A guerra no Oriente Médio freou os planos do Copom (Comitê de Política Monetária) de reduzir os juros em 0,5 ponto percentual. Diante da incerteza global, o Banco Central optou por uma queda de 0,25 ponto percentual. Entretanto, caso o conflito termine antes da próxima reunião do colegiado, em 29 de abril, há espaço para que a redução da Selic seja ainda maior, de 0,75 ponto percentual. A avaliação é do economista-chefe da gestora G5 Partners, Luis Otavio Leal.
Em entrevista ao PlatôBR, Leal afirma que os principais riscos que podem interromper o ciclo de corte de juros são o prolongamento da guerra, uma volatilidade maior no Brasil em decorrência das eleições presidenciais e uma possível crise política em decorrência do escândalo do banco Master. Além disso, outra fonte de preocupação está nos Estados Unidos, com as eleições de meio de mandato que podem enfraquecer politicamente o presidente Donald Trump e afetar a economia global.
O Banco Central foi cauteloso na decisão de cortar os juros em 0,25 ponto percentual?
A sensação, ao ler o comunicado, é de que o plano inicial [do BC] era cortar [os juros em] 0,5 ponto percentual. E não cortou por causa do aumento da incerteza e da guerra Oriente Médio. O BC usou a palavra “incerteza” e “Oriente Médio” em quatro parágrafos dos oito do comunicado. Me parece que o BC vê essa crise do petróleo como um choque de oferta temporário.
Há espaço para aumentar o tamanho do corte de cortes para 0,5 ponto percentual?
O BC cortou os juros porque houve uma desaceleracão da economia diante do aperto monetário que abriu espaço para o Copom calibrar o patamar da Selic. Eu tenho usado o termo normalização da política monetária. Quando o BC colocou os juros em 15% houve redução da inflação corrente e das expectativas, o que produz, na verdade, um aperto monetário diante do aumento da taxa real de juros. Mesmo com a incerteza, o BC sinalizou que começou um ciclo de corte de juros. E eu achei que o BC deixou a porta aberta para acelerar o ritmo de queda da Selic.
O corte pode ser superior a 0,5 ponto percentual?
No comunicado, o BC julgou apropriado dar início ao ciclo [de corte de juros]. O Copom não disse que vai ver se dá para continuar [a reduzir a Selic].Tudo isso me leva a crer que a questão da guerra fez o Copom a começar com [um corte de] 0,25 ponto percentual, mas era para começar com [uma redução de] 0,5. Se até a reunião o de 29 de abril tiver uma normalização [do preço do petróleo], há chance de o Copom compensar com uma queda de 0,75 ponto percentual. Tudo vai depender do que acontecer no Oriente Médio.
Há espaço para essa aceleração do corte de juros?
O torniquete usado para conter a sangria foi muito forte e você tem que ir soltando para o sangue voltar a circular. E quanto mais forte for o torniquete, mais rápido tem que afrouxar. O grande perigo no Brasil de juros altos não era resolver o problema. Esse juro alto está fazendo empresas quebrarem. Temos o risco de criar um problema pelo lado da oferta, com a quebra das empresas, o que aumenta o desemprego. Esse tipo de ajuste é muito deletério para a economia. Eu acho que uma das coisas que o BC falou a respeito da desaceleração da economia é que começa a ver o impacto desse arrocho no crédito impactando fortemente as empresas e isso gera um potencial de desaceleração muito grande. Há espaço para uma queda grande de juros.
Qual o tamanho dessa queda de juros?
Com uma inflação entre 3,5% e 4% ao ano em um governo do PT, a taxa de juros real neutra seria de 6%. Essa é a taxa que não acelera e nem desacelera a economia. Na prática o juro nominal poderia diminuir para um percentual entre 9,5% e 10%. Há espaço para essa queda, mas o ritmo, se isso será linear ou com soluços, dependerá das conjunturas internas e externas.
A eleição pode trazer mais volatilidade para o país e frear a queda de juros?
Essa é a pergunta que vale R$ 1 milhão. Basicamente, a resposta é eu não sei. O termômetro desse processo será o câmbio. Se chegarmos no segundo semestre do ano e o câmbio continuar nesse patamar, entre R$ 5,15 e R$ 5,30, há espaço para o BC continuar a queda de juros em ritmo forte. Se a gente tiver um certo nervosismo, que é o normal no Brasil principalmente em um cenário que o PT pode continuar no governo, a gente tem um espaço menor para o ciclo de queda da Selic.
Existem riscos externos para a queda de juros?
Uma outra coisa que me preocupa, além da eleição no Brasil, tem relação com as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Se o Trump perde nas duas casas ele é um pato manco e passa os últimos dois anos do mandato sem força política. No caso do Trump é mais relevante porque se ele perder as duas casas, ele passará os próximos dois anos brigando contra o impeachment. E isso trará volatilidade para o país.
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A crise do Master traz riscos para o Brasil?
No caso Master, a gente não sabe onde vai acabar esse negócio, que pode virar de cabeça para baixo a política no Brasil. Esse caso Master é mais uma fonte de incerteza. Isso, em princípio não impacta a política monetária, mas pode trazer volatilidade para a eleição.
