Não espere para tão cedo uma definição do Centrão. Essa é uma premissa com a qual as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro que lideram a corrida pela Presidência da República estão tentando lidar enquanto buscam ampliar apoios políticos em uma disputa presidencial que se desenha uma das apertadas dos últimos tempos. Até agora, a neutralidade de partidos como Republicanos, PP e União Brasil foi o máximo que o PT e o PL puderam obter, em um ambiente no qual os interesses eleitorais regionais das siglas do Centrão prevalecem, por ora, sobre os alinhamentos no plano nacional.

O caso de Ciro Nogueira, presidente do PP, é ilustrativo. Apesar de ter sido ministro do governo de Jair Bolsonaro e de, depois, ter articulado o desembarque da federação União Progressista (formada pelo PP e pelo União Brasil) do governo Lula, o senador submergiu da discussão nacional para tocar sua campanha à reeleição em um estado majoritariamente lulista, o Piauí. O movimento é explicado, essencialmente, pelo interesse dele de contar com os votos de eleitores do PT em sua tentativa de se reeleger senador. Passado o primeiro turno, porém, quando a composição do Congresso já estiver definida, o quadro deve mudar. A tendência do PP de Ciro e do União, comandado por Antônio Rueda, é declarar apoio a Flávio.

Também está em compasso de espera o presidente do PSD, Gilberto Kassab, que construiu uma capilaridade forte da legenda na última eleição municipal (foi o partido que mais elegeu prefeitos no país) e apostou na candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência. Hoje, embora Caiado aponte para o apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, Kassab tende a se colocar como neutro, deixando que os alinhamentos regionais prevaleçam. Mas isso também é algo que pode mudar a partir da próxima semana.

Para o cientista político Jorge Mizael, da Metapolítica, que estuda o comportamento de políticos do Centrão, o que está em curso é um conjunto de interesses regionais à espera dos resultados do primeiro turno, incluindo os que irão definir a composição do Congresso. “Esse é o DNA do Centrão: esperar até ser confirmada uma maioria em torno de uma campanha presidencial. O Centrão será o último player político a se posicionar. Tem sido assim desde 1988, e continuará assim nesta eleição”, diz. “Eventualmente, alguma liderança pode se aproximar [de um ou outro candidato ao Planalto, mas, formalmente, os partidos de centro vão esperar. Porque é assim que funciona para que eles possam ocupar espaço, negociar a posição de suas bancada com o governo que for eleito”, acrescentou o cientista político.

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A tática de esperar se reflete na própria postura dos atuais presidentes das duas casas do Congresso Nacional. Enquanto tenta a reeleição, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), está alinhado a Lula em razão da hegemonia do PT em seu estado, mas nada garante que essa postura se manterá no segundo turno, muito menos em um eventual quarto mandato do petista. Tudo vai depender dos resultados de domingo e de como ficará o desenho das forças que vão compor a Câmara. Da mesma forma, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que ainda tem mais quatro anos de mandato, se coloca neste momento ao lado de Lula em razão de interesses regionais seus e de aliados, mas a adesão automática a estratégias de Lula e do PT — inclusive durante a própria campanha presidencial no segundo turno — é incerta. Há dúvidas, por exemplo, se ele atenderá o pedido do Lula para pautar, nas semanas seguintes ao primeiro turno, propostas que a campanha petista trata como estratégias para tentar ganhar votos e definir a disputa, como a aprovação da redução da jornada de trabalho 6×1.

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