Uma sucessão de bizarrices marcou os dias e os momentos literalmente que antecederam o debate cancelado da TV Globo na noite desta quinta-feira, 1º.

Lula, líder nas pesquisas no primeiro turno, decidiu não participar de debate algum. Ao longo da campanha, optou por falar somente em ambiente seguro, com o mínimo de controle, sem absolutamente qualquer margem para o contraditório ou para o embate com outros candidatos. Sem pudor ou constrangimento, os próprios aliados do presidente apoiavam a decisão, dizendo que, se ele fosse a algum debate, seria “alvo” dos demais.

A Globo convidou Renan Santos para as sabatinas dos veículos do grupo, mas, na hora do debate na TV aberta, recorreu a uma regra específica e ignorou o candidato do Missão, que acionou a Justiça Eleitoral. Na manhã da data marcada para o debate, foram duas decisões, de Kassio Nunes Marques e Cármen Lúcia, negando o pedido de Renan e uma, de Gilmar Mendes, contrariando as anteriores e obrigando a emissora a abrir espaço no palco para o candidato.

Do TSE também saiu, momentos antes, a decisão da ministra Estela Aranha, indicada por Lula e ligada a Flávio Dino, de impedir a Globo de exibir o púlpito vazio do petista e ainda com a ordem de não deixar os candidatos presentes fazerem perguntas ao ausente. Essas regras são praxe em vários debates eleitorais, inclusive nos de candidatos aos governos estaduais realizados dois dias antes na mesma emissora. A decisão excêntrica de Estela simplesmente interferiu nas minúcias de um debate organizado por um veículo de comunicação.

Aí Flávio Bolsonaro decidiu, de supetão, não participar. Falou em “censura imposta pelo TSE”.

Sem Lula e sem Flávio, a Globo decidiu cancelar o debate, algo que não ocorria desde 2002. Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema já estavam na sede da emissora, no Rio de Janeiro. Renan Santos, que continuava tendo ligações e mensagens ignoradas por organizadores do debate, estava a caminho às pressas, após a decisão de Gilmar Mendes.

A Globo alegou “insegurança jurídica” para desistir do debate. A programação mudou quando o time de jornalistas da TV paga da emissora já fazia a cobertura prévia. Foi uma decisão unilateral, comunicada às demais campanhas sem qualquer tentativa de alinhar algum outro formato com os que estavam ali presentes.

Caiado acusou o Judiciário de “destruir o processo eleitoral do país”. Cury afirmou que a democracia está “à beira de um colapso”. Zema disse que houve uma tentativa de “beneficiar o Lula”. Já Renan aproveitou para alfinetar Flávio, falando em “medo de última hora” do candidato do PL, e fez um ato em frente à Globo. Longe da TV aberta, Lula dava uma entrevista ao podcast Flow, direto do Palácio da Alvorada, e Flávio abriu uma live imediatamente para falar ao seu público.

Os eleitores e a democracia, tão defendida por todos os atores envolvidos naquela noite, foram dormir mais cedo.

Infelizmente, o cancelamento do tradicional debate da TV Globo, a três dias do primeiro turno, apenas consagra o fim de uma campanha eleitoral deprimente.

Lula e também Flávio Bolsonaro não quiseram debater desde o primeiro momento da corrida presidencial. A polarização tóxica deixa os dois polos assim: à vontade para fazer o que quiserem, inclusive dar uma banana ao eleitor. Eles sabem que haverá, com absoluta certeza, uma parcela do eleitorado pronta para aplaudi-los e ajudá-los a justificar qualquer decisão sobre qualquer coisa.

O Judiciário, também desde a largada da corrida presidencial, não se mostrou disposto a colaborar para um ambiente propício a um processo democrático saudável. Faltou, para ficar apenas em um ponto, liderança firme e razoável no momento em que a credibilidade das cortes superiores nunca esteve tão em baixa.

Mas como poderia ser diferente? As instituições estão nocauteadas pela arrastada degradação que resultou no escândalo do Master. O STF, acuado, deixou de ser um colegiado para virar um ringue no qual disputas de poder ameaçam o que sobrou de supremo da corte. O vale-tudo chegou ao TSE.

Os principais candidatos, igualmente nas cordas, ignoraram os temas que deveriam reger a campanha para jogar o jogo do momento. E o Congresso que está aí não tem muito tempo para pensar nessas coisas, pois anda torrando a grana das emendas país afora.

Os brasileiros engajados ideologicamente só gastam energia para defender seu candidato e, principalmente, destilar ódio contra o outro. Não há espaço para uma análise mais do alto, de onde é possível ver o abismo para o qual caminhamos juntos. Enquanto isso, um bom pedaço da população assiste a tudo com perplexidade.

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Deixou de ser exagero definir a situação política, jurídica e institucional como aterrorizante.

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