O governo ainda está analisando o convite feito por Donald Trump para que o Brasil integre o Conselho de Paz, mas as primeiras conclusões tiradas do documento enviado pela Casa Branca indicam que a proposta vai na contramão da postura adotada historicamente pela diplomacia brasileira e das crenças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à atuação de organismos multilaterais, especialmente a ONU (Organização das Nações Unidas).

A concentração de poder nas mãos de Trump é uma das principais críticas. Pelo texto enviado pelo governo americano, os países que aderirem ao conselho não podem sequer propor mudanças no seu funcionamento. “É como comprar um pacote fechado”, disse, sob reservado, um integrante da diplomacia a par das discussões sobre o assunto.

Não há um prazo estipulado para uma resposta. Lula ainda não respondeu o convite do presidente americano para integrar o Conselho da Paz, mas já deu vários sinais de que não topará participar. Nesta semana, o governo considerou que a “forma improvisada” que Trump imprimiu ao lançamento do conselho durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, passou uma impressão de “fragilidade” que de força de articulação com a comunidade internacional.

Entre os vários problemas apontados na proposta de Trump, há ainda a leitura de que o conselho não se restringirá a uma solução para a Faixa de Gaza. O entendimento é o de que Trump poderá usar o colegiado para tratar de outros  conflitos, substituindo inclusive o Conselho de Segurança da ONU.

Efeito colateral
Diante de uma proposta que concentra tantos poderes nas mãos de Trump, o governo brasileiro vê chances, inclusive, de  recolocar em pauta na comunidade internacional a defesa da reforma dos organismos internacionais – uma pauta antiga do Brasil, que há anos tenta, por exemplo, um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Essa retomada da discussão, na avaliação de diplomatas, pode ser uma espécie de efeito colateral que pode ser positivo para os países que defendem o multilateralismo e uma maior participação nas instâncias de poder global já existentes. Ironicamente, o conselho proposto por Trump pode reavivar o debate sobre a reforma da ONU. 

Lula falou sobre esse assunto com chefes de Estado com os quais conversou na última semana. Ele conversou com o presidente da Turquia, Recep Erdogan, com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e com o presidente chinês, Xi Jinping.

O Planalto nega, no entanto, que essas conversas tenham tido o objetivo de articular uma resposta em conjunto a Donald Trump. Segundo auxiliares do presidente, não foram telefonemas para articular uma reação conjunta, mas para trocar percepções sobre a proposta do Conselho da Paz.

Nesta sexta-feira, 23, durante um discurso em Salvador no encerramento de um encontro do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Lula foi enfático ao criticar Trump e disse que o americano quer virar, sozinho, “o dono da ONU”.

“Vocês estão acompanhando e percebendo que nós estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada. E ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente em 2003, a reforma da ONU com a entrada de novos países (no Conselho de Segurança), com a entrada de México, do Brasil, de países africanos, o que está acontecendo? O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU”, disse o presidente brasileiro.

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Ainda em Salvador, Lula disse que ficou “indignado” com a operação militar americana na Venezuela que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.

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