O jogo está sendo jogado no Supremo e em todo o círculo do poder em Brasília.

Edson Fachin é tido como um gentleman, até por seus críticos. É por isso que há, internamente, quem agradeça aos céus por ser ele o presidente da Corte numa crise sem precedentes entre os ministros.

Fachin não é considerado um líder nato, longe disso. Mas é justamente esse jeito meio blasé que o torna um potencial apaziguador para o momento, seja lá o que estiver por vir. Com dificuldade de assumir lado, ele não deverá agir por impulso e dará o tempo que conseguir para que as peças se movam e se ajustem no tabuleiro da busca pela sobrevivência. Não se espera muito mais do que isso de Fachin.

André Mendonça, com pouco menos de cinco anos no Supremo, não se adequou, desde o início, à turma do decano Gilmar Mendes. Fez questão de manter distância e tem com a maioria dos pares uma relação estritamente profissional, quando muito. Mendonça sabe que, nos bastidores, é tachado de “ingênuo e messiânico”. E não liga. Faz o que julga ser o certo e se prepara como pode para os contra-ataques.

É fato que não existem duas alas de igual tamanho e força no STF. Mendonça rema praticamente sozinho, com o apoio tímido de alguns outros. A proximidade de pensamento, em casos específicos, com Cármen Lúcia, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques não faz desse quarteto algo coeso e sólido, como aparentemente é o grupo do outro lado.

Cármen costuma titubear e não transparece muita segurança quanto aos caminhos que pode trilhar. Sobre Fux, diz-se, pejorativamente, que ele não se preocupa para além do próprio gabinete, embora seja firme para fora quando considera necessário. Nunes Marques, embora indicado por Jair Bolsonaro, assim como Mendonça, não esconde até hoje que sua preferência para a vaga era Augusto Aras, então procurador-geral da República. São, portanto, amigos, pero no mucho.

Já Alexandre de Moraes, foco da crise em curso, conta com fiéis escudeiros. Gilmar, Dias Toffoli, Flávio Dino e Cristiano Zanin estão prontos para sair em defesa pública de Moraes, custe o que custar. Em eventual sessão pública para debater os rumos do Supremo diante do levantamento do sigilo das mensagens trocadas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, fala-se, no cafezinho do STF, que Dino, com a bênção do decano, poderia tomar a frente nesse papel de, se preciso, partir para cima de Mendonça.

Talvez a gravidade do teor das mensagens, acompanhada da pressão de parte do Congresso em ano de eleição e, sobretudo, dos ânimos populares, possa convencer os atuais 10 ministros a avançarem, ao menos, com a admissão da necessidade de ajustes, caso não queiram chamar as mudanças que se impõem de reforma ou código de conduta.

Algo precisará ser feito pelo bem da democracia que dizem defender e pela sobrevida da própria República. Mas, pelo menos até aqui, não há qualquer sinal de que Moraes, por exemplo, será rifado. Diante desse cenário, Mendonça encontrará ventanias pela frente. Moraes e sua turma provavelmente vão querer tirá-lo da relatoria do caso Master, que já esteve nas mãos de Dias Toffoli, o primeiro a ser salvo pelos pares pela relação com Vorcaro.

A decisão de Mendonça de tornar públicas as mensagens entre Moraes e o banqueiro, salvo o surgimento de fatos novos, pode ter acelerado, provavelmente, o maior acordão da história da República. A declaração de Davi Alcolumbre em defesa de Moraes nesta quarta-feira, 2, a ameaça de Vorcaro de delatar pessoas do governo Lula e o flanco totalmente aberto de Flávio Bolsonaro em relação ao financiamento do filme Dark Horse mostram que a autoproteção não se restringe ao Supremo.

É algo realmente sem precedentes.

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Lideranças políticas e o meio jurídico acompanham, apreensivos, as informações que chegam e especulam sobre os possíveis desdobramentos da crise moral e institucional em andamento. O pior dos cenários seria o agravamento da guerra entre Mendonça e a corrente de Moraes, com chumbo trocado para “ver no que vai dar” e consequências não somente eleitorais imprevisíveis.

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