A escolha por Flávio Bolsonaro como o nome do bolsonarismo na disputa presidencial de 2026 também foi uma forma de tentar criar um duelo de idades.
Flávio tem 45 anos. Lula, 80.
A campanha do PL, desde o início, acreditava que, durante a campanha, com Lula se expondo mais em público, haveria um desgaste do petista.
De certa forma, essa previsão se confirmou, sem que, necessariamente, isso resulte na eleição de Flávio. As pesquisas indicam um embate acirrado entre os dois.
Ainda que se esforce para se mostrar ativo, com corridinhas e atividades físicas, Lula não consegue escapar da voz cada vez mais rouca, por exemplo.
Nesta reta final, as campanhas costumam partir para o vale-tudo. Mas a campanha de Flávio não demonstra, até aqui, ser inconsequente a ponto de transformar em estratégia escancarada a exploração do tempo de vida de Lula. O etarismo poderia ter efeito contrário.
Nos bastidores, Lula é chamado de “velho”, “gagá” e “senil” por aliados de Flávio. Publicamente, eles preferem se ater a críticas ao conteúdo das falas do presidente, com a intenção de deixar para os eleitores a avaliação.
Dez dias atrás, durante discurso num ato de campanha em Guarulhos (SP), Lula confundiu Janja, a primeira-dama, com Marisa Letícia, a segunda esposa do petista, morta em 2017. Janja estava no trio. Ela e todo mundo percebeu a confusão e fingiu que nada aconteceu.
Um petista comentou com a coluna que não há nada demais em se atrapalhar com nomes de cônjuges.
“Nada a ver com problema cognitivo. Eu também confundo os nomes das minhas ex quando estou nervoso ou ansioso”, disse, pedindo reserva.
É praticamente proibido entre aliados levantar qualquer suspeita sobre a capacidade física e mental de Lula, sempre incensado como alguém de “muita energia” e “cabeça boa”.
O assunto é sensível.
Na noite de segunda-feira, 28, a seis dias do primeiro turno, Lula, em ato de campanha em Belém, de improviso, como de praxe, disparou:
“O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas.”
A declaração reverberou mais do que, por exemplo, o anúncio feito pelo presidente, duas semanas antes, de que vai distribuir canetas emagrecedoras gratuitamente no SUS.
Bolsonaristas foram para cima. Chegaram a chamar Lula de “pedófilo”. O assunto foi um dos mais comentados do dia seguinte nas redes sociais, com embates baixos e degradantes.
Petistas reagiram afirmando que a frase havia sido tirada de contexto para fins eleitorais na reta final da campanha. E resgataram uma fala de Jair Bolsonaro, de 2022, em entrevista a um podcast, quando o então presidente relatou que, durante um passeio de moto em uma comunidade de Brasília, avistou meninas venezuelanas de 14 a 15 anos se arrumando e disse que “pintou um clima”.
Em reservado, um ex-ministro ainda com acesso a Lula disse que “o machismo cultural dele vem à tona quando o superego está de folga”.
Outro petista ouvido pela coluna, que também atuou na equipe direta de Lula em governos passados, disse que o presidente “não tem nada de gagá”, e que tratá-lo por esse viés, além do tom pejorativo, seria “vitimizá-lo”, privando-o de responsabilidades e evitando qualquer autocrítica.
“Um cara que não tem celular, que está há quase 10 anos sem buscar informações por conta própria, não pode evoluir em opiniões e conceitos. A visão de mundo do Lula está desatualizada e distorcida. Ele é alienado pelos mais próximos”, comentou.
Para completar o tripé de polêmicas públicas nos últimos dias, Lula, ainda em Belém, resolveu ligar, na frente de todo mundo, para Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal. Novo ruído na campanha.
O presidente participava da cerimônia de sanção de um projeto apresentado por Dino em 2024, quando ele era senador pelo Maranhão. Depois, só para lembrar a recente cronologia, Dino foi alçado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e, em seguida, indicado ao STF.
Dino foi um dos protagonistas da sessão histórica deste mês, na defesa de Alexandre de Moraes. A campanha de Flávio Bolsonaro conseguiu colar Dino e Moraes em Lula. E, a partir de um telefonema pública sem qualquer sentido a cinco dias da eleição, Lula reforçou.
“Será que é por isso que não quer ir ao debate da Globo? Síndrome de Biden?”, provocou um ex-parlamentar de centro, que continua circulando no poder em Brasília e também foi consultado pelo PlatôBR sobre a temática.
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