A Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) é uma doença rara do sangue caracterizada pela destruição anormal das hemácias, o que provoca anemia, fadiga intensa, falta de ar, dor abdominal e, em alguns casos, urina escura ao despertar. Apesar da baixa prevalência — cerca de 1,3 caso por milhão no Brasil —, a condição costuma afetar adultos jovens e pode evoluir com complicações graves, incluindo tromboses, principal causa de mortalidade.

A doença resulta de uma alteração adquirida nas células da medula óssea, que deixa as células sanguíneas desprotegidas contra o próprio sistema imunológico. Além da anemia, a HPN aumenta o risco de infecções e pode causar tromboses abdominais e hepáticas, frequentemente difíceis de detectar precocemente.

A seguir, o hematologista Rafael Marchesini esclarece mitos e verdades sobre a condição, ainda pouco conhecida pela população e frequentemente diagnosticada tardiamente.

“A urina escura é o sintoma mais comum da HPN.”

MITO.

A urina escura que dá nome à doença (tecnicamente chamada de hemoglobinúria) , embora seja um sinal clássico descrito há décadas, não é o sintoma mais comum. O achado mais frequente, tanto em pacientes brasileiros quanto em estudos internacionais, é a fadiga persistente.

“A HPN se manifesta apenas à noite.”

MITO.

Apesar do nome sugerir sintomas noturnos, isso não corresponde ao comportamento clínico da doença. A HPN resulta de uma mutação em células-tronco sanguíneas que leva a uma alteração contínua do sistema imunológico. Assim, manifestações como dor abdominal, fadiga e cansaço podem ocorrer em qualquer horário do dia.

“A HPN pode ser diagnosticada apenas com exames de sangue de rotina”

MITO.

Alterações em exames de rotina, como o hemograma, associadas a sintomas clínicos podem sugerir a possibilidade de HPN, mas o diagnóstico só pode ser confirmado por exames específicos, como a citometria de fluxo. Por isso, é essencial que o paciente seja avaliado por um especialista, que realizará a investigação completa e definirá o diagnóstico corretamente.

“Pacientes com sintomas leves podem ter HPN sem perceber.”

VERDADE.

Uma proporção significativa de pacientes pode apresentar inicialmente sintomas leves ou crises associadas a infecções ou ao uso de medicamentos, permanecendo assintomáticos nos intervalos.

“A HPN pode ser confundida com outras doenças por anos.”

VERDADE.

Os sintomas inespecíficos podem ser confundidos com anemia nutricional, doenças autoimunes ou alterações gastrointestinais. Muitos pacientes passam por diversos especialistas até o diagnóstico, que frequentemente ocorre após piora progressiva do quadro e anos de investigação clínica.

“O transplante de medula óssea é sempre necessário.”

MITO.

Com o uso de inibidores do sistema complemento, o transplante de medula não é mais indicado como tratamento padrão para HPN. Ele é reservado apenas a casos com outras doenças hematológicas associadas, como aplasia de medula ou mielodisplasia.

“Pacientes com HPN precisam de infusões frequentes pelo resto da vida.”

MITO.

Terapias disponíveis há mais tempo exigem infusões a cada 2 ou 8 semanas, mas novas opções ampliaram os intervalos entre  doses e reduziram a necessidade de deslocamentos. A escolha do tratamento depende da resposta clínica e do perfil de cada paciente.

“O tratamento precisa ser feito em ambiente hospitalar.”

MITO.

Com  as opções de terapias subcutâneas e oral, os pacientes podem receber o tratamento em casa, com acompanhamento médico regular. O ambiente hospitalar ainda é necessário em alguns casos, mas deixou de ser a regra.

“A rotina do paciente fica limitada pelo tratamento.”

MITO.

Com opções de esquemas mais cômodas, o tratamento pode se adaptar melhor à rotina, permitindo conciliar trabalho, estudos e compromissos pessoais. As terapias atuais são mais previsíveis e exigem menos tempo em serviços de infusão.

“Muitos pacientes abandonam o tratamento por causa da distância até o centro de infusão.”

VERDADE.

A necessidade de deslocamentos frequentes, muitas vezes longos, pode levar à perda de adesão ao tratamento. Isso compromete o controle da doença e pode resultar em interrupção completa da terapia.

“A HPN afeta apenas a saúde física.”

MITO.

A doença impacta amplamente a qualidade de vida. Além dos efeitos físicos e da redução da produtividade, a HPN pode causar sofrimento emocional e psicológico, devido à cronicidade, ao peso dos sintomas e às complicações como trombose. Por isso, uma abordagem multidisciplinar, incluindo suporte psicológico, é fundamental.

“A HPN reduz a produtividade no trabalho.”

VERDADE.

Antes do diagnóstico e durante crises, pacientes enfrentam cansaço intenso, dificuldade de concentração e ausências frequentes, o que compromete o desempenho profissional. Em casos em que o paciente faz infusões duas vezes ao mês, o tempo de deslocamento também influencia.

“Pessoas com HPN não podem viajar ou praticar atividades físicas.”

MITO.

Pacientes em tratamento direcionado não têm restrições específicas para viagens ou atividade física. Porém, o tipo de terapia pode influenciar a liberdade para viagens longas, dependendo do intervalo e da via de administração. Por isso, esses fatores devem ser considerados na escolha do melhor tratamento.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

compartilhe