Lula e Flávio Bolsonaro tiveram uma boa dose de resiliência para chegar competitivos a este domingo, 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições de 2026.

Comecemos por Lula, o presidente candidato a uma nova reeleição. O terceiro governo do petista começou embalado pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. O inquérito da trama golpista, que resultou na condenação de Jair Bolsonaro e outros tantos, ajudou a manter vivo o discurso de que a eleição de Lula, após a saída da prisão e a anulação das condenações no âmbito da Lava Jato, havia sido também uma vitória da democracia.

A frente ampla montada com partidos de centro para derrotar Bolsonaro, em 2022, serviu para a campanha, mas não deu muito resultado no governo. Lula teve de engolir na Esplanada uma série de ministros não aliados, mais preocupados em capitalizar politicamente para si a função do que em ajudar minimamente o presidente a governar.

Lula passou parte do governo sendo cobrado a “mostrar serviço” e a apresentar novidades, depois de ressuscitar programas de governos petistas anteriores, como o Bolsa Família, o Programa de Aceleração do Crescimento e o Minha Casa, Minha Vida. Não veio nada muito novo que virasse legado. O Palácio do Planalto insistiu, por um bom tempo, no lema da reconstrução e da pacificação do país, sempre marcando uma comparação com o bolsonarismo nesses aspectos.

A popularidade de Lula não reagiu, e a comunicação foi eleita a culpada. Em 2025, com dois anos de governo, saiu Paulo Pimenta e entrou Sidônio Palmeira na Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Pouco depois, Lula ganhou de presente para o seu mandato a narrativa da defesa da soberania. O governo Donald Trump, estimulado por bolsonaristas radicados nos Estados Unidos, decidiu aplicar sanções a autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF. Além disso, haveria o tarifaço americano.

Lula demorou a dizer publicamente que tentaria uma nova reeleição em 2026. O suspense alimentou especulações e abriu margem para se imaginar uma disputa sem o petista. Confirmado pré-candidato, passou-se a dizer nos bastidores do Planalto que Flávio Bolsonaro seria o melhor adversário para Lula. É fato: Lula e boa parte dos aliados imaginaram que seria relativamente fácil derrotar o filho 01 de Jair.

A resiliência de Lula nesta campanha também é constatada diante da dificuldade de emplacar fatos novos com impacto na popularidade. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil chegou a ser eleita a “bala de prata” da pré-campanha. Não teve o efeito esperado. Foi preciso apostar no fim da escala 6×1, ainda não concretizado pelo Congresso, e recorrer a um pacote de muitas bondades às vésperas das eleições, que incluiu de programas de renegociação de dívidas a um inesperado fim das bets.

Além de tudo isso, Lula conseguiu manter indicadores econômicos com fôlego apesar dos juros altos e resistiu ao antipetismo crônico no eleitorado e ao evidente sentimento de cansaço com ele.

Do lado de Flávio Bolsonaro, a resiliência começa já no anúncio da sua pré-candidatura, em novembro de 2025. Naquela ocasião, a notícia foi vista como piada no mundo político e o senador virou alvo de chacota nos bastidores de Brasília, inclusive por lideranças da própria direita não bolsonarista. Ainda que se compreendesse o objetivo de Jair de manter o espólio político da família, o nome de Flávio não aparecia no radar público. O favorito era, de fato, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos, que acabou disputando a reeleição no estado.

Era evidente: Flávio tinha um “teto de vidro” enorme. Pouca gente acreditava que ele iria se viabilizar como presidenciável. A hipótese mais provável era a de que seu nome seria lançado, como cortina de fumaça, e, mais à frente, o campo político colocaria no jogo o candidato real. Talvez fosse mesmo essa a intenção.

O tempo foi passando, e a base de Lula começou a relembrar o passado de Flávio. As rachadinhas e a relação com Fabrício Queiroz, os esquemas investigados na loja de chocolates da qual foi sócio, a relação antiga com milicianos, a compra de uma mansão milionária em área nobre de Brasília com financiamento do BRB. Eram muitas pontas soltas a serem exploradas.

Flávio também teve de ganhar estofo ao longo da campanha. E conseguiu, de certa forma. Por ter sido um senador com pouca expressão durante o mandato do pai, justamente para não chamar a atenção para os seus rolos, Flávio claramente não demonstrava postura nem retórica de candidato a presidente. Vez ou outra, surgiam nas redes sociais imagens dele passando mal durante um debate para a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016.

Mas o maior baque para Flávio veio mesmo com a divulgação do áudio em que ele cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro, com muita intimidade, para a produção de um filme sobre o pai, o que está em investigação. Naquela ocasião, um dos aliados de Flávio disse ao PlatôBR que o episódio tinha potencial de implodir a candidatura.

A candidatura de Flávio não somente não foi implodida como, a partir dali, houve uma mudança de rumo na campanha e no sentimento dos aliados. Algo na linha de que era preciso “abraçar o que se tinha”. O “efeito Teflon” fez com que ficasse difícil grudar alguma coisa no filho 01 de Jair, por mais contundentes que fossem os segredos de Flávio e as ameaças de novas revelações.

Também se deve registrar a resiliência de Flávio diante da pressão de candidaturas dentro da direita. Ainda que não tenha havido debate entre eles, o candidato do PL segurou algumas granadas lançadas por Ronaldo Caiado e Renan Santos, e até por Augusto Cury e Romeu Zema. Flávio soube, desde o início, que muita gente na direita não bolsonarista torce, no fundo, pela vitória de Lula, para que haja um caminho mais aberto para o campo político em 2030.

Em meio à crise sem precedentes no STF e ao avanço das investigações do escandaloso caso Master, Lula e Flávio Bolsonaro se seguraram e, resilientes, vão disputar voto a voto o direito de comandar o país pelos próximos quatro anos.

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Entre vivos e feridos, salvaram-se os dois.

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