Os recentes atos de vandalismo que danificaram pinturas rupestres milenares na Serra do Cipó, em Minas Gerais, levantaram uma questão complexa: é possível “apagar” o estrago e restaurar um patrimônio histórico tão delicado? O trabalho é minucioso, lento e une tecnologia de ponta com um conhecimento profundo sobre geologia e química.
No entanto, especialistas e órgãos de proteção alertam que danos a registros arqueológicos são frequentemente considerados irreversíveis. No caso específico da Serra do Cipó, onde pichações com tinta preta foram feitas sobre a rocha de quartzito, a tarefa de avaliar a viabilidade da remoção foi delegada a pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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Diagnóstico do dano: o primeiro passo
Antes de qualquer ação, uma equipe multidisciplinar realiza um diagnóstico detalhado. Após o vandalismo ser identificado, o primeiro passo dos especialistas é mapear a extensão do problema e entender a composição química tanto do pigmento original quanto da tinta usada na pichação, um material industrial moderno e agressivo.
Para isso, podem ser utilizadas técnicas como fotografia com luz ultravioleta, scanners 3D e análises laboratoriais de micropartículas. Esse estudo inicial ajuda a definir qual abordagem poderia ser a mais segura e eficaz, pois cada tipo de rocha e pigmento reage de uma forma diferente.
As possíveis técnicas de remoção
Quando a remoção é considerada viável, o processo é quase cirúrgico. Um dos métodos possíveis envolve a aplicação controlada de solventes e géis específicos, escolhidos para tentar dissolver a camada de vandalismo sem atingir a arte original. O produto costuma ser aplicado em áreas mínimas, com o auxílio de cotonetes ou pincéis finos, e removido mecanicamente.
Em alguns cenários, podem ser empregadas ferramentas como microponteiras e bisturis para retirar partículas sólidas da tinta nova, em um trabalho que exige precisão milimétrica. Tecnologias a laser de baixa potência também são uma alternativa em estudo para tentar vaporizar a camada superficial da pichação, em uma abordagem de alta tecnologia.
O maior desafio é a seletividade. A substância usada para remover o material recente não pode, em hipótese alguma, reagir com os pigmentos ancestrais, feitos de óxidos minerais e materiais orgânicos. A fragilidade da obra original, já desgastada pelo tempo, torna a tarefa ainda mais delicada.
No caso da Serra do Cipó, especialistas alertam que a recuperação pode não ser possível. Mesmo com as melhores técnicas disponíveis, a interação química entre a tinta industrial e a porosidade do quartzito pode ter causado danos permanentes. A expectativa dos pesquisadores é de, na melhor das hipóteses, mitigar o impacto visual do vandalismo, mas a possibilidade de que uma cicatriz permanente fique na história registrada naquelas pedras é altíssima.
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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
