O projeto que libera cassinos, bingos e jogos de azar em geral no Brasil está pronto para ser levado ao plenário do Senado, para votação definitiva.

Em julho do ano passado, a proposta chegou a entrar na pauta do dia, mas acabou não sendo apreciada.

Agora, parlamentares favoráveis e contrários à legalização da jogatina acreditam que, com a nova configuração de forças em Brasília após o primeiro turno das eleições de 2026, a fatura desse tema possa ser liquidada já após o segundo turno, no apagar das luzes do ano legislativo.

A avaliação predominante no Congresso é a de que Flávio Bolsonaro, uma vez eleito, daria o aval para avançar com a legalização dos jogos.

Para entender a relação da família Bolsonaro com os jogos de azar, é preciso voltar um pouco no tempo.

Em 2018, oito anos atrás, a então senadora Simone Tebet capitaneou a derrubada de um projeto liderado por Ciro Nogueira, presidente do PP, para liberar a jogatina no Brasil.

Ciro, que viria a ser ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e outras lideranças do Centrão, porém, não desistiram.

Durante a campanha presidencial daquele ano, o então candidato Jair Bolsonaro dizia, em lives e entrevistas, que o Brasil não poderia virar “uma grande lavanderia” e que os cassinos serviam para “lavar dinheiro” e “destruir as famílias”. Aconselhado pela bancada evangélica, da qual estava se aproximando para construir base de apoio, Jair se colocava terminantemente contrário ao tema.

A preocupação de Jair coincidia com manifestações públicas de setores da Polícia Federal e do Ministério Público.

Quando chegou ao Palácio do Planalto, no entanto, Jair começou a ser convencido do contrário. A pressão era grande por parte de lideranças políticas que trabalhavam pela legalização dos jogos, estimuladas por investidores de Singapura e de outros países. O argumento sempre foi o de que “é preciso quebrar esse tabu” e atrair investimentos para o país. 

Em março de 2019, primeiro ano de mandato de Jair, a legalização dos cassinos no Brasil foi tema de conversa entre ele e Donald Trump, em Washington. No fim daquele mesmo ano, Jair recebeu para um almoço, no Palácio do Planalto, um grupo de parlamentares favoráveis à liberação dos jogos.

Menos de um mês depois, Flávio Bolsonaro, filho 01 de Jair, senador e hoje candidato à Presidência da República com grandes chances de ser eleito, viajou a Las Vegas bancado pelo Senado.

Na ocasião, Flávio passou oito dias em Miami e em Las Vegas em “missão oficial”. Estavam com ele o senador Irajá, o então deputado Hélio Lopes e Gilson Machado, presidente da Embratur na época. A comitiva tinha como objetivo “capitanear grandes corporações de cruzeiros dos Estados Unidos para operar no Brasil”.

A agenda da viagem incluiu uma reunião com o presidente da Las Vegas Sands Corporation, o bilionário Sheldon Adelson, magnata dos cassinos e um dos maiores doadores de campanha de Trump. Flávio também se encontrou com o empresário salvadorenho Mario Guardado, diretor de cassinos, para “tratar de assuntos de turismo e cassinos”.

O filho 01 de Jair voltou dos Estados Unidos e, quatro meses depois, em maio de 2020, o então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, admitiu pela primeira vez o plano do governo Bolsonaro de instalar cassinos no Brasil.

Relatos ouvidos por este colunista naquele ano eram de que “os olhos de Jair brilhavam” quando pediam para ele imaginar a Costa Verde no litoral sul do Rio de Janeiro, onde a família Bolsonaro tem investimentos repleta de cassinos à beira-mar.

O caminho não seria simples. No governo de Jair, havia uma resistência grande da bancada evangélica. O então líder, deputado Sóstenes Cavalcante, ligado a Silas Malafaia, dizia que um Congresso conservador jamais deixaria esse tema avançar. E que os apoiadores da liberação queriam era “lavar dinheiro”.

Marcelo Crivella, da Igreja Universal, era uma voz dissonante entre os evangélicos: argumentava que só os jogos tirariam o Rio de Janeiro da bancarrota.

No início de 2022, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), apoiado por Ciro Nogueira, presidente de seu partido, e pelo próprio Jair Bolsonaro, manobrou regimentalmente e deu uma cartada na bancada evangélica, convencida, em sua maioria, a aprovar a legalização dos jogos em troca de um projeto que garantiria a isenção de IPTU para as igrejas.

O projeto passou na Câmara e seguiu para o Senado.

No Senado, em junho de 2024, já com o presidente Lula de volta ao poder, os senadores aprovaram a matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O relator, que deu parecer favorável, foi o senador Irajá (PSD-TO), aquele que cinco anos antes havia viajado com Flávio Bolsonaro para Miami e Las Vegas para abrir o caminho para a legalização dos jogos.

Há no Congresso vários parlamentares, de diferentes espectros políticos, que já possuem estruturas prontas para receber esses investimentos estrangeiros bilionários, em cidades como Foz do Iguaçu (PR) e Caldas Novas (GO). Os lobistas dos jogos são encarados nos bastidores de Brasília como potenciais financiadores de campanhas.

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São diversos interesses envolvidos na jogatina liberada no Brasil, algo que parece cada vez mais perto de se concretizar.

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