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Voluntários ajudam pessoas de qualquer idade a vencer o medo e encarar a bicicleta

Ana Maria realiza o sonho de andar de bicicleta auxiliada pelo instrutor Guilherme: %u201CPensei que seria ridículo, que, se não aprendi na infância, não teria mais chance, o que não é verdade%u201D

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postado em 09/09/2012 08:02

Flávia Ayer

FOTOS: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS
Volta e meia, a bicicleta perambula por dilemas profundos da humanidade. Quando há dúvida, fica a questão: casar ou comprar uma bicicleta? Na dificuldade, a voz amiga acalenta dizendo que a vida é como andar sobre duas rodas, se aprende caindo. Já a frase “isso é igual andar de bicicleta, não se esquece jamais” é a injeção de coragem quando falta confiança. O que muitos ignoram, no entanto, é a existência do medo e insegurança que envolvem a danada da magrela: aprender a pedalar. Mas, com a proteção de anjos de carne e osso, uma turma mais madura tem conseguido resolver esse impasse, cruzar o caminho da superação e, enfim, encontrar a liberdade sobre duas rodas.

Adultos e jovens têm vencido seus próprios limites, realizando o sonho de aprender a pedalar depois que a infância passou e, agora, já cultivam outros desejos, como o de adotar o veículo como meio de transporte. As primeiras pedaladas não tiveram o apoio de rodinhas, mas de mãos abençoadas de voluntários do movimento Bike Anjo. Presente em 44 cidades do país, o projeto chegou este ano a Belo Horizonte e tem conseguido transformar histórias. Além de ensinar a andar de bicicleta, os instrutores orientam ciclistas a traçar rotas nos percursos casa-trabalho e dão orientações sobre segurança no trânsito para quem faz da magrela meio de transporte.

E o mais surpreendente: é tudo de graça. “É porque liberdade não tem preço”, afirma um dos seis “bike anjos” de BH, Guilherme Tampieri, responsável por trazer o projeto para a capital mineira. O grupo faz atendimentos domiciliares e, em agosto, começou a promover oficinas em espaços públicos. Foi assim que a tradutora Ana Diniz, de 55 anos, deu as primeiras pedaladas em direção à liberdade. O filho e o marido, adeptos da bike, sempre a incentivaram, mas sem muito efeito prático, até que um belo dia ela ganhou uma bicicleta inesperadamente. “Comprei um saco de cimento, preenchi o cupom e fui sorteada”, conta.

A bike ficou encostada em casa, mas serviu como um estímulo para que Ana vencesse o desafio de se equilibrar sobre duas rodas e, a convite do filho, participasse da oficina do Bike Anjo, há três semanas. “A idade foi uma barreira, pois vamos adquirindo medos ao longo da vida. Pensei que seria ridículo, que, se não aprendi na infância, não teria mais chance, o que não é verdade”, revela. Esses obstáculos foram sendo vencidos quando o vento começou a bater forte no rosto de Ana. “Bicicleta tem a ver com liberdade, entrar em contato com a cidade e as outras pessoas. Me senti leve”, diz.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Enquanto Guilherme segurava o guidom, a tradutora, em cima da bicicleta, ganhava velocidade no pedal até que o anjo deixou Ana seguir sozinha sem que ela percebesse. “Ele nos passa muita confiança”, diz. Ainda insegura para pedalar sem o anjo, Ana acredita que a independência será apenas uma questão de tempo. “Quero passear muito e até usar a bicicleta para pequenos deslocamentos na cidade”, planeja. Ao lado da amiga, a dentista Maria Elizabeth Lima, de 55, ouvia atenta. Em minutos, seria ela a próxima a andar sobre rodas, um sonho de infância interrompido pela tradição. “Minha mãe dizia que menina não podia andar de bicicleta e, naquela época, não contestávamos os pais”, conta Beth.

SEM MEDO De prontidão, o anjo Guilherme ajusta o banco e o guidom para a dentista iniciar sua aventura particular. “Tem um lado certo para sentar?”, perguntou, desconfiada. “Bicicleta não é igual a cavalo, não”, descontraiu Guilherme, lhe ensinando como posicionar o pé no pedal. Superada a falta de jeito inicial, a dentista começa a ganhar distância, graças ao empurrão do bike anjo, e, pouco a pouco, a expressão tensa é substituída por um sorriso largo. “Acho que, quando superamos o medo de andar de bicicleta, também vencemos uma série de outros medos que temos na cabeça”, ressalta Beth, que pretende combater o estresse com a bicicleta, meditação, ioga, acupuntura e arte-terapia.

Aos 57 anos e incentivada por uma amiga, a vendedora Cláudia Prates Campos também topou o desafio de aprender a dirigir a magrela. Como as moças de sua geração, foi proibida pelos pais de pedalar e deixou o sonho adormecido. Sempre frustrada por não saber se equilibrar sobre duas rodas, Cláudia, uma das protegidas do Bike Anjo BH, quer se aventurar nas pedaladas noturnas na cidade. “Falei com os meninos que gostaria de presenteá-los de alguma forma e eles me disseram que o presente será eu participar dos passeios de bike à noite”, conta Cláudia, ainda tímida em cima do veículo. “Tenho muita vergonha, mas é uma oportunidade de descobrir experiências novas e uma delícia, então pensei: por que não?”, questiona.

SERVIÇO

Interessados nos serviços do movimento Bike Anjo BH podem entrar em contato pelo bikeanjobh@gmail.com. Conheça mais sobre o projeto no bikeanjobh.wordpress.com

Sem carros e ônibus

Amanda Corradi chegou a se sentir um ser de outro planeta por uma razão muito objetiva: aos 21 anos, ela não sabia andar de bicicleta. “Quando você conta isso para as pessoas, elas olham como se você fosse um ET”, brinca. Determinada, a estudante de arquitetura e urbanismo não só encarou a meta de aprender a pedalar como transformou as ciclovias em tema de seu trabalho final de graduação. A bicicleta ela ganhou do namorado, adepto ao veículo de duas rodas, e os ensinamentos, dos voluntários do Bike Anjo BH.

Há menos de um mês, ela arriscou as primeiras pedaladas e, leve e solta em cima da bike, Amanda traça novos desafios. “Até fevereiro, quero ir de casa até a faculdade de bicicleta. São 10 quilômetros”, conta. O professor Guilherme Tampieri, um dos bike anjos, está ajudando a garota na empreitada e ressalta que, quando o assunto é a bicicleta, não há limite de idade, tempo certo nem receita para o aprendizado. “Se a pessoa tem 94 anos e sonha em andar de bicicleta, pode nos procurar”, enfatiza Guilherme. Ter uma bike também não é requisito para aprender, pois os instrutores podem emprestar.

As aulas desses anjos, que já “formaram” 10 pessoas e acompanham atualmente outras 40, ocorrem em oficinas coletivas ou individualmente. “Também acompanhamos quem já sabe pedalar dando dicas de segurança, fazemos rotas para orientar sobre o melhor percurso que a pessoa pode fazer para ir de um ponto a outro da cidade”, lista Guilherme. Foi assim que o designer Rafael Madeira, de 28, primeira pessoa a ser “abençoada” pelas ajudas do Bike Anjo BH, conheceu o projeto. Cansado de esperar 50 minutos pelo ônibus na saída da faculdade, ele decidiu comprar uma bicicleta e usá-la como transporte.

Mas havia dois problemas no caminho. Há mais de 18 anos que ele não andava de bicicleta e, além disso, o designer não sabia qual seria o melhor trajeto a traçar. “O bike anjo foi até a minha casa e fez o percurso até a faculdade. Também me ensinou a encher o pneu, passar marcha, colocar a corrente no lugar certo”, conta, lembrando, que no início, até duvidou de tanta bondade. “A gente acha estranho, porque é tudo de graça!”, brinca, comemorando os resultados. “Descer a Silviano Brandão à noite de bicicleta é uma paz”, diz Rafael, que lamenta o fato de BH ainda não estar preparada para receber os ciclistas.
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