Para muitos casais, o sonho da paternidade começa como um anseio silencioso. Para Cassio Freitas e Siomar Parreira, é um desejo compartilhado desde o primeiro encontro - se conheceram em Milão, em 2019. "Pode parecer loucura, mas no primeiro date já falávamos sobre filhos", relembram. O que era um plano abstrato ganhou nomes — Antonio e Bento, homenagens aos avôs — muito antes de se tornar realidade através de um complexo processo de gestação por substituição (popularmente conhecida como barriga de aluguel), nos Estados Unidos.
Embora a adoção seja um caminho trilhado por muitos amigos do casal, eles sonhavam com uma conexão biológica e a chegada de gêmeos. No Brasil, a resolução do Conselho Federal de Medicina permite a doação temporária do útero apenas em casos de parentesco até quarto grau, o que não era viável para a configuração familiar deles.
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A solução veio em Los Angeles, Califórnia, pioneira na regulamentação do processo, onde o procedimento é legalizado, regulamentado e há estrutura médica confiável. "Escolhemos os EUA pela segurança jurídica e estrutura médica. Foram três anos de jornada, enfrentando incertezas e até um câncer no meio do caminho." Sem o auxílio de agências, o casal mergulhou em blogs, contratos internacionais e consultas médicas para construir o próprio caminho.
"É um processo cheio de altos e baixos, de espera, de silêncio, de ansiedade. A gente aprendeu a viver um dia de cada vez. Mas nunca sem esperança e com pensamentos positivos."
Vínculo
Se a escolha da doadora de óvulos foi um processo impessoal por catálogo, a conexão com a mulher que gestaria os bebês foi o oposto. Após avaliarem oito candidatas, o "sim" veio em uma chamada de vídeo. "O marido dela entrou na chamada e disse que poderíamos ficar tranquilos, que ela teria todo o apoio dele. Aquilo mudou tudo", contam.
A distância geográfica foi encurtada pela tecnologia. Grupo de WhatsApp e exames via FaceTime transformaram a gestante e seu marido em "anjos" na vida do casal. O respeito mútuo floresceu em uma relação que perdura até hoje, com a mulher acompanhando o crescimento dos meninos pelas redes sociais.
"O papel dela era cuidar da saúde dos meninos, e isso ela fez com um carinho enorme. Não é a mesma vivência de quem está fisicamente perto, mas foi o que nos permitiu viver a paternidade, mesmo de longe."
O nascimento
A biologia também foi planejada: os gêmeos carregam o material genético de ambos os pais. No entanto, a natureza impôs seu ritmo e os bebês chegaram inesperadamente com 34 semanas. O susto da ligação avisando sobre o parto foi seguido por dias de resiliência na UTI neonatal — Antonio ficou 14 dias e Bento, 15.
"A conexão entre eles era impressionante; parecia que um esperava o outro para ir embora junto", emocionam-se os pais. Foi no ambiente hospitalar que as inseguranças se dissiparam, dando lugar ao melhor projeto da vida. "Foi ali que entendemos o tamanho do amor e perdemos todos os medos."
Cássio e Siomar reforçam que a gestação por substituição é um processo médico, jurídico e emocional extremamente sério, feito com regras claras, acompanhamento profissional e, principalmente, muito respeito às mulheres envolvidas. Exige preparo, responsabilidade, ética e um desejo profundo e verdadeiro de formar uma família.
"Também é importante entender que a ciência evoluiu. Em vários países, esse é um método regulamentado, seguro e cada vez mais comum, que permite que muitas pessoas realizem o sonho de ter um filho, inclusive famílias que, de outra forma, não teriam essa possibilidade."
Apesar de cercados pelo apoio de familiares e amigos, a realidade de dois pais ainda esbarra no preconceito estrutural. Perguntas como "Onde está a mãe?" ainda são comuns. Para eles, a escolha por ter dois meninos também foi política. Após um episódio de desconforto em um banheiro masculino, o casal refletiu sobre a necessidade de ocupar espaços e tornar ambientes cotidianos mais inclusivos para pais solo ou casais homoafetivos.
Para combater o estigma de que "dois homens não dão conta", eles utilizam o Instagram (são conhecidos nas redes sociais pelo perfil @sigaolar) para mostrar a realidade do dia a dia: o cansaço, a bagunça, as consultas médicas e as primeiras palavras. "Muita gente ainda acha que a ausência de uma mãe seria um problema. Quando acompanham nossa rotina, percebem que o que uma criança precisa é de cuidado, presença. E isso sobra."
Para eles, dar visibilidade a essa configuração familiar é, antes de tudo, um ato de amor pelos filhos - a exposição da própria trajetória serve como um farol para outros brasileiros. O desejo é que Antonio e Bento cresçam sabendo que sua história nunca foi escondida, mas celebrada.
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"A gente só está mostrando o óbvio: família não é sobre formato. É sobre vínculo. E amor não tem molde." Para outros casais que desejam trilhar o mesmo caminho, o conselho é direto: informação e pé no chão. "Não é 'comprar um bebê', como alguns dizem. No final, quando você segura seu filho no colo, entende que tudo fez sentido."
