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Estudo mostra a importância da narrativa oral no desenvolvimento cognitivo das crianças Em estudo apresentado na USP, linguista defende a teoria e sugere a inclusão do tema no currículo da educação infantil

Publicação: 15/08/2011 08:18 Atualização: 15/08/2011 10:37

No colégio Arvense, contação de histórias para os bebês: 'A pessoa começa a enriquecer o vocabulário ainda antes de falar' (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press)
No colégio Arvense, contação de histórias para os bebês: 'A pessoa começa a enriquecer o vocabulário ainda antes de falar'
 

A leitura e a escrita sempre foram vistas como o ápice do desenvolvimento infantil. Não é à toa que muitos pais se vangloriam quando o filho começa a ler e a escrever cedo. Orgulho justificável, já que essas duas expressões sempre foram ligadas à inteligência e devem ser valorizadas. Algo tão importante quanto a leitura e a escrita, porém, costuma se manifestar ainda mais cedo: a fala. Por trás dessa expressão tão primordial, está a construção de um pensamento baseado em fatos vividos e assimilados pelo indivíduo. Ao analisar como esse processo ocorre no cérebro, uma pesquisa apresentada na Universidade de São Paulo (USP) revela que, com a narração de uma história, é possível perceber aspectos linguísticos e cognitivos que não ficam tão visíveis na escrita e leitura. Devido a isso, o estudo sugere que a narrativa oral seja inserida na grade curricular do ensino infantil.

De acordo com a coordenadora do estudo, a linguista Priscila Fiorindo, ao se analisar a capacidade de produção narrativa de uma criança é possível avaliar a sua produção linguística, favorecendo o desenvolvimento cognitivo. “Percebemos que, durante a narração, todas as memórias são acionadas ao mesmo tempo, mas não podem ser todas verbalizadas. A partir daí, se inicia a estruturação do pensamento, com a definição daquilo que se quer expressar e de como se quer expressar.”

As pesquisas da equipe de Priscila começaram em 2006, a partir de um projeto de cooperação internacional que envolveu psicolinguistas brasileiros e franceses num estudo comparativo de produções narrativas de crianças no Brasil e na França. A experiência possibilitou que a linguista utilizasse a mesma metodologia, mas analisando os resultados das narrativas elaboradas em relação à atuação do cérebro. “Foi quando pensei na possibilidade de verificar como as crianças absorvem as informações das imagens, para que elas possam elaborar uma história”, conta.

No estudo, intitulado O papel da memória construtiva na produção de narrativa oral infantil a partir da leitura da imagem em sequência, Priscila analisou crianças com 5, 8 e 10 anos e identificou como elas utilizam os mecanismos de funcionamento do cérebro que envolvem as lembranças de curto e longo prazo. A memória de curto prazo é, evidentemente, a que se refere às informações recentes. A de longo prazo é dividida entre a semântica – que reflete o conhecimento de mundo acumulado – e a episódica – que envolve as situações ou fatos já ocorridos. “É na memória episódica que se encontram os ‘scripts’. Quando, por exemplo, encontramos uma pessoa que não vemos há muito tempo e que de alguma forma nos marcou, acionamos, paralelamente, as memórias de curto e longo prazo. Assim, todas as lembranças são recuperadas e reelaboradas, por meio do ‘script’, na memória construtiva, para que as crianças narrem uma história”, descreve a pesquisadora da USP.

Isso reforça a importância de se estimular o indivíduo desde pequeno a reconhecer objetos. Dessa forma, ao mostrar e nomear as coisas, a criança assimila a informação na memória e mais tarde pode utilizá-la para construir um pensamento. “A gente acha que não, mas a pessoa começa a enriquecer o vocabulário ainda antes de falar”, afirma Márcia Fernandes, diretora pedagógica do colégio Arvense. “Por isso é tão importante articular corretamente as palavras e sua entonação, pois aquilo ficará na memória”, completa.

Muitas opções

''Percebemos que, durante a narração, todas as memórias são acionadas ao mesmo tempo, mas não podem ser todas verbalizadas. A partir daí, se inicia a estruturação do pensamento, com a definição daquilo que se quer expressar e de como se quer expressar'' - Priscila Fiorindo, linguista e autora da pesquisa (Arte D.A Press)
''Percebemos que, durante a narração, todas as memórias são acionadas ao mesmo tempo, mas não podem ser todas verbalizadas. A partir daí, se inicia a estruturação do pensamento, com a definição daquilo que se quer expressar e de como se quer expressar'' - Priscila Fiorindo, linguista e autora da pesquisa
Para isso, não faltam recursos. Livros coloridos e ilustrados e o simples ato de contar uma história já prendem a atenção dos pequenos e ajudam a evocar lembranças que estimulam a estrutura do pensamento. “É preciso utilizar todos os sentidos no desenvolvimento infantil. É importante que a criança manuseie o livro, escute a história que ele traz; que seja criado um clima para o conto de forma lúdica, para que os pequenos assimilem tudo aquilo com prazer. A partir daí, a leitura e a escrita também se tornam um prazer, pois foi assim que ela foi vivida”, coloca a pedagoga.

Ao propor a narrativa oral como disciplina no ensino infantil, Priscila Fiorindo afirma que a escola estará valorizando a linguagem oral. “Ao narrar uma história, a criança demonstra seu vocabulário e sua capacidade de estruturar o próprio pensamento, inclusive no tempo — início, meio e fim —, muito mais que na escrita”, argumenta. Outro aspecto levantado pela pesquisadora é a interação que a oralidade permite. “Ao escrever, não há uma interação das expressões, é apenas uma (a escrita). Na narrativa oral, a criança utiliza expressões físicas, a entonação da voz e das palavras, de acordo com o que ela quer passar. Ela é a dona da história”, aponta a linguista.

Ainda segundo Priscila, além dos aspectos linguísticos, a oralidade também permite que sejam observadas questões psicológicas, como o emocional da criança. Muitas vezes, o indivíduo se identifica com a história e, ao contá-la oralmente, é possível notar se há retração, tristeza ou ansiedade. “Isso é possível porque ela vivencia o jogo simbólico, no qual a ficção se mistura à mrealidade”, explica Gicelene Rodrigues, diretora pedagógica do colégio Inei. “Criança que tem, ou esteja, passando por algum problema emocional, normalmente não faz contato com os olhos e tem dificuldade de colocar a voz”, completa.

A pedagoga define a narrativa oral como um modelo para a aprendizagem da leitura e da escrita, além de uma ajuda no desenvolvimento da formação pessoal. “Ao contar uma história, a criança assimila valores, deveres e direitos que estão contidos nelas.”

O educador e idealizador do projeto Mala de Leitura, Maurício Leite, vai mais longe que a proposta da pesquisadora da USP. Ele concorda que a oralidade deve fazer parte da educação infantil, mas acha que, assim como a leitura, ela deve ser inserida na disciplina de arte. “A literatura é arte, seja ela lida ou falada”, afirma. Para o educador, quando essas expressões são colocadas como forma de conteúdo didático e cobradas em forma de notas, deixam de ser um prazer para o indivíduo e tornam-se obrigações. “Por isso temos tão poucos leitores no país”, constata. “Se quisermos mudar essa realidade, é interessante que comece pela escola”, avalia.

 

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