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O horror 70 anos depois

Em 1942, começava a deportação de judeus do Gueto de Varsóvia para campos de extermínio nazistas. Em dois meses, os alemães transferiram 300 mil pessoas de trem para a morte

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postado em 22/07/2012 07:31 / atualizado em 22/07/2012 07:48

AFP PHOTO/ YAD VASHEM ARCHIVES

Maio de 1943. Em uma noite chuvosa, a polonesa Halina Birenbaum, de 13 anos, recebe um abraço do pai, Jakub Grynsztein. A mãe da menina, Pola Perl, se despede dela e de Hilek, o filho de 20 anos. "Todos devemos morrer um dia. Morreremos juntos, agora. Não tenham medo", afirmou. Um nazista aponta sua metralhadora para a família. Tudo ocorreu em Umschlagplatz, uma praça situada no extremo norte do Gueto de Varsóvia, conectada à linha férrea Varsóvia-Maklinia. Foi dali que, em 22 de julho de 1942, partiram os primeiros trens abarrotados de judeus rumo aos campos de extermínio. Em dois meses, os alemães deportaram mais de 300 mil pessoas — 250 mil foram enviadas para a morte em Treblinka, a 105 quilômetros.


"Os alemães nos capturaram no gueto, nos porões de uma casa que eles queimaram, e nos levaram para o terrível trem da morte. Não havia lugar no vagão de transporte de gado. Nós nos empurrávamos e batíamos uns nos outros. Os nazistas espancavam quem estava perto das portas. As pessoas caíam sobre as outras e centenas de outros judeus eram jogados no trem", relata, por e-mail, a moradora da cidade israelense de Herzliya, na costa do Mar Mediterrâneo. No Gueto de Varsóvia, ela viu o pai pela última vez. "Nem mesmo tenho uma foto dele", conta. A mãe morreu na câmara de gás, no campo de Majdanek. O irmão e a cunhada foram asfixiados em Auschwitz.


Halina acredita existir somente uma explicação para o fato de ela estar viva: um milagre. O encontro com a morte por pouco ocorreu em Majdanek, a primeira parada antes de Auschwitz. "Após semanas terríveis, eles me escolheram, com algumas mulheres, e nos conduziram à câmara de gás. Passamos uma noite inteira ali dentro, mas faltou gás", lembra. Os nazistas a deportaram novamente, nos mesmos vagões, em julho de 1943. "A viagem durou 48 horas. Não podíamos mudar de posição. Meu corpo parecia estar cheio de agulhas. Não havia água nem comida. Uma mulher se levantou e os alemães atiraram em sua cabeça. Eu a vi cair sobre a filha de 15 anos" , acrescenta. Os "passageiros" do trem da morte jamais sabiam para onde eram levados. Dessa vez, o destino era Auschwitz. "O dia de hoje marca o aniversário do extermínio de quase 500 mil judeus no Gueto de Varsóvia", reconhece.

Sem liberdade Morador de Kfar Saba, o israelense Yohay Remetz, de 88 anos, conheceu como poucos o gueto. Chegou ali com a mãe, no outono de 1940, depois que os nazistas ocuparam a Polônia. Trabalhou como puxador de riquixá, uma carroça de duas rodas. "A vida no gueto era sempre a intensificação e o acúmulo do horror. Os nazistas, cuidadosa e satanicamente, meditavam sobre como piorar nossas vidas, dia após dia", afirma. De acordo com ele, a fome era a experiência central e dominante da maior parte dos moradores. "Podíamos ver mendigos nas ruas, idosos e crianças com os rostos e os membros inchados, e a pele marrom esverdeada. Ainda que fosse uma visão repulsiva e horrível, ninguém podia ajudar. Estávamos famintos e miseráveis", comenta.


Segundo Remetz, os habitantes do gueto tentavam lidar com a vida de prisão e com o horror da deportação iminente. Pequenos workshops supriam parte das necessidades dos judeus. Até uma orquestra sinfônica foi criada. "Um ingresso para as apresentações custava um quarto de um pedaço de pão. Fui aos concertos duas vezes, mas isso levou minha comida por dois dias", observa. No outono de 1939, 330 mil judeus estavam confinados no gueto, em um espaço onde haviam 100 mil antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em 1942, o número aumentou para 450 mil, apesar da redução da área do gueto, da fome e das doenças. A cada mês, os judeus enterravam cerca de 3 mil mortos. "Caminhar pelas ruas era como ziguezaguear nas calçadas, para evitar esbarrar em pedestres, com medo de contrair piolho e tifo. Quem morria era colocado nas calçadas, à noite. Pela manhã, o serviço funerário carregava os corpos em carroças, até o cemitério da Rua Okopova, onde eram empilhados em uma cova", lembra Remetz.


Em 1942, ele aproveitou uma grande transferência para Treblinka e fugiu do gueto. Lá fora, viveu com a identidade falsa de ariano polonês. "Tive sorte por ter sido aceito no submundo polonês de combate aos nazistas dois anos depois. Eu me alistei no Exército da Polônia e participei das batalhas contra os alemães, até o fim da guerra", explica. Remetz admite que os moradores do gueto não estavam preparados para a deportação. "Somente uma semana depois descobrimos para onde os trens iam. Nunca considerávamos a possibilidade de assassinato em massa", diz.

Um dia de reflexão Para a polonesa Estelle Laughlin, o dia de hoje é de reflexão. "Devemos nos lembrar das consequências de convivermos com a tirania, de como isso corrompe a consciência de uma nação, e o que isso faz ao amor e à confiança. A proposta não é praguejar contra a escuridão do passado, mas iluminar o futuro", desabafa. Ela tinha acabado de fazer 13 anos quando as deportações no Gueto de Varsóvia começaram. "Diariamente, os nazistas vinham até nós, com calculada pressa, e bloqueavam as ruas. Eles reuniam as pessoas nas calçadas e quintais, faziam buscas em cada apartamento e empurravam para fora quem encontrassem", conta. A Grande Deportação, de julho a setembro de 1942, removeu a grande maioria de adultos e 99% das crianças. "Eu estou em meio ao 1% de vivos", afirma a senhora, de 83 anos.


Ela permaneceu no Gueto de Varsóvia até que o líder nazista, Adolf Hitler, ordenou a destruição do local, após o levante de abril de 1943. "Quando soubemos de notícias sobre Treblinka, grupos armados começaram a se formar. Guerrilheiros prepararam uma rede de bunkers subterrâneos. Meu pai era um membro da resistência", diz Estelle, que ficou dias dentro de um desses esconderijos, até ser descoberta pelos alemães. "Eles nos conduziram a Umschlagplatz. Com chicotes e gritos, nos levaram para trens de carga e rumaram para o campo de extermínio de Majdanek. Meu pai foi um dos primeiros a morrer na câmara de gás." Estelle, a mãe e a irmã sobreviveram. Ela afirma que temia a morte, mas não entendia bem seu significado. Tudo o que queria era não ser separada da família. (RC)