Não se deve esperar de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) uma defesa ideológica em qualquer sentido, seja para a direita ou para a esquerda, conservadora ou progressista, liberal ou intervencionista. O material político do presidente do Senado e do Congresso é outro, ancorado mais no cotidiano tapinha nas costas, na cordialidade do trato, nos ouvidos e olhos abertos, na ocupação de espaços, nas nomeações para cargos públicos, no controle de verbas e na costura de acordos, transparentes ou não.
Alcolumbre deu uma inequívoca demonstração de poder na semana passada ao aplicar uma dupla derrota sobre o presidente Lula, com a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no STF, e com a derrubada do veto da dosimetria das penas dos condenados pela tentativa de golpe de Estado. Esse episódio foi até agora o ápice de sua carreira, marcada por uma rápida ascensão na hierarquia do Congresso.
Em fevereiro de 2019, Alcolumbre surpreendeu o mundo político pela primeira vez ao se eleger presidente do Senado contra o veterano Renan Calheiros (MDB-AL), que tentava conquistar o cargo pela quinta vez. Senador de primeiro mandato, ele tinha 42 anos e era filiado ao DEM. Para vencer a disputa, Alcolumbre contou com o apoio do então presidente Jair Bolsonaro, que havia assumido o Planalto um mês antes.
A vitória no plenário representou o fim da hegemonia mantida pelo MDB no comando do Senado desde o início da nova República. Depois do fim da ditadura, antes de Alcolumbre, o único senador de outro partido que se elegeu para o cargo foi Antônio Carlos Magalhães, no final da década de 1990, que era filiado ao PFL (Partido da Frente Liberal), antigo nome do DEM.
Domínio do Centrão
A chegada de Alcolumbre marcou o início de um período de domínio do Centrão no Senado e de aumento dos poderes do Congresso, principalmente em relação às emendas parlamentares. Com dificuldade para formar uma base de apoio ao seu governo, Bolsonaro cedeu o controle sobre o orçamento. O domínio do Congresso sobre as verbas aumentou com a eleição, em fevereiro de 2021, do deputado Arthur Lira (PP-AL), para presidir a Câmara.
A dobradinha Alcolumbre-Lira passou a dar as cartas no parlamento. Sob o comando dos dois, nasceu o orçamento secreto, modelo de aplicação de recursos que escondia os autores e a destinação das emendas. Depois de dois mandatos na presidência do Senado, Alcolumbre demonstrou força mais uma vez ao eleger o senador Rodrigo Pacheco (MG), na época no PSD, para sua sucessão, em 2021. Em fevereiro de 2025, retornou ao posto com amplo apoio do plenário e, também, do presidente Lula.
Desde o início do governo do petista, os dois mantiveram boa relação. Alcolumbre influenciou na nomeação de três ministros e de diretores de agências. Quando retornou à presidência do Senado, ele contribuiu para aprovação de propostas importantes para o governo Lula na área econômica, como a reforma tributária.
Relação deteriorada
A relação entre os dois se deteriorou depois do anúncio pelo presidente da República, em novembro do ano passado, do nome de Messias para o Senado. Alcolumbre queria Pacheco para a vaga no Supremo e não aceitou a escolha de Lula. As pressões pela presença de um aliado no STF coincidiram com o período de investigações no STF sobre desvios de verbas do orçamento secreto e com as revelações de envolvimento de parlamentares do Centrão com o escândalo do banco Master.
Lula não cedeu a Alcolumbre com o argumento de que a prerrogativa da indicação de ministros do Supremo é do presidente da República. Alcolumbre não aceitou a negativa e dissimulou o trabalho contra Messias com a promessa de que não iria interferir na votação do nome de Messias. Na prática, não só interferiu como liderou uma decisão histórica: foi a primeira vez que um nome para STF foi recusado desde o final do século XIX.
Ex-aliado de Sarney
Nascido em Macapá em 19 de junho de 1977, Alcolumbre cursou economia no Centro de Ensino Superior do Amapá (Ceap), mas não chegou a se formar. Sua profissão é comerciante. Ele pertence a uma família judia que migrou do Marrocos para o atual estado do Amapá no final do século XIX e construiu vasto patrimônio, principalmente no ramo do comércio, mas também em outras áreas, como a mineração.
A família era aliada, no estado, do ex-presidente José Sarney (MDB). Davi Alcolumbre construiu sua carreira política à sombra do ex-presidente. Antes de romperem, viveram uma fase de harmonia e Sarney usava sua influência para nomear parentes de Alcolumbre para cargos públicos no Amapá.
O atual presidente do Senado entrou para a política em 2000, ao se candidatar a vereador de Macapá, na época, pelo PDT. Em 2006, foi eleito deputado federal em 2006, com duas reeleições.
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A rivalidade com Sarney começou em 2014, quando Alcolumbre se lançou candidato ao Senado. Ao pressentir que não o venceria, o ex-presidente da República desistiu da disputa e apoiou o aliado Gilvam Borges, que perdeu para Alcolumbre. Ao chegar ao Senado, sua característica mais extrovertida, brincalhona e engraçada conquistou muitos aliados. Assim se tornou o homem-forte do Congresso, que exerce o poder com mão forte sobre a pauta e o orçamento.
