Em uma gruta na região de Lagoa Santa, no município de Pedro Leopoldo (MG), foi encontrado um dos tesouros mais importantes da ciência brasileira: o crânio de Luzia. Considerado um dos fósseis humanos mais antigos das Américas, com datação entre 12.500 e 13.000 anos, sua descoberta ajudou a reescrever o que se sabia sobre a chegada dos primeiros grupos humanos ao continente e colocou a região mineira no mapa mundial da arqueologia.

O esqueleto foi localizado entre 1974 e 1975 durante uma missão franco-brasileira, mas permaneceu guardado por décadas sem grande alarde. Foi apenas nos anos 1990 que pesquisadores identificaram sua real importância. O nome Luzia é uma homenagem a "Lucy", o famoso fóssil de Australopithecus afarensis encontrado na Etiópia, um marco para o estudo da evolução humana.

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A análise inicial do crânio, feita nos anos 1990, revelou traços que pesquisadores associaram aos de populações africanas e australianas. Essa característica levou a uma teoria que desafiou o modelo de povoamento aceito até então.

O que o fóssil de Luzia revela

Baseada nessas características morfológicas, a teoria inicial propunha um cenário mais complexo, com pelo menos duas correntes migratórias distintas chegando ao continente. Essa hipótese se contrapunha ao modelo de uma única onda migratória vinda da Ásia através do Estreito de Bering.

Segundo essa teoria, hoje reavaliada, a primeira leva, da qual Luzia faria parte, teria chegado ao continente há mais de 14 mil anos. Posteriormente, um segundo grupo, com características asiáticas, teria chegado e substituído ou se misturado à população original, dando origem à maioria dos povos indígenas atuais.

Estudos genéticos publicados em 2018, no entanto, trouxeram novas conclusões. A análise do DNA de fósseis da região de Lagoa Santa revelou que essas populações tinham ancestralidade asiática, semelhante aos demais povos indígenas americanos, e não apresentavam componentes africanos ou australo-melanésios como se supunha pelas características morfológicas. Isso sugere que as características faciais distintas de Luzia podem ter outras explicações evolutivas.

Em 2018, a história de Luzia sofreu um grande abalo com o incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde o fóssil estava exposto. O temor era de que essa peça-chave da nossa pré-história tivesse sido perdida para sempre. Contudo, após um trabalho minucioso de resgate nos escombros, cerca de 80% do crânio foi recuperado e remontado.

Hoje, Luzia continua a ser um pilar para pesquisas sobre a ocupação humana nas Américas. Sua história reforça a importância da região de Lagoa Santa como um dos mais ricos sítios arqueológicos do mundo, um verdadeiro berço da pré-história do continente.

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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.

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