A celebração dos 70 anos de "Grande Sertão: Veredas" renova o fascínio por uma das obras mais complexas e importantes da literatura brasileira. Lançado em 1956, o livro de João Guimarães Rosa continua a desafiar e encantar leitores, muito por conta de sua linguagem única, um verdadeiro "dialeto" criado pelo autor para narrar a saga do jagunço Riobaldo.
Essa construção linguística não é um mero enfeite, mas a própria essência da narrativa. Guimarães Rosa misturou o português arcaico com a fala popular do sertanejo, acrescentando palavras que ele mesmo inventou, os famosos neologismos. O resultado é um texto que soa como música, com ritmo e sonoridade próprios, refletindo a vastidão e os mistérios do sertão mineiro.
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O autor subverteu a gramática tradicional, inverteu a ordem das frases e deu novos significados a termos conhecidos. Essa escolha não foi aleatória. A linguagem de Riobaldo espelha sua jornada interior, cheia de dúvidas, contradições e uma busca incessante por sentido na vida e no amor. Ler "Grande Sertão: Veredas" é, portanto, uma imersão em um universo onde a palavra recria o mundo.
Para o leitor contemporâneo, a tarefa pode parecer difícil no início, mas a persistência revela uma riqueza inigualável. A linguagem de Rosa exige atenção e entrega, transformando a leitura em uma experiência profunda, quase como decifrar um mapa para a alma do sertão e de seus personagens.
Glossário do sertão roseano
Entender algumas das expressões e neologismos criados por Guimarães Rosa pode facilitar a travessia por sua obra. Veja o significado de alguns termos marcantes:
Nonada: uma das palavras mais famosas, abre o livro. Significa "nada", "bobagem", "coisa sem importância".
Arrenegado: algo ou alguém amaldiçoado, renegado, ligado ao diabo.
Sirigote: inquieto, que não para, faceiro. O termo é usado por Riobaldo para descrever a agilidade e a vivacidade de Diadorim.
Zuretado: atordoado, confuso, tonto. Descreve o estado de espírito de Riobaldo em vários momentos.
Travessia: mais que uma viagem física, representa a jornada da vida, a passagem de um estado a outro, o percurso existencial do protagonista.
Pacto: refere-se ao suposto acordo que Riobaldo acredita ter feito com o diabo, um dos eixos centrais de sua angústia e narrativa.
Urutu-Branco: nome de guerra que Riobaldo adota ao se tornar chefe de bando, simbolizando sua nova identidade e poder.
Beijamão: cumprimento respeitoso, ato de beijar a mão de uma autoridade.
Carepa: sujeira, crosta, algo que endurece na superfície.
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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
