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Conheça Wilquer da Silva, que não consegue largar o crack mesmo após duas tentativas

Ex-porteiro já passou por internações desde que experimentou a droga, há cinco anos. Nunca completou os tratamentos

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postado em 12/08/2013 06:00 / atualizado em 24/08/2015 07:47

Guilherme Paranaiba

Túlio Santos / EM / DA PRESS
“Vou comprar uma pedra. Quando quiser eu paro.” Foi o que pensou Wilquer antes de experimentar crack. “Nunca mais parei”, admite. Os efeitos de cinco anos de consumo da droga são evidentes. A fisionomia é de permanente cansaço. Olhos fundos, corpo magro, barbas e cabelos por fazer. O trabalho e a família ficaram para trás desde aquele dia em que ele fumou a pedra, faz já cinco anos. Wilquer tem quatro filhos, foi casado três vezes e teve empregos como porteiro. Chegou a ganhar R$ 1,8 mil por mês. A rotina, hoje, é perambular por ruas dos bairros Lagoinha e Floresta.

Wilquer, chamado de Kika pelos familiares, é o terceiro de nove irmãos. Casou-se pela primeira vez aos 20 anos, em uma cerimônia na Igreja de São José, no Centro de Belo Horizonte. Da primeira união teve duas filhas, com quem não tem mais contato. A irmã dele, Cláudia, conta que eles se separaram três anos depois. Para ela, foi o primeiro dos baques que mais adiante levaram Wilquer para o caminho das drogas. O ex-porteiro casou-se uma segunda vez. Teve mais dois filhos, de quem tampouco tem notícias.


Antes de experimentar crack, Wilquer tinha dois vícios: jogos e bebida. Cláudia conta que parte do dinheiro que o irmão ganhava em até dois empregos como porteiro era gasto com álcool e bingo. O contato com a pedra ocorreu depois de se separar de uma terceira companheira, que segundo ele era ex-mulher de traficante. “Quando ela me largou, resolvi fumar a primeira pedra”, conta. O processo de degradação foi rápido. Primeiro, as faltas ao serviço se tornaram frequentes. Depois, encontrar alguém que o empregasse ficou impossível. Foi parar nas ruas.

O ex-porteiro compra pedras no Bairro da Lagoinha, perto da Pedreira Prado Lopes, um dos maiores pontos de tráfico de crack de Belo Horizonte. Ele conta que vale tudo para conseguir o dinheiro: uma cesta básica que recebia uma vez por mês por meio de programa assistencial era vendida por R$ 20, o suficiente para comprar duas pedras de crack. A revenda de coisas que ele encontra nas ruas garante um pouco mais de dinheiro. Cigarros também são moeda de troca para conseguir droga. “Cada cigarro picado eu troco por um trago na pedra”, diz.

O primeiro encontro da reportagem do EM com Wilquer ocorreu justamente no Bairro da Lagoinha, em fevereiro. O ex-porteiro se aproximou de um grupo de usuários que ouvia palavras do pastor Wellington Vieira, idealizador do Centro de Recuperação de Dependentes Químicos (Credeq). O pastor tentava convencer um morador de rua a aceitar uma vaga para tratamento. Surpreendentemente, é Wilquer quem se interessa. “Eu quero ir”, ele diz.

Apesar dos protestos de usuários de crack que estavam por perto, ele aceita a sugestão do pastor de queimar os cigarros que tinha como símbolo do fim de um período. Será a segunda vez que ele tentará se tratar. A primeira foi em Divinópolis, no Centro-Oeste mineiro. Wilquer topa ir à clínica no mesmo dia. Ao chegar à fazenda, em Lagoa Santa, na Grande BH, se diz aliviado. “É uma alegria descansar com a cabeça em um travesseiro. Na rua nós não dormimos.” Antes de se deitar, permite que lhe cortem os cabelos e aparem a barba.

Menos de 20 dias depois da internação, a reportagem do EM foi até a fazenda em Lagoa Santa para visitar o projeto do Credeq. De repente, um homem se apresenta. “Beleza?”, pergunta. É Wilquer. Está irreconhecível. Com cabelos cortados, barba aparada e cinco quilos a mais, ele parece um década mais novo. Ainda há dificuldade de raciocínio. O ex-porteiro demora a encontrar palavras para se expressar. Mas aparenta estar firme. “Não vim aqui tratar das drogas, vim tratar de mim”, diz. Ele acredita que pode voltar a ser o que era antes de se viciar em crack. “Jesus está me transformando.”

Wilquer seguiu o tratamento à risca até abril. Naquele mês, começou a enfrentar problemas. Segundo funcionários do Credeq em Lagoa Santa, o ex-porteiro não voltou para a internação depois de uma consulta. Disse que daria um telefonema. Perdido, entrou em contato com o sítio e foi resgatado. Pouco depois, teve um ataque de fúria e rasgou os papéis de seu prontuário. Foi mais uma vez convencido a continuar em tratamento. Acabou transferido para a unidade de Ravena.

“Quando chegou lá, virou as costas e disse que usaria drogas mesmo, que não queria saber de nada daquilo. Voltou para as ruas”, relatou um dos funcionários do Credeq. Wilquer voltou para a região da Lagoinha. Ele chegou a ligar para a irmã, pediu que um almoço fosse marcado na casa da mãe, mas até hoje a família não o viu. “Para se levantar, ele tem que entender que sozinho não vai dar conta, precisa admitir que só quando aceitar que é doente vai sair dessa”, lamenta a irmã.

Em 30 de julho, a reportagem localizou Wilquer pela última vez. Estava perto do Conjunto IAPI, na Avenida Antônio Carlos. Era o mesmo do primeiro encontro, em fevereiro. Barba por fazer, cabelos desgrenhados, fisionomia cansada, saco de lixo escorado nos ombros com todos os pertences. Por que abandonou o tratamento? “Crack, crack, crack. Bateu uma fissura e tive que sair para fumar.”

Onde se tratar

Além de comunidades terapêuticas da Grande BH, como a procurada pelo ex-porteiro Wilquer da Silva, a estrutura da capital para tratar dependentes de crack inclui quatro unidades de atendimento: o Centro Mineiro de Toxicomania e os Centros de Referência em Saúde Mental Álcool e Drogas (Cersam AD) Pampulha, Barreiro e Nordeste. Há ainda o Centro de Referência Estadual em Álcool e Outras Drogas de Minas Gerais, que tem convênio com comunidades terapêuticas.

Desafio

“O índice de recuperação dos usuários de crack não ultrapassa 20%. Para atingir entre 40% e 50%, é preciso acompanhamento psicológico, psiquiátrico e pedagógico.”
Amadeu Rosseli Cruz, professor aposentado da UFMG e estudioso de dependência química há 40 anos

Casa de apoio

A Casa Dia de Apoio ao Drogado e ao Alcoólatra de Uberaba, que recebeu a diarista Vanessa dos Santos, funciona há 16 anos. Subsidiada pelo Estado, tem espaço para 15 mulheres. Cobra da família interesse pela recuperação, passagens e um depósito de R$ 100 para despesas pessoais. “A família tem de ter uma contrapartida mínima. Quando a pessoa chega aqui, a passagem e a caixinha são trancadas em um cofre para ser usadas quando necessário”, diz a psicóloga Valéria Guimarães.

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