O anúncio do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, de que irá acabar com as eleições em seu país fez a oposição no Brasil cobrar publicamente uma posição de Lula. O motivo, claro, é o fato de Ortega ser um político de esquerda, assim como o petista. Lula, porém, quer evitar o assunto – inclusive para que ele não tenha relevância no processo eleitoral brasileiro.
Um episódio de poucos anos atrás serve de referência. Em 2021, o petista se desgastou por ter comparado a ditadura da América Central aos 16 anos da então chanceler alemã, Angela Merkel, no poder. “Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que que a Angela Merkel pode ficar dezesseis anos no poder e Daniel Ortega não?”, disse Lula à época ao falar do ditador nicaraguense em entrevista ao jornal espanhol El País.
Agora, na preparação para disputar um quarto mandato, a orientação da campanha do presidente é manter distância de assuntos relacionados a Ortega. Pela vontade dos petistas, o tema deve ser tratado de forma marginal – a ideia, ao tratar de política externa, é focar na defesa da soberania do Brasil.
Caso não haja saída, e em algum momento se veja obrigado a responder sobre Nicarágua, Lula tem as linhas gerais da resposta preparada, baseada em pelo menos três pontos. Dirá, por exemplo, que as relações diplomáticas entre o Brasil e o país da América Central já são distantes desde 2024, quando o embaixador brasileiro em Manágua, Breno de Souza da Costa, foi expulso pelo governo Ortega por não ter comparecido ao ato de aniversário da Revolução Sandinista, que deu fim à ditadura de Anastasio Somoza, em 1979. Em resposta, o Brasil usou do princípio da reciprocidade e também devolveu o embaixador nicaraguense que atuava no país.
Outro argumento já maquinado para ser usado por Lula é o de que o Brasil não se prestará a uma “crítica seletiva” às democracias no mundo. Nesse ponto, há uma referência indireta ao comportamento dos Estados Unidos, depois que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi às redes para condenar a atitude de Ortega mas não se manifestou em relação ao governo linha-dura do presidente direitista Nayib Bukele, de El Salvador.
O terceiro ponto será focado na defesa da democracia interna e, nessa linha, o petista criticará seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro, que levantou suspeitas sobre o sistema de votação eletrônica no Brasil na semana passada.
Setores do PT também ponderam que a solidariedade à Revolução Sandinista, na época apoiada por toda a esquerda brasileira, é coisa do passado. “Daniel Ortega é hoje uma mera sombra do que já foi. Transformou a Frente Sandinista em um clube de amigos e parentes, postou na rede social X o presidente da Fundação Perseu Abramo, Alberto Cantalice. Ao extinguir as eleições no país dá mais um passo rumo à ditadura. Seu futuro é o limbo da história”, escreveu Cantalice.
Notas oficiais
A resposta oficial do governo brasileiro ao anúncio de Ortega sobre o fim das eleições foi, ao menos até o momento, institucional. Em nota divulgada na quinta-feira, 23, o Itamaraty afirmou que o governo recebeu “com preocupação” a declaração do ditador da Nicarágua. Tímido, o comunicado dizia que a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso”.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A manifestação brasileira foi respondida no mesmo dia pela mulher de Ortega, Rosario Murillo. Nomeada “co-presidente” do país, ela disse que o regime trabalha para realizar “eleições próprias”, sem que sejam “desenhados, dirigidos, ou orientados” pelos Estados Unidos.
