Minas Gerais tem uma contradição cada vez mais evidente no turismo: o Estado reúne algumas das experiências mais procuradas do Brasil, mas viajar por seus destinos nem sempre cabe no bolso do visitante. Em cidades históricas, destinos de natureza, regiões gastronômicas e municípios próximos a Belo Horizonte, não é raro encontrar diárias de pousadas que, em determinados fins de semana e feriados, chegam a valores próximos — ou até superiores — aos de hotéis de grandes capitais.










O problema não é apenas uma percepção individual. Uma pesquisa divulgada em 3 setembro pela Fecomércio MG mostra que 33,6% dos belo-horizontinos interessados em viajar apontam a redução do preço da hospedagem como o principal estímulo para escolher um destino dentro de Minas Gerais. Outros 25,9% afirmam que simplesmente preços menores poderiam incentivar essas viagens.


O dado é especialmente relevante porque revela uma demanda que já existe. Segundo a mesma pesquisa, 70,2% dos entrevistados afirmam viajar menos do que gostariam. Entre aqueles que pretendem viajar nos próximos seis meses, 23,7% planejam visitar municípios mineiros.


Ou seja: há interesse em conhecer Minas, mas o preço pode estar impedindo que parte desse desejo se transforme em viagem.



Quando a diária deixa de ser acessível


Uma diária de R$ 800, R$ 1.000 ou R$ 1.500 não significa necessariamente que o proprietário da pousada esteja obtendo uma margem extraordinária. O preço final de uma hospedagem resulta de uma combinação de custos fixos, custos variáveis e, principalmente, da relação entre oferta e procura.


Hotel e pousada têm uma característica particular: o quarto que não foi vendido naquela noite não pode ser estocado para amanhã. Por isso, os empreendimentos trabalham com gestão dinâmica de preços.


Em um fim de semana comum, uma pousada pode cobrar R$ 450. No feriado, quando a procura aumenta e o número de quartos disponíveis permanece praticamente igual, a tarifa pode subir para R$ 800 ou R$ 1.000.


Em destinos pequenos, esse efeito é ainda maior.


Uma cidade histórica ou um destino de cachoeiras pode ter poucas centenas de unidades habitacionais. Quando ocorre um festival, feriado prolongado, Carnaval, Réveillon ou evento gastronômico, a demanda cresce rapidamente sem que seja possível criar novos quartos de uma hora para outra.


O resultado é conhecido no setor: pouca oferta + muita procura = tarifa mais alta.


Durante o Carnaval de 2026, por exemplo, hotéis de lazer monitorados pela Associação Mineira de Hotéis de Lazer chegaram a registrar 97% de ocupação, enquanto Belo Horizonte alcançou média de 85,62%, com pico de 92,3%. Na região Centro-Sul da capital, a diária média aumentou 15,2% durante o período.


Em outros feriados, o fenômeno também aparece. No Corpus Christi de 2025, a ocupação média nos principais polos turísticos mineiros chegou a 79%, com destinos como São João del-Rei registrando 95%.


O que pesa no preço de uma pousada?


A estrutura de custos da hotelaria é mais complexa do que parece.


Há folha de pagamento, encargos trabalhistas, energia elétrica, água, lavanderia, alimentação, manutenção, limpeza, jardinagem, segurança, sistemas de reservas, taxas de cartão, impostos, reformas e aquisição de enxoval e equipamentos.


A energia, por exemplo, é um custo relevante. Segundo o IBGE, a energia elétrica residencial acumulou alta de 11,29% em Belo Horizonte em 2025, enquanto a média nacional foi de 12,31%.


A inflação também atingiu diretamente o serviço de hospedagem. O IBGE registrou alta de 9,61% no subitem hospedagem em 2025, acima da inflação oficial de 4,26% daquele ano.


Isso ajuda a explicar por que a percepção do consumidor pode ser de que hotéis e pousadas estão subindo muito mais do que a inflação geral.


As plataformas também entram nessa conta


Outro componente importante são as plataformas digitais de reserva.


A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional) há anos chama atenção para o impacto das plataformas de comercialização e para a necessidade de regras que estabeleçam condições mais equilibradas entre a hotelaria tradicional e os imóveis comercializados por aplicativos.


A entidade também defende que o setor seja tratado de maneira diferenciada na política tributária, argumentando que a hotelaria tem forte intensidade de mão de obra — cerca de 50% dos custos, segundo a própria ABIH Nacional.


Em março de 2026, a ABIH-SP apresentou outro dado que ajuda a dimensionar o problema: segundo a associação, comissões de portais, canais de gestão, taxas de cartão e impostos podem consumir até 45% do valor final de uma diária em determinadas operações realizadas por plataformas digitais.


Isso não significa que 45% seja uma regra para todas as pousadas mineiras. O percentual varia de acordo com contrato, canal de venda, regime tributário e modelo de operação. Mas mostra por que uma tarifa aparentemente alta não corresponde necessariamente ao mesmo percentual de lucro para o estabelecimento.


A própria hotelaria mineira reconhece o desafio


A ABIH-MG afirma que Minas vive um momento de recuperação e que a ocupação hoteleira já está acima dos níveis registrados em 2019. Ao mesmo tempo, a entidade coloca entre suas prioridades para 2026 a qualificação, inovação, experiências diferenciadas e aumento da diária média.


Esse último ponto é importante.


Para o setor, aumentar a diária média pode ser uma estratégia de sustentabilidade econômica dos empreendimentos. Para o turista, entretanto, o desafio é outro: como fazer com que o crescimento da hotelaria não transforme Minas em um destino acessível apenas para quem tem maior poder aquisitivo?


A resposta talvez esteja menos em tentar simplesmente obrigar hotéis a baixar preços e mais em aumentar a oferta, reduzir custos estruturais e criar diferentes categorias de hospedagem.


Minas ainda tem uma oferta relativamente concentrada


Dados do Ministério do Turismo mostram que Minas Gerais possuía, em 2024, 1.390 meios de hospedagem cadastrados no Cadastur, 53.413 unidades habitacionais e 110.693 leitos.


É uma rede importante, mas a distribuição é desigual.


Os destinos mais conhecidos concentram demanda justamente nos períodos em que o estoque disponível é limitado. Ao mesmo tempo, centenas de municípios mineiros possuem atrativos turísticos, mas ainda têm pouca oferta profissional de hospedagem.


O próprio Governo de Minas estima atualmente cerca de 5 mil meios de hospedagem no Estado, considerando a oferta mais ampla que está sendo organizada pelo programa Minas Hospeda.


Essa diferença entre o universo estimado e o número de empreendimentos cadastrados no Ministério do Turismo também revela outro problema: formalização e conhecimento da oferta ainda precisam avançar.


O caminho pode estar em um "Minas bom e barato"


Transformar Minas em um destino mais acessível não significa transformar pousadas charmosas em hospedagens de baixo custo.


O Estado pode trabalhar com uma estratégia mais ampla: Minas para diferentes bolsos.


Isso significa ter desde hotéis boutique e pousadas de experiência até hotéis econômicos, hostels, hospedagens rurais, pequenos hotéis familiares, campings estruturados e empreendimentos de categoria intermediária.


Hoje, em muitos destinos turísticos mineiros, a escolha pode ser pequena: ou o visitante paga caro por uma pousada de charme ou precisa abrir mão de localização, conforto e serviços.


O que o poder público poderia fazer


1. Criar uma política estadual de hospedagem econômica


Linhas de crédito específicas, juros subsidiados e programas de apoio poderiam estimular pequenos hotéis, hostels e pousadas econômicas em destinos turísticos com pouca oferta.


O objetivo não seria subsidiar a diária, mas aumentar o número de quartos disponíveis.


2. Incentivar a baixa temporada


Municípios poderiam criar calendários que distribuam eventos ao longo do ano, evitando a concentração de demanda em poucos feriados.


Quanto mais equilibrado o fluxo, menor a necessidade de trabalhar com tarifas muito elevadas nos poucos períodos de grande procura.


3. Melhorar estradas e transporte regional


Uma hospedagem barata perde parte de sua vantagem se o turista precisar gastar muito para chegar ao destino.


Melhores estradas, transporte intermunicipal, integração entre ônibus e aeroportos e novas conexões aéreas podem ampliar o raio de destinos economicamente viáveis.


Em 2026, Minas recebeu 110 voos extras durante a temporada de inverno, com mais de 17,5 mil assentos adicionais, mostrando como conectividade pode ser utilizada como instrumento de política turística.


4. Reduzir o custo de formalização


Pequenas pousadas familiares podem ter dificuldade para lidar com burocracia, licenciamento, normas sanitárias, acessibilidade e exigências ambientais.


Um programa estadual de orientação e simplificação poderia reduzir custos sem abrir mão da segurança e da qualidade.


5. Criar incentivos para quem oferece tarifa acessível


Em vez de controlar preços, o poder público poderia estimular empreendimentos que mantenham determinada parcela das unidades dentro de faixas tarifárias acessíveis, especialmente na baixa temporada.


Poderiam existir programas de promoção, crédito ou benefícios vinculados a indicadores de preço, qualidade e formalização.


6. Fortalecer a venda direta


A dependência de grandes plataformas aumenta o custo de distribuição.


A parceria criada em 2026 pela ABIH-MG com a plataforma ReservasT, por exemplo, permite aos hotéis associados divulgar seus empreendimentos sem taxa de adesão e sem comissão sobre as reservas realizadas pela plataforma.


Modelos que aproximem diretamente turista e estabelecimento podem ajudar a reduzir custos de comercialização.


7. Usar os dados para combater a sazonalidade


Minas já possui uma ferramenta importante: o Observatório do Turismo de Minas Gerais monitora fluxo turístico, receita, ocupação hoteleira, aeroportos, parques e intenção de viagem.


O próximo passo poderia ser utilizar esses dados para identificar onde falta hospedagem, em quais períodos existe excesso de demanda e quais municípios têm potencial para receber investimentos.


O Minas Hospeda pode ser o começo


Em maio de 2026, o Governo de Minas lançou o Minas Hospeda, programa voltado à organização, promoção e valorização dos meios de hospedagem do Estado.


Entre as ações previstas estão a ampliação do cadastro estadual, promoção comercial, valorização da experiência mineira e criação de um selo relacionado a acolhimento, sustentabilidade, acessibilidade e identidade cultural.


É uma oportunidade para acrescentar à discussão um quinto elemento: preço e acessibilidade econômica.


Qualidade não deveria ser sinônimo de tarifa elevada.


Uma pousada pode ser simples, bem administrada, confortável, limpa, segura e autenticamente mineira sem necessariamente custar R$ 1 mil por noite.


O consumidor mineiro já está dando o recado


A pesquisa da Fecomércio MG talvez seja o dado mais revelador desse debate.


Entre os moradores de Belo Horizonte que pretendem viajar, 24,1% têm orçamento de até R$ 810 para a viagem e 24,6% estimam gastar entre R$ 811 e R$ 1.621.


Para esse público, uma diária de R$ 700, R$ 800 ou R$ 1.000 pode consumir praticamente todo o orçamento destinado à viagem.


E isso significa menos dinheiro para restaurantes, museus, parques, produtores rurais, artesãos, guias, comércio e atrações.


Há uma questão econômica importante por trás da discussão: uma diária excessivamente cara pode aumentar a receita de um empreendimento individual, mas uma política turística que estimule hospedagens competitivas pode aumentar o gasto total do visitante em toda a economia local.


Minas já tem o produto turístico. Tem patrimônio, gastronomia, natureza, montanhas, águas, festas populares, cafés, queijos, vinhos, cultura e hospitalidade.


O desafio agora é fazer com que o turista consiga permanecer mais tempo no Estado.


Porque o verdadeiro indicador de sucesso talvez não seja apenas quanto custa uma diária.


É quantas noites o visitante consegue pagar, quantas vezes ele volta e quanto dinheiro consegue deixar na comunidade durante a viagem.


Um destino bom não precisa ser barato. Mas precisa oferecer escolha.


Essa talvez seja a principal questão para o turismo mineiro nos próximos anos.


Minas não precisa competir com destinos de baixo custo. Precisa construir uma oferta suficientemente diversificada para que uma família, um casal, um viajante solo ou um grupo de amigos encontrem experiências diferentes em faixas de preço diferentes.


A política pública pode atuar justamente onde o mercado sozinho tem dificuldade: infraestrutura, crédito, conectividade, qualificação, formalização, promoção da baixa temporada e ampliação da oferta.


O resultado seria uma equação mais interessante para todos: mais quartos, mais concorrência, maior permanência, maior circulação de dinheiro e preços mais previsíveis.

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E talvez seja assim que Minas possa transformar uma de suas maiores qualidades — a hospitalidade — também em uma vantagem econômica: um Estado que recebe bem, tem o que mostrar e permite que mais gente possa ficar.










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