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| Christine O'Donnell discursa para partidários após indicação do partido para concorrer ao Senado |
Em agosto de 2008, o então candidato republicano à Casa Branca, John McCain, trouxe do Alasca para Washington aquela que chacoalharia a campanha presidencial há menos de três meses das eleições. Bonita, ultraconservadora e polêmica, Sarah Palin, hoje com 46 anos, reacendeu a base mais à direita de seu partido e se tornou a vedete dos programas humorísticos nos Estados Unidos, que viram nos trejeitos e declarações da ex-governadora um vasto material a explorar. Dois anos depois, uma outra polêmica e bonita republicana sacudiu o partido e estampou a primeira página dos principais jornais, às vésperas das eleições parlamentares de novembro. Com 41 anos %u2013 há apenas quatro deles na política %u2013, Christine O%u2019Donnell conquistou os eleitores de Delaware nas primárias republicanas ao Senado e, com sua postura conservadora ao extremo, se tornou a mais nova musa do movimento conservador Tea Party e o mais novo alvo do restante do país.
Assim como Sarah, de quem nunca escondeu a admiração, Christine trouxe para a política seu puritanismo e fez dos constantes ataques ao presidente Barack Obama sua agenda política. As duras críticas às decisões do governo democrata, principalmente em relação à economia e à reforma da saúde aprovada, ajudaram a discípula de Palin a derrotar o colega e ex-governador de Delaware Mike Castle, eleito deputado nove vezes, para se tornar a candidata republicana ao Senado. Agora, ela disputará a vaga do estado %u2013 deixada pelo vice-presidente, Joe Biden %u2013 com o democrata Chris Coons, apenas seis anos mais velho, mas com 30 anos de experiência política.
A três semanas das eleições, Coons aparece com mais de 15 pontos percentuais à frente da oponente nas pesquisas. No entanto, não é o democrata que mais ameaça Christine. Também não preocupa tanto o fato de Delaware ser considerado um estado tradicionalmente "azul". O principal obstáculo da republicana é ela mesma. Tanto que, nos últimos dias, Christine lançou uma série de vídeos de campanha, por meio dos quais tenta recuperar sua imagem, posta à prova quando a imprensa americana resolveu vasculhar seu passado. As polêmicas começaram a surgir em uma velocidade proporcional à ascensão da ultraconservadora no cenário nacional.
O primeiro escândalo veio com um vídeo de 1996. Nas imagens, Christine, então com 27 anos, encampa uma campanha contra a masturbação. "A Bíblia diz que (ter) luxúria no coração é cometer adultério. E você não pode se masturbar sem luxúria", defendia a então presidenta da Aliança do Salvador para a Exaltação da Verdade (Salt, pela sigla em inglês). Depois, vieram as entrevistas feitas há alguns anos, nas quais ela se diz contra o ensino do evolucionismo nas escolas e as pesquisas com células-tronco. Em um dos vídeos, Christine "denuncia" que cientistas americanos já desenvolvem "ratos com cérebros humanos em pleno funcionamento".
A mais recente descoberta, contudo, foi potencialmente a mais destruidora: em um programa de televisão em 1999, Christine admitiu que teve experiências com bruxaria quando cursava o ensino médio. "Eu me juntei a pessoas que faziam essas coisas. Em uma das minhas primeiras saídas com uma bruxa, estivemos em um altar satânico e eu não sabia", disse a republicana, entre risos. Nem mesmo os companheiros de partido a pouparam das críticas, e pediram, na imprensa, que ela se justificasse. "No Sul de Delaware, há muitas pessoas religiosas, e elas provavelmente vão querer explicações sobre isso", afirmou o número 2 do gabinete do ex-presidente George W. Bush, Karl Rove, considerado um dos principais estrategistas republicanos.
Telefonemas O bombardeio da imprensa fez com que Christine se aproximasse ainda mais de Sarah. A ex-candidata a vice na chapa de McCain teve problemas semelhantes, ainda que em maior escala, durante a corrida presidencial de 2008. Em entrevista à rede de TV CNN na última semana, a conservadora de Delaware revelou que tem conversado muito com a amiga por telefone, a quem sempre pede conselhos. "Se há alguém que sabe sobre as políticas de destruição da imagem pessoal, são mulheres como Sarah Palin", afirmou Christine. Considerada um forte nome entre os republicanos para disputar a Casa Branca com Obama em 2012, Palin teve sua vida e sua história reviradas pela imprensa. Um dos maiores escândalos foi a gravidez da filha adolescente Bristol, impulsionado principalmente pelo fato de Palin se posicionar como uma defensora da família na sua forma mais tradicional e contra o aborto.
Aconselhada pela amiga ou não, Christine iniciou recentemente um contra-ataque na mídia. Passou a dar prioridade a entrevistas para o canal Fox News %u2013 reconhecidamente pró-republicano %u2013 e gravou vídeos de 30 segundos, cujo lema é: Eu sou você. %u201CEu não sou uma bruxa. Eu não sou nada do que estão falando. Nenhum de nós é perfeito. Mas nenhum de nós está feliz com o que vê à nossa volta", diz a candidata ao Senado, em uma das gravações. Em outra, ela lembra ser igual aos eleitores, que não foram para a Universidade de Yale, como seu oponente, Chris Coons.
O tema universidade, inclusive, é outro calo no pé de Christine. A republicana estudou na Fairleigh Dickinson University, em Nova Jersey, na década de 1990, mas jamais se formou. O diploma %u2013 em literatura inglesa %u2013 só veio este ano, depois que ela fez um curso de verão na universidade e comprovou já ter quitado uma dívida de quase US$ 5 mil com a instituição. A partir de agora, a tática de Christine será não negar seu passado, mas mostrar que, hoje, tem posições diferentes do que pode ser visto nos antigos vídeos. "Não fico sem graça, mas também não digo que tenho orgulho dessa época", disse à CNN. "O que eles estão tentando é pintar uma imagem de quem eu era 20 anos atrás. E, você sabe, eu amadureci a minha fé. Amadureci a minha visão política. Hoje, você tem uma mulher de 40 e poucos anos concorrendo a um cargo, não uma menina de 20. E há uma grande diferença nisso."
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