A discussão sobre a medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva que proibiu as bets no país opôs várias áreas do governo e da campanha do presidente à reeleição. Cada aspecto da decisão foi discutido intensamente desde o momento em que o petista decidiu que daria esse passo. Entre os problemas a equacionar havia questões ligadas à arrecadação e também questões jurídicas, uma vez que, um ano antes, casas de apostas desembolsaram R$ 30 milhões cada uma para se regularizarem. Havia, ainda, o temor da reação nos esportes, especialmente entre os grandes clubes de futebol, e de parte do setor cultural — ambos contam com generosos patrocínios das bets. Na prática, o governo estava diante do desafio de desfazer decisões que ele mesmo adotou e, por isso, estava evidente que a MP geraria um clima de insegurança jurídica e econômica.
Lula se convenceu de que a decisão era realmente necessária — além de ser um importante movimento no jogo eleitoral — após se reunir no dia 13 de setembro com um grupo de “vítimas das bets”, no Palácio do Alvorada. Quinze dias antes, o ele já tratado do assunto em uma reunião no Planalto com artistas e religiosos. Segundo auxiliares, ele ficou sensibilizado com relatos que envolviam, inclusive, tentativas de suicídio devido às dívidas contraídas por causa das apostas. Uma vez decidido pelo petista que o governo bancaria a restrição, apesar dos riscos envolvidos, as tratativas para colocar a medida provisória no papel passaram a ser coordenadas pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior.
Se, de um lado, uma ala do PT temia a repercussão negativa na campanha e apontava para a apresentação de um projeto de lei mais brando, mirando apenas a publicidade das bets, de outro o ministro Sidônio Palmeira (Secom) se opôs à ideia e aconselhou o presidente a adotar uma restrição mais ampla, que tivesse um impacto forte para a imagem do presidente — e, claro, para a campanha eleitoral. Lula, então, decidiu seguir pelo caminho de Sidônio e sua equipe começou a preparar de imediato a narrativa.
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Para embasar a MP editada ainda na última sexta-feira, o Planalto procurou tratar a medida também como uma questão de saúde pública, enfatizando os reflexos da “ludopatia” (transtorno do jogo) na taxa de suicídios no país. Esse argumento deverá ser usado, inclusive, pela articulação do governo no Congresso para tentar aprovar a medida provisória. Dentro do próprio governo e do PT, ainda há dúvidas se a proibição das bets terá o efeito eleitoral que Lula espera.
