O Brasil entra no segundo semestre diante de um risco climático fora do comum. Os modelos do NOAA (agência climática americana) apontam probabilidade de quase 98% de consolidação do El Niño nos próximos meses, com chance real de o fenômeno atingir o nível de Super El Niño na virada do ano uma combinação de timing e intensidade que não tem registro desde 1950. O impacto direto pode ser sentido nas lavouras, nos preços pagos pelo consumidor e na estratégia de plantio dos produtores rurais, segundo a economista Priscila Trigo, do Bradesco. Na prática, o fenômeno climático traz ainda mais pressão para o Banco Central com riscos inflacionários e para o ciclo de redução de juros.
As incertezas são maiores em relação ao Centro-Oeste. Segundo a economista, em eventos de forte intensidade, a região, que concentra a produção de soja e milho, tende a registrar irregularidade nas chuvas e atrasos no período de precipitação. Isso afeta diretamente as segundas e terceiras safras, como as de milho e feijão, e pode reduzir a área plantada de milho safrinha. O Norte e o Nordeste, afirmou Priscila Trigo, devem sofrer com chuvas abaixo do normal. Já o Sul do país e a Argentina tendem a se beneficiar de maior precipitação mas esse ganho pode não ser suficiente para compensar as perdas, especialmente se o fenômeno atingir a magnitude máxima projetada.
Além dos grãos, café e açúcar também estão no radar. No caso do café, a economista disse que o risco recai sobre a floração brasileira de setembro e outubro: se as temperaturas subirem e as chuvas falharem nesse período, a oferta da próxima safra já começa a ser comprometida. Vietnã e Indonésia, grandes produtores de café robusta, também devem sofrer com o clima mais seco o último Super El Niño registrou quebras significativas nesses países. Para o açúcar, Índia e Tailândia tendem a reduzir a produção de cana com a seca durante as monções, o que retira oferta do mercado global e pressiona as cotações internacionais.
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O resultado provável é um ambiente de preços mais altos e mais voláteis para as principais commodities agrícolas. Priscila projeta altas limitadas para a soja, mas elevações mais expressivas para milho e trigo, cujos balanços globais já estão apertados. Para o consumidor brasileiro, o risco é de ver esse movimento chegar às prateleiras especialmente se as perdas no Centro-Oeste não forem compensadas pelos ganhos no Sul e na Argentina. Enquanto o fenômeno não se define por completo, o setor terá de conviver com a incerteza crescente ao longo dos próximos meses.
