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Desastre na Barragem de Fundão afunda Mariana no atoleiro do desemprego

Após 12 meses do maior desastre socioambiental do país, catástrofe que arrasou povoados exibe marcas também na economia. Prefeitura anuncia que terá de demitir, agravando a falta de trabalho que afeta 25% da população e abala todo o setor produtivo em efeito dominó

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postado em 03/11/2016 06:00 / atualizado em 03/11/2016 07:36

Guilherme Paranaiba

Jair Amaral/EM/D.A PRESS - 17/11/2015
Um ano depois da maior tragédia socioambiental da história do país, um olhar sobre o município de Mariana, na Região Central de Minas Gerais, indica que a lama que se desprendeu da barragem da mineradora Samarco não apenas desceu morros e invadiu subdistritos, entupindo as calhas de rios e córregos e arrasando o meio ambiente.

Embora a sede da cidade histórica tenha sido poupada do barro, 12 meses depois seus indicadores mostram que ela também entrou no atoleiro, e dele ainda não conseguiu se reerguer desde o desastre que em 5 de novembro do ano passado matou 19 pessoas e sufocou a Bacia do Rio Doce até o Atlântico.

Com queda brusca na arrecadação diante da paralisação das atividades da companhia responsável pela catástrofe, a arrecadação da prefeitura despencou, o desemprego disparou, o turismo minguou, a economia segue ladeira abaixo em efeito cascata e as relações sociais daqueles que perderam suas casas e tiveram de se mudar para a cidade continuam abaladas.


Em meio à crise, a Prefeitura de Mariana prevê cortes de 400 servidores a qualquer momento, incluindo um quinto dos 125 médicos. Essas demissões podem engrossar os 13 mil desempregados que vivem na cidade, o que corresponde a nada menos que 25% de toda a população, segundo a administração municipal.

De acordo com  estimativa do Sistema Nacional de Emprego (Sine), cerca de 9 mil pessoas (70%) perderam o sustento devido à baixa na mineração, gerando um efeito dominó em todo o setor produtivo.

Sem trabalho, essa parte dos habitantes, que inclui moradores dos subdistritos afetados e gente que já morava na sede de Mariana, aumenta a demanda por serviços públicos, como fornecimento de cestas básicas, remédios e busca por vagas em escolas municipais.

“É um número muito alto de desempregados. Com a economia totalmente fragilizada, as coisas vêm se tornando uma bola de neve. Quanto mais tempo para aquecer a economia, mais tempo vai passando para as pessoas acharem uma oportunidade”, diz o prefeito reeleito Duarte Júnior (PPS).

Uma das saídas imediatas seria o recebimento de R$ 32 milhões da Samarco, por meio de uma dívida relacionada à Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem). Porém, ainda não há uma decisão final sobre a chegada desse dinheiro, apesar de a mineradora reconhecer o débito, segundo o prefeito.

“Com os R$ 32 milhões, a gente manteria os serviços e não haveria demissões. Uma parte desse recurso a gente ia segurar para ir compensando no ano que vem. Mas estamos enxugando gelo; uma hora esse gelo vai acabar”, acrescenta.

DÉFICIT Quando assumiu a prefeitura, em junho do ano passado, Duarte Júnior afirma que já havia uma diferença entre despesas, que alcançavam R$ 26 milhões, e receitas, que não ultrapassavam R$ 22 milhões. Ele diz que foi possível ajustar, mas afirma que depois da tragédia a receita caiu ainda mais, parando em R$ 18 milhões.

Desse total, cerca de R$ 11 milhões são gastos apenas com a folha de pagamento. A prefeitura chegou ao limite, argumenta o prefeito. “Alguma coisa terá que ser prejudicada. Há a possibilidade de diminuir o número de médicos que atendem hoje em 20%. São 125 na cidade. E de ir pegando aqueles cargos com salários mais altos e ir cortando, demitindo, para fechar as contas e ajustar despesa com receita”, completa.

O déficit que o chefe do Executivo contabiliza é reflexo da condição de pessoas como as que tiveram que sair dos locais atingidos pela lama e as que ficaram sem emprego pelo desaquecimento da economia. O pedreiro e pintor Nelson Ferreira, de 47 anos, conta que permanecia ativo enquanto morava em Bento Rodrigues, fazendo serviços para toda a comunidade. Desde que saiu do subdistrito mais afetado pela catástrofe, não arrumou mais nada.

Jair Amaral/EM/D.A PRESS

O dinheiro que a Samarco oferece, afirma, é curto para as despesas dele, da mulher e da filha de 5 anos. “Eu tinha frutas e verduras no quintal e agora até uma cebolinha tenho que comprar. O dinheiro não dá para tudo e eu não consigo complementar, por causa da crise em Mariana”, conta Nelson, que revisitou o que restou da casa antiga ontem, depois da missa em Bento Rodrigues pelo Dia de Finados.

Lusimary Alves dos Santos, de 41, não conta com o auxílio mensal da Samarco, porque não teve nenhum bem destruído pela lama. Porém, a queda na atividade econômica também custou seu emprego. Ela era funcionária da Manserv, uma prestadora de serviço da mineradora em Mariana, e foi demitida em fevereiro deste ano. “Participei da limpeza das casas que foram alugadas para as pessoas que perderam seus imóveis com a tragédia. Quando acabou esse serviço, fiquei sem emprego”, afirma.

As despesas que eram divididas com o marido tiveram que ser assumidas por ele e o orçamento apertou. Situações como essas motivaram a criação de um grupo batizado “Justiça sim, desemprego não”, que colheu 50 mil assinaturas pedindo o retorno das atividades da Samarco para tirar Mariana do buraco.

Segundo a presidente do grupo, Poliane Aparecida de Freitas, que está desempregada desde abril, o movimento não abre mão da reparação dos danos, mas quer a volta da empresa. “Queremos que volte com mais segurança, mais força e mais oportunidades. A própria natureza tem seu prazo de recuperação e os atingidos estão sendo assistidos neste momento. Não somos contra os atingidos. Essa questão tem sido colocada por pessoas de fora da cidade”, afirma Poliane.

O presidente da Associação Comunitária de Bento Rodrigues, José do Nascimento de Jesus, o Zezinho do Bento, é outro favorável à volta da empresa, mas pede mais agilidade para a questão dos assentamentos dos atingidos nos novos distritos. “A empresa tem que voltar a operar. Aqui em Mariana sem a Samarco é muito difícil, porque a prefeitura vive muito da arrecadação. Agora, a empresa tem que pagar por aquilo que fez de errado, por isso estamos pedindo o reassentamento o mais rápido possível. A gente só está morando na cidade porque é a necessidade”, afirma Zezinho.

Enquanto isso...

...Samarco defende retorno

Em nota, a Samarco informou que está “ciente dos impactos causados pelo rompimento da Barragem do Fundão e reitera que, desde o primeiro momento, se dedicou às providências necessárias para mitigar os danos socioambientais e socioeconômicos provocados”. “A empresa tem a expectativa de retornar suas atividades operacionais de maneira que possa continuar cumprindo com seus compromissos, com a geração de empregos, renda e tributos para os municípios e estados no qual mantém operações”, diz o texto.
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