Em Turilândia, no Maranhão, a corrupção foi tanta que o município perdeu o comando – e por completo. Por decisão do Tribunal de Justiça, o governador Carlos Brandão (sem partido) deve anunciar nesta segunda-feira, 2, o nome de um interventor para governar a cidade pelos próximos seis meses. Por envolver toda a cúpula municipal, desde o prefeito até os vereadores, o caso maranhense é ilustrativo e ganha um capítulo especial entre os escândalos que envolvem desvios de recursos públicos no Brasil.
Com cerca de 32 mil habitantes, Turilândia fica a cerca de 150 quilômetros de São Luís. O TJ decretou a intervenção no município no dia 23 de janeiro, a partir de investigações do Ministério Público que apontaram a existência de um esquema de corrupção que teria desviado R$ 56,3 milhões dos cofres da cidade desde 2021. O que começou como uma apuração sobre contratos levou à descoberta de indícios de irregularidades praticadas por quase toda a elite política local.
Em decorrência das descobertas em série, o tribunal afastou o prefeito, Paulo Curió (na foto em destaque), e a vice-prefeita, Tânya Karla. As denúncias também atingem a primeira-dama, Eva Dantas, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima, vereadores, parentes e aliados.
Filiado ao União Brasil, Curió está no centro da história. Empresário em segundo mandato à frente da prefeitura, ele é acusado pelo Ministério Público de comandar o esquema, em parceria com aliados e outros familiares: além da mulher, também aparecem na investigação o pai, irmãos, tio e cunhados do prefeito. Era esse círculo de confiança, segundo a acusação, garantia o controle das decisões que levavam aos desvios e, na sequência, o destino do dinheiro.
A investigação se tornou pública com a Operação Tântalo II, deflagrada em dezembro de 2025, quando o Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado) do MP maranhense cumpriu mandados de prisão e busca e apreensão. O prefeito foi preso preventivamente. A vice-prefeita e a primeira-dama também chegaram a ser detidas, mas depois passaram à prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. A cúpula política da cidade foi afastada dos cargos e passou a responder por crimes como organização criminosa, peculato, fraude em licitações, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia, o mecanismo se repetia contrato após contrato. Licitações eram simuladas, vencidas por empresas que, na prática, serviam para emitir notas fiscais de serviços que não eram prestados ou eram executados apenas parcialmente. O dinheiro saía dos cofres da prefeitura, mas não ficava com as empresas. De acordo com o Ministério Público, os donos das empresas contratadas retinham entre 10% e 18% dos valores apenas pela emissão das notas. O restante voltava para o grupo político ligado ao prefeito.
Os contratos suspeitos de irregularidades foram firmados a partir de 2021. Parte dos recursos desviados, segundo a acusação, foi usada para despesas pessoais do prefeito e de familiares, entre elas o pagamento da faculdade de medicina da primeira-dama, além da compra de imóveis apontados como forma de lavagem de dinheiro. Os promotores sustentam que Eva Dantas, mesmo sem ocupar cargo público, tinha controle direto sobre as contas do município e realizava as movimentações financeiras.
Na denúncia apresentada ao TJ, o Ministério Público pediu a condenação criminal dos acusados, a perda de bens, direitos e valores obtidos com os desvios e o ressarcimento integral do dano.
Todos os vereadores com tornozeleira
Com o afastamento do prefeito e da vice, o comando da cidade passou, de forma interina, ao presidente da Câmara Municipal, José Luís Araújo Diniz (União Brasil), conhecido como Pelego. Ele também é investigado e cumpre prisão domiciliar, assim como os outros dez vereadores.
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Por decisão judicial, embora os onze vereadores sigam formalmente no cargo, estão impedidos de circular livremente e são monitorados por tornozeleira eletrônica. Desde a ordem do tribunal, a cidade passou a viver uma situação inusitada, com o prefeito afastado e uma Câmara de Vereadores inteira funcionando sob restrições impostas pela Justiça. O anúncio do nome escolhido para ser o interventor em Turilândia deve ser feito pelo governador do Maranhão na sessão de abertura das atividades da Assembleia Legislativa.
