes ao dia para olhar e-mails e Facebook, agora ela faz o tempo todo pelo celular. Tenho pacientes que levantam à noite para olhar, ficam com ele na cama, debaixo do cobertor. Temos que lembrar que são os mesmos sintomas de um vício”, diz a neuropsicóloga.

 

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