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Fartura de água de minas e bicas de BH contrapõe crise hídrica no estado

EM percorreu roteiro de minas e bicas de BH que não foram tomadas pelo progresso. Nesses locais, a água jorra com fartura e traz alívio a moradores e frequentadores

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postado em 29/01/2015 06:00 / atualizado em 29/01/2015 12:16

Daniel Camargos /

Fotos: Beto Magalhãees/EM/D.A Press

Os frequentadores das bicas e minas urbanas de Belo Horizonte vivem uma realidade distante da maioria da população, que precisa fechar as torneiras e pensar a respeito de cada milímetro cúbico de água que utiliza. A água das bicas e minas que restaram na metrópole urbanizada jorra sem parcimônia e é usada para matar a sede, lavar carros, roupas e embelezar o Parque Municipal. A reportagem do Estado de Minas seguiu o roteiro indicado no primeiro capítulo do livro Guia Morador Belo Horizonte e traz um pequeno perfil das nascentes que ainda não foram escondidas pelo progresso.

Algumas são prosaicas, como a mina que fica dentro da casa de Romero Pedro Silva, na Rua Dona Geni, no Bairro Vila Santa Branca, na Região de Venda Nova. Quando ele começou a construir a casa, em 1993, tentou drenar a mina e fez a edificação com uma laje elevada. Não deu certo. A força da água foi maior e encharcou a garagem. A solução foi construir um reservatório, usar uma bomba para enviar a água para a tubulação e instalar o ladrão para dispensar o excesso na rede fluvial. “Quando acaba a água no bairro todo mundo vem aqui pedir um pouco”, conta Romero, que diz nunca ter negado um pedido.

Análises da qualidade da água já foram feitas e, diante do resultado positivo, considerando a água pronta para o consumo, Romero dispensou o serviço da Copasa. Ele paga apenas uma taxa para usar a rede de esgoto. Além da casa, a água abastece também o bar de Romero, uma construção contígua à moradia. “Os clientes tradicionais nunca compraram uma garrafinha de água. Sabem que a da torneira é boa para o consumo. Quem compra água é só quem não conhece”, avisa Romero.

Fotos: Beto Magalhãees/EM/D.A Press

No outro extremo da cidade, na Praça Marília de Dirceu, em Lourdes, Região Centro-Sul, a água limpa vaza em um bueiro próximo à esquina da Rua Curitiba. Diante da escassez e dos constantes alertas para economizar água, o presidente da Associação da Praça Marília de Dirceu e Adjacências (Amalou), Jeferson Rios, garante já ter feito um orçamento para instalar uma caixa d’água na praça e usar a fonte para irrigar as plantas. “Aqueles prédios quase todos foram construídos em cima de uma mina de água. Já avisamos a Copasa, que informou não tem planos para aproveitá-la e procuramos a prefeitura para pedir a permissão para instalar a caixa d’água”, diz. A água, segundo Rios, não é apropriada para o consumo, mas pode ser usada na irrigação.

Maria da Penha, que é proprietária da banca de jornal na praça há 29 anos, explica que o local – um dos pontos com o m² mais valorizado da capital – era um brejo. Por ali, nos primórdios de BH, no século 19 e nos primeiros anos do século 20, corria o Córrego do Leitão, hoje quase todo escondido pelo asfalto. Aliás, córregos e rios eram comuns na capital mineira. Os moradores mais antigos de BH recordam que os dois sentidos da Avenida Pedro II eram separados pelo Córrego do Passadinho e que por trechos da Rua Professor Moraes e da Avenida Afonso Pena passava o Acaba Mundo, assim como a Silviano Brandão passou por cima do Córrego Mata.

Fotos: Beto Magalhãees/EM/D.A Press

Na Região Leste, próximo ao escondido Córrego Mata, está a bica mais famosa da cidade: a Bica da Petrolina, na esquina da Avenida Petrolina com Rua Abílio Machado, no Bairro Sagrada Família. A qualquer hora do dia e da noite, há uma fila formada. Os usuários carregam galões e galões. É o caso de Zoltan Sas, morador do Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul. “Buscava água no chafariz do Kaquende, em Sabará, mas agora só venho aqui”, detalha o aposentado.

Além de gostar da água, Sas destaca que é vegetariano e que sente gosto de peixe na água da Copasa e, por isso, prefere pegar direto na fonte. Já a esteticista Sônia Santos, que aguardava na fila para encher seus galões, atesta que o gosto é ótimo e que não tem sabor de cloro. “Faço tudo com essa água. Sofria de uma gastrite tremenda e depois que passei a pegar água aqui melhorei”. O mais experiente na bica, o autônomo Lincoln Toledo, pega água ali há 40 anos e aponta mais uma qualidade. “De vez em quando alguém bebe muito de madrugada e passa aqui para tomar água. Alguns até dormem no passeio, mas quando acordam estão sem ressaca”, brinca Lincoln.

SEM SEDE

Perto dali, no vizinho Horto, na Rua Felipe Camarão, uma bica também mata a sede. Conhecida como Biquinha do Noventa, uma referência à favela Noventa Lojas localizada na região, é usada pelas crianças que brincam na rua, por donas de casa que lavam roupas e é essencial para o pedreiro Pedro Antônio, que é morador de rua e usa a bica para diversas finalidades, inclusive, fazer a barba. “A água é ótima”, garante.

Porém, a única bica que a prefeitura atesta a qualidade é a da Sagrada Família. A Vigilância Sanitária coleta a água semestralmente e realiza exame laboratorial. A última coleta foi feita em dezembro e o resultado apontou que a água pode ser usada para beber. Entretanto, quem desejar que a Vigilância Sanitária verifique a qualidade da água de alguma bica pode solicitar o serviço via 156, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

E a fonte secou…

As obras de canalização do córrego da Avenida Virgílio de Melo Franco, no Bairro Jardim Atlântico, na Região da Pampulha, são apontadas pelos moradores da região como responsáveis pelo fim da bica da Vila Unida. Há quase dois anos, a água que era usada pelos moradores para lavar roupas, carros, limpar as casas e, por alguns, até para beber não brota mais da terra embaixo de uma mangueira. A Vila Unida foi desfeita, a maior parte dos moradores foi recolocada em novas moradias do Vila Viva, da prefeitura, e a água da mina corre para o córrego recém-canalizado.

“Nas reuniões que aconteceram com a comunidade antes da obra, pedimos para não acabar com a bica. Foi sugerido até que fosse feito um chafariz”, recorda a cabeleireira Rosângela Alves de Oliveira. Morador da antiga Vila, Rosivaldo Marães, lembra que a água era usada por todos e para todas as finalidades. “Eles chegaram aqui, drenaram e jogaram a água para o córrego”, lamenta.

Segundo a Regional Pampulha da PBH, a nascente está localizada em área particular. “Foi drenada para o córrego próximo devido à necessidade de execução de obras de tratamento de fundo de vale e retirada de moradores de área de risco”, informa a nota. (DC)

Fotos: Beto Magalhãees/EM/D.A Press
Inspirador

O livro Guia Morador Belo Horizonte pode ser comprado no site http://loja.piseagrama.org e custa R$ 32. Além do itinerário das bicas, a obra mapeia o trajeto dos carroceiros, os antigos cinemas de rua, as hortas e o comércio popular. Também conta as histórias dos fantasmas, dos desenhos dos portões e gradis, dos times amadores, dos pássaros e do congado na capital mineira.

 

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
600
 
Jeronymo
Jeronymo - 30 de Janeiro às 09:57
A propalada falta de água na mídia, só pode ser para desviar a atenção do brasileiro bonzinho, face o maior roubo do mundo na Petrobrás. E. A gastança com publicidade continua como se aqui no Brasil a empresa tivesse concorrência, ou é mais comissão pela publicidade.
 
simone
simone - 29 de Janeiro às 18:02
É triste ver que nem a Copasa nem a Prefeitura tem interesse em preservar essas áreas.
 
simone
simone - 29 de Janeiro às 18:00
Vocês se esqueceram da Pampulha. Na Av. Flaming, a poucos quarteirões da Lagoa tem um terreno que dá fundo para o clube AASBENGE. O terreno é enorme com um muro branco na frente que mina água dia e noite mesmo que o tempo seco. O próprio AASBENGE tem uma mina em seu terreno que usa para abastecimento e manutenção do clube.
 
Diego
Diego - 29 de Janeiro às 12:31
A MG030 que liga BH a Nova Lima era cercada de nascentes e pequenas quedas dágua, cercadas de muito verde e faziam a paisagem ainda mais bonita. A temperatura na cidade era até mais baixa, diga-se de passagem. Agora, as árvores foram derrubadas, algumas construções na beirada da rodovia foram erguidas, o córrego sumiu e em seu lugar veio aquele esgoto ali da Copasa perto do Vale dos Cristais. As nascentes, sumiram e ninguém sabe dizer se foram canalizadas, desviadas ou se secaram quando deram lugar aos condomínios de luxo da região.
 
Geddy
Geddy - 29 de Janeiro às 14:06
Puxa, fiquei estarrecido. Que relato mais impressionante! Mudou até o meu dia.
 
Marcos
Marcos - 29 de Janeiro às 11:23
São muitos os prédios que para se manterem secos, construídos que foram sobre esses lençois superficiais, que adotam a prática de bombear a água para o sistema de esgotamento pluvial ao invés de promover seu uso pelo próprio edifício, com significativa economia.
 
LAERTES
LAERTES - 29 de Janeiro às 10:03
a reportagem deixa muitas outras de fora. Na praça da barragem da Santa Lúcia, da Praça da Liberdade, da Presid. Juscelino Kubitschek e outras mais. É preciso mais profissionalismo nas informações e não apenas olhar "superficialmente" . Outra coisa: a ineficiência na distribuição da água deve ser assun to sério e levado ás últimas consequências pelo Ministério Público. Constituir mega empresas como COPASA, SABESP e outras e o desperdício e falta de planejamento imperam. São apenas cabides de emprego, respeitando aqueles funcionários concursados e eficientes. A prática do poder pelo poder
 
Claudinei
Claudinei - 29 de Janeiro às 09:41
Sou nascido no bairro Betania, é muito triste ver que com a chegado do progresso o que era belo foi destruído, meu bairro tinha várias matas e inumeras minas de água, quando foram construir os horríveis conjuntos de prédios nao respeitaram a natureza, destruiram tudo, agora esta ai o preco.
 
Claudinei
Claudinei - 29 de Janeiro às 09:39
Sou nascido no bairro Betania, é muito triste ver que com a chegado do progresso o que era belo foi destruído, meu bairro tinha várias matas e inumeras minas de água, quando foram construir os horríveis conjuntos de prédios nao respeitaram a natureza, destruiram tudo, agora esta ai o preco.
 
luiz
luiz - 29 de Janeiro às 09:31
Pois é; sito o bairro santa ines onde antes possuia muitas minas, bairro horto onde morei tambem tinha muitas minas. Mas a prefeituras e seus mandatários, com a ganancia de empreendimentos detonaram tais nascentes só para permitir o chamado progresso. Hoje, tem que haver responsabilidade, na concessão de alvarás para loteamentos. E obrigar as construtoras a preservar água e fontes. São Francisco de Assis no seculo XIII, já tinha esta preocupação com a natureza e parece que a sociedade não aprende mesmo. A falta de água é consequência de estupidez e mediocridade na governança.
 
juliano
juliano - 29 de Janeiro às 08:59
Antes de nos tornarem burros, o ser humano vencia as crise ao seu redor através da pratica e do conhecimento. Tornavam-se mestres em saber quando ia chover ou não, quando deveria esperar e respeitar o ambiente. Os mais "sabios", apropriaram-se dos recursos que por hora deveria ser de todos gratuitamente e começaram a vende-los. Agora, a água que deveria ser gratuita e ainda é, mas somos obrigado pagar por ela, torna-se ouro sob nossos pés e perdida no vento sobre nós, mas inacessível às nossas necessidades básicas. Só vai ficar sem água quem tem preguiça de ir à fonte. Contraditório não é?