Que caso Master, crise no STF e rombo fiscal que nada!
A praticamente uma semana do primeiro turno, Nossa Senhora Aparecida se tornou o tema central da campanha presidencial.
O Brasil adora um diversionismo eleitoral.
De repente, as redes sociais estavam inundadas de mensagens em tom de alerta e acusação: Flávio Bolsonaro estaria, junto com a poderosa bancada evangélica do Congresso, disposto a “chutar a santa”, se eleito em outubro.
As informações, sem fonte clara, dão conta de que haveria uma articulação para acabar com o título de “padroeira do Brasil” atribuído à santa de Aparecida.
Coincidentemente ou não, as postagens em série de aliados de Lula surgiram quase ao mesmo tempo que a divulgação de vídeos de bispos católicos pedindo aos fiéis “voto consciente”. Aqui, vale dizer que a CNBB, até a publicação desta reportagem, não tinha se pronunciado sobre a informação de que a entidade atuou nesses vídeos.
Todos os representantes da frente parlamentar evangélica consultados por esta coluna, incluindo não bolsonaristas, negaram com veemência a informação e dizem haver claramente uma estratégia eleitoral por trás do tema.
A Globonews, que havia entrado na discussão e dito que havia uma mobilização em curso para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título que detém, se corrigiu. “Nós pedimos desculpas pelo erro”, afirmou, no ar, a apresentadora de um dos telejornais do canal.
O que há de concreto (ou não concreto, na verdade): em 2007, o então deputado federal Victorio Galli, na época do MDB de Mato Grosso, apresentou, de fato, um projeto com esse teor, contra a santa. A proposta virou alvo de chacota. Não fazia qualquer sentido e continua não fazendo. O texto foi arquivado na Câmara no ano seguinte, 18 anos atrás. Não existia bolsonarismo como campo político. Lula era o presidente. Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro.
Agora, com o país dividido e polarizado politicamente, com um viés também religioso maioria católica com Lula e maioria evangélica apoiando Flávio , resgatou-se essa história, ainda considerada esdrúxula, inclusive pelas mais radicais lideranças evangélicas no Congresso. Não se sabe quem resgatou nem como. Mas se sabe o objetivo, devidamente atingido, convenhamos: chegar à reta final da eleição com um novo assunto e com potencial de desgastar Flávio Bolsonaro.
Janja, a primeira-dama, tratou de postar logo uma foto com Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao fundo, a versão da música “Nossa Senhora”, composta por Erasmo e Roberto Carlos, na voz de Fafá de Belém, eleitora de Lula. Simone Tebet, ex-ministra de Lula e candidata ao Senado por São Paulo, também entrou na trend, ao publicar uma foto no Santuário de Aparecida, no interior paulista, o maior templo católico do país. “Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil”, escreveu ela.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, candidato a vice novamente, foi orientado a gravar um vídeo sobre o assunto. A ordem era claramente viralizar o suposto alerta. Deu certo. “Enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para nossas famílias, estarão protegidas e preservadas”, disse Alckmin, com fortes ligações com a Opus Dei, uma prelazia da Igreja Católica.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP), por óbvio, não ficou de fora. Jogou gasolina na fogueira ao replicar uma informação do jornal Folha de S.Paulo de que o autor do projeto lá de 2007, que hoje não é parlamentar, atuou na Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro. Bingo! A imaginação da internet foi ainda mais longe. E aquilo mobilizou ainda mais a militância de esquerda.
A campanha de Flávio Bolsonaro sentiu o baque. O candidato do PL à Presidência da República gravou um vídeo quando o termo “Nossa Senhora Aparecida” ainda nem era o assunto mais comentado nas redes sociais do Brasil, para negar o que não havia de palpável para ser negado: que ele não vai fazer o que estão dizendo que ele fará.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, evangélico ligado a Silas Malafaia, foi mais duro em um áudio enviado a esta coluna do PlatôBR:
“Quem não respeita as religiões são a esquerda, o PT e o Lula. Flávio Bolsonaro, que é evangélico, defende o Estado laico, que protege todas as religiões e respeita aqueles que não têm religião alguma. Flávio jamais vai atacar a religião de ninguém. Essa prática nefasta sempre foi da esquerda. Eles são ateístas e comunistas.”
Toda essa história envolvendo Nossa Senhora Aparecida tem chance de ser o “kit gay” destas eleições. Explico: em 2018, aliados de Jair Bolsonaro exploraram essa expressão para colocar medo nos eleitores de Fernando Haddad, que havia sido ministro da Educação de Lula e era o candidato do PT à Presidência da República. Naquele pleito, o que viralizou era a possibilidade de, caso Haddad ganhasse, o tal “kit gay”, jamais comprovado, ser espalhado em escolas públicas. Era mentira embora a partir de algo antigo e concreto. O termo se referia ao projeto chamado Escola sem Homofobia, um material para orientar professores no combate à violência contra a população LGBTQIA+.
Com dificuldades de ampliar o eleitorado evangélico, onde o bolsonarismo conseguiu se enraizar, inclusive por meio do proselitismo nos púlpitos das igrejas, Lula vai precisar dos votos dos católicos numa eleição que, de novo, tende a ser bastante apertada e decidida no detalhe.
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Não pode passar despercebido que, dias atrás, o presidente, em cerimônia com lideranças evangélicas no Palácio do Planalto, fez críticas à Igreja Católica. E, agora, parece pedir perdão no confessionário, buscando contar com a intercessão da mãe de Jesus e, de quebra, uma indulgência plenária.
