O eleitor em 2026 não quis saber de temas, propostas ou debates. E era tudo o que os dois candidatos que sustentaram a dianteira nas pesquisas, numa eleição novamente apertada, queriam.

A campanha foi mais rasa do que o espelho dágua do Palácio do Planalto. E passou na velocidade com que os eleitores consomem informação política nas redes sociais.

O voto neste domingo, 4, será baseado numa “identidade de alma”, como uma liderança política resumiu à coluna há algumas semanas. Não adianta tentar mudar.

Vale para Lula e para Flávio Bolsonaro.

E um voto “de alma”, nesse caso, não é necessariamente algo belo, como dá a entender a expressão, decidido pela empatia ou pela identificação genuína com o candidato ou com o que ele apresenta de sugestões para o país. É víscera pura, beirando a irracionalidade não em todos os casos, claro, para não generalizar.

“O caso Master vai dominar as eleições”, se dizia em Brasília alguns meses atrás. De certa forma, dominou. Mas jogou a régua moral ainda mais para baixo. As discussões passaram a ser sobre qual relação com Daniel Vorcaro era mais grave: a do meu candidato ou a do seu.

Quando o escândalo chegou à Suprema Corte, mais uma vez o eleitorado não quis debater seriamente possíveis soluções: a crise no STF ficou polarizada ideologicamente, na base da torcida, com cada lado da disputa presidencial escolhendo ministros para chamar de seus.

Lula e Flávio foram percebendo que não seria preciso fazer muito esforço para aprofundar a campanha. Vai ganhar quem, no detalhe, errar menos, acertar um pouquinho mais ou, sei lá, der mais sorte. Eles têm consciência disso. É uma eleição abstrata e, essencialmente, identitária.

Em algum momento, o tema segurança pública surgiu com potencial de fazer o país pensar sobre a seriedade do cenário que se desenha a partir do avanço das facções e das milícias. Parou por aí.

Então, elegeu-se a questão fiscal como um desafio certo dos próximos anos, independentemente de quem vencer. Mas o assunto poderia ser árido demais, com o chamado “eleitor médio” tendo dificuldade em assimilar a gravidade dos números. Pronto, próximo ponto.

Corrupção, isto, sim, vai conseguir mexer com o eleitor, mobilizar, provocar indignação. Não? Não. Quase ninguém liga mais para isso. Argumenta-se que o outro é mais corrupto ou que é preciso derrotar o outro de qualquer jeito e está resolvido, assunto encerrado.

Teses e narrativas que já foram usadas para atacar os adversários agora se voltam contra quem as usou. Ou vice-versa. Foi assim na pré-campanha e na campanha. Uma inundação de contradições e incoerências clássicas nos candidatos e, por sua vez, nos eleitores de cada um deles.

“É coisa de maluco”, disse um deputado do Nordeste. “Você pode mostrar um vídeo com o candidato recebendo uma mala de dinheiro e é capaz de o ponteiro não mexer. Ou, pior, até favorecer aquela pessoa”, emendou. De novo: vale para os dois lados, ainda que a sua cabeça, eu sei, já direcione logo o raciocínio para um candidato.

Não se trata de estabelecer “falsa simetria”, como alguns eleitores costumam reagir, somente reforçando que existe, sim, uma defesa cega de um dos polos, na maioria das vezes.

Chegaremos a este domingo de votação sem que Lula e Flávio tenham participado de um único debate. Sem que sequer eles tenham estado no mesmo ambiente ao longo da campanha. Ou, não é pedir demais, conseguido explorar alguns tópicos dos seus desconhecidos programas de governo.

Reclame-se do vale-tudo nos tribunais superiores ou na disputa fratricida pelas emendas no Congresso, mas o PT e o PL fizeram o mesmo na campanha presidencial, cada um a seu modo.

Obviamente, há visões de mundo diferentes nas duas propostas que chegam como favoritas à reta final. São, porém, muitos os pontos em comum, a começar pelo comportamento do eleitor, que deixou de votar de maneira propositiva para depositar na urna ojeriza, raiva e ódio misturados a idolatria a “um mito” ou a “uma ideia”. Em todos os casos, repare, uma decisão no campo do comportamento, das emoções ou dos sentimentos. Até porque racionalizar o voto no Brasil tem doído um bocado.

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Bom voto. E boa sorte.

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