O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e as ameaças do presidente Donald Trump a Cuba e Groenlândia deram argumentos ao Ministério da Defesa brasileiro para retomar o debate dentro do próprio governo e no Congresso sobre a necessidade de ampliar o orçamento das Forças Armadas.
Para este ano, o orçamento aprovado para a pasta é de R$ 142,5 bilhões, dos quais apenas R$ 15,2 bilhões podem ser usados para investimentos. As despesas militares diminuíram nos últimos anos para um patamar próximo de 1% do PIB (Produto Interno Bruto). O caso brasileiro tem uma peculiaridade: dos recursos destinados ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica, 85% vão para o pagamento de salários.
No novo cenário global, com guerras, ameaças e ações militares efetivas na região, como a que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro pelas forças americanas, reforçar o aparato militar brasileiro tornou-se uma necessidade, defendem técnicos do Ministério da Defesa. Hoje, o Brasil está aparece bem atrás da maioria dos países no quesito investimentos militares.
Dados do Banco Mundial mostram que dos US$ 2,65 trilhões em desembolsos globais com defesa em 2024, os Estados Unidos gastaram US$ 1 trilhão, quase 40% do total. O valor equivale a 3,4% do PIB do país. Na Rússia, os gastos foram equivalentes a 7,1% do PIB (US$ 149 bilhões) e na China, a 1,7% (US$ 313,6 bilhões). Aqui na América do Sul, a Colômbia reservou o mesmo percentual do PIB destinado pelos norte-americanos: 3,4%, o que, em números absolutos, chega a US$ 15,1 bilhões. Na mesma base de comparação, o Brasil direcionou o equivalente a 1% de seu produto interno (US$ 21 bilhões).
O cientista político Hussein Kalout, que foi secretário de Assuntos Estratégicos do Planalto no governo de Michel Temer, afirma que o Brasil precisa modernizar as Forças Armadas para proteger o território nacional. Ele acredita que o governo tem clara essa necessidade. “Embora não sejamos nem aspiremos ser uma potência militar, nosso objetivo deve ser o de buscar uma capacidade defensiva que garanta nossa segurança nacional”, disse.
A avaliação entre auxiliares do ministro José Múcio (Defesa) é que alguns fatores pesam contra o setor. As desigualdades econômicas e sociais brasileiras, que direcionam as políticas públicas para a distribuição de renda, somadas a um país sem cultura bélica e sem vizinhos que ameacem as fronteiras, contribuem há décadas para que os gastos com militares não sejam uma prioridade.
Ainda assim, a corrida armamentista global acelerada e as ameaças de Trump têm levado outros países a gastarem mais – e essa tendência não pode ser ignorada pelo Brasil. Em 2025, a União Europeia aprovou um plano de 800 bilhões de euros, o equivalente a R$ 5 trilhões, para que os países do bloco se rearmarem.
Mesmo antes do ataque de Trump à Venezuela, Múcio conseguiu no Congresso, com autorização do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, R$ 30 bilhões para gastar em projetos estratégicos de defesa nacional entre 2026 e 2030. Serão R$ 5 bilhões por ano, fora do chamado arcabouço fiscal. A ideia é focar no avanço de programas como o Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), no desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro e na renovação da frota de caças, com os jatos suecos Gripen.
O plano agora é, para além de evitar redução dos valores já previstos, buscar a ampliação do volume de recursos. Na última quinta-feira, 15, Múcio esteve com Lula para tentar garantir que o orçamento regular da pasta não seja afetado com cortes em 2026. Além disso, ele articula com o governo e com o Congresso a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição cujo texto original fixa em 2% do PIB o orçamento mínimo para a área de defesa – o ministro considera ser viável destinar 1,5% da receita corrente líquida do governo, com aumento gradual ao longo dos anos.
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Para técnicos do ministério, o ataque de Trump à Venezuela foi “pedagógico” e despertou uma preocupação maior da classe política para a necessidade de garantir mais recursos para que as Forças Armadas possam defender o país, até mesmo em situações de guerra.
