Fé em Deus e pé no freio

Ato de coragem evita tragédia no Anel Rodoviário

Um dia após evitar nova tragédia no Anel Rodoviário de BH, caminhoneiro conta de onde veio a inspiração que o transformaria em herói, ao parar carreta de 25 toneladas desgovernada

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postado em 29/09/2012 06:00 / atualizado em 29/09/2012 20:25

Luiz Ribeiro

Sólon Queiroz/esp. EM/D.A press

A experiência de uma vida ao volante usada para salvar vidas na estrada. Com o conhecimento adquirido em 27 anos cortando as rodovias do Brasil, o caminhoneiro José Bezerra de Carvalho, de 58, rememorou ontem a manobra que evitou mais uma tragédia no Anel Rodoviário de Belo Horizonte, enquanto assistia aos primeiros reparos em seu caminhão-baú de quatro meses de uso, que ficará fora de combate por duas semanas devido à noite de herói do proprietário. Os custos da reforma completa do veículo, entre R$ 35 mil e R$ 40 mil, serão cobertos pelo seguro, mas Bezerra ficará parado por duas semanas, com um prejuízo que pode chegar a R$ 8 mil. Ao comentar a situação, o motorista dá mais um exemplo de desprendimento: “Temos que aceitar. Não podemos pensar somente na gente”.

Nascido em Mamanguape, a 35 quilômetros de João Pessoa, na Paraíba, Bezerra hoje mora em Entre Rios de Minas e vive de transportar bananas de Janaúba, no Norte mineiro, para o Rio de Janeiro. Foi encontrado ontem pela equipe do Estado de Minas em uma oficina de Montes Claros, para onde seu caminhão foi rebocado por um guincho. A vida dele é assim: há quase três décadas cruzando o mapa, saltando de cidade em cidade. “Na estrada estamos sempre convivendo com o perigo. Já vi várias pessoas morrerem em acidentes. Mas comigo mesmo nunca aconteceu nada, porque sempre estou com Deus”, conta Bezerra, homem não só de perícia, mas de muita fé.

Foi a ela que o motorista, casado, pai de dois filhos, se agarrou para fazer a manobra que conseguiu parar uma Scania com 25 toneladas de pedras, que ameaçava passar por cima de dezenas de carros no Anel Rodoviário de BH. Anteontem à noite, o caminhoneiro voltava do Rio de Janeiro quando percebeu, pelo retrovisor, a carreta desgovernada descendo o trecho que já protagonizou pelo menos 14 mortes em circunstâncias semelhantes desde 2009. “Olhei para a frente e vi que só tinha carro pequeno. Aí, comecei a rezar. Eu poderia abrir passagem, mas, se fizesse isso, a carreta iria passar por cima de 50, 100 carros e matar muita gente. Engatei a segunda marcha e mantive meu caminhão a uns 20 quilômetros por hora. Deixei a carreta colar e ela me empurrou por uns três quilômetros até que consegui parar”, recorda.

A ideia que salvou vidas não veio apenas das quase três décadas de volante. Naquele instante, Bezerra se recordou de um filme que havia assistido há cerca de 15 anos. Do nome ele não se lembra, mas da manobra salvadora não se esqueceu. “No filme, duas carretas viajam na mesma estrada. O motorista de trás usa o rádio para avisar que sua carreta perdeu os freios ao da frente. O caminhoneiro pede calma e orienta o colega a colar o caminhão na traseira do seu veiculo. Assim, as duas carretas viajam cerca de 20 quilômetros, até que o motorista que vai na frente consegue parar”, relata o paraibano.

Medo

Tulio Santos/EM/D.A Press
No caso de Bezerra, o percurso foi muito menor: três quilômetros. mas o desafio e o medo, bem piores. “Pisei no freio para tentar segurar a carreta, mas o peso dela era muito grande. Teve hora em que achei que não ia dar conta. Mas comecei a pedir a Deus e a fé foi mais forte do que a fraqueza da gente”, descreve o caminhonheiro-herói, que carrega no para-brisa adesivo com os dizeres “Jesus: onde você pode confiar”.

Perguntado sobre sua sensação depois da proeza, Bezerra dá testemunho de humildade. “Não me sinto mais do que os outros. Acho que se cada um puder fazer a sua parte e não prejudicar o próximo, já fica de bom tamanho”. Ele revela também que não foi a primeira vez que salvou vidas nas estradas. “Há alguns anos, aconteceu um grave acidente com um ônibus na BR-116, perto de Governador Valadares. Morreram 16 pessoas. Mas eu estava passando na hora e ajudei a salvar outras 22”, recorda.

Na opinião de Bezerra, a culpa dos acidentes nas rodovias é sobretudo dos motoristas, incluindo caminhoneiros. “Muitas vezes, os colegas empregam alta velocidade no lugar errado e na hora errada”, comenta. Como outros motoristas “bananeiros”, ele cumpre jornadas arriscadas no trecho de mil quilômetros entre Janaúba e o Rio de Janeiro, que costuma percorrer em 16 horas. “Já bateram em meu caminhão, mas eu nunca bati em ninguém e nunca capotei. Minha família sempre reza por mim e Deus ouve as orações”, assegura o herói das estradas.