O pedetista ampliou o alvo: “Todos engordaram na ditadura!”. A discussão saiu dos candidatos e alcançou a plateia. Marília Gabriela precisou chamar um intervalo. Para quem esperara quase três décadas para votar diretamente em presidente, a televisão entregava uma democracia sem botão de volume: os adversários estavam ao vivo, com direito a interrupções e respostas atravessadas.
A expressão de Brizola tinha endereço. Maluf construíra sua carreira política sob o regime militar; o rival voltara do exílio. O insulto resumia uma divergência real, mas tinha a vantagem televisiva de caber numa lembrança. Era difícil guardar todos os programas de governo. Aquela certidão de nascimento política, porém, ninguém precisava escrever.
Brizola, aliás, tinha talento especial para distribuir apelidos. Lula virou o “Sapo Barbudo”; Moreira Franco, o “Gato Angorá”; e Anthony Garotinho, o “Queijo Palmira”. O pedetista parecia manter um zoológico e uma seção de laticínios à disposição da política nacional. Seus adversários podiam escapar de um debate, mas dificilmente saíam sem um apelido. Maluf recebeu o “Filhote da ditadura”, expressão que dispensava qualquer teste de DNA político.
No segundo turno, a disputa entre Fernando Collor e Lula ofereceu outro repertório. Collor investia na imagem do candidato preparado para governar; Lula procurava furar a pose com ironias. Em 14 de dezembro, no último confronto, até o voto de José Sarney entrou na conversa. O presidente era impopular, entregava o país com um alto índice de inflação e ninguém parecia particularmente interessado em ser apresentado como seu herdeiro.
Cobrado por Collor sobre o apoio de Sarney, Lula disse que não impediria ninguém de votar e incluiu o adversário como um possível eleitor: “Até você pode votar em mim”. A provocação transformava o acusador em eleitor potencial. Era uma oferta de adesão feita no lugar menos provável: diante das câmeras, ao homem que disputava a mesma cadeira.
Sarney, continuou Lula, estaria tão indeciso que poderia até errar o voto. Collor respondeu com um pequeno verbete de campanha: “Isso para mim tem um nome: cambalacho. Quem faz cambalacho é cambalacheiro”. O país podia não sair dali com um acordo sobre alianças, mas recebera uma definição, um derivado e uma acusação no mesmo pacote.
O duelo também passou pela literatura. Ao atacar o rival, Collor recorreu a Pinóquio. A alusão dispensava explicação: o boneco de nariz crescente era convocado como testemunha da falta de verdade do adversário. Lula, por sua vez, buscava contrastar a experiência popular com a imagem de privilégio que atribuía ao oponente.
Os finalistas tiveram dois encontros na televisão, em 3 e 14 de dezembro. A cada rodada, uma tarefa dupla: conquistar o eleitor e tirar o rival da posição de conforto.
Por trás das tiradas, havia uma eleição duríssima. Não eram apenas dois estilos de falar: estavam em disputa projetos, trajetórias e a primeira Presidência escolhida diretamente depois da ditadura. O humor funcionava como golpe curto. Uma frase podia arrancar risadas, interromper o raciocínio do rival e gerar repercussão no dia seguinte.
O último debate ganhou ainda uma controvérsia que sobreviveria à campanha: a edição dos melhores momentos exibida pelo Jornal Nacional foi criticada por favorecer Collor. A própria Globo reconheceria, anos depois, o erro daquela edição. O confronto continuou fora do estúdio, agora sobre o modo como a televisão o mostrara.
Nas urnas, Fernando Collor foi eleito em 17 de dezembro de 1989, com 35.089.998 votos, 53,03% dos válidos. Lula recebeu 31.076.364 votos, 46,97%.
Desavenças históricas
Ivete Vargas x Carlos Lacerda
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Uma troca de insultos entre Carlos Lacerda e a deputada Ivete Vargas, sobrinha-neta de Getúlio Vargas, tornou-se uma das histórias mais saborosas do anedotário político brasileiro. O episódio, atribuído aos tempos da Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, teria ocorrido em meio aos ataques de Lacerda ao chamado “mar de lama” do governo Vargas. Combativo e dono de uma oratória feroz, o parlamentar não costumava poupar adversários. Ivete, inconformada com as acusações, insistia em pedir um aparte, sem sucesso. Até que perdeu a paciência e disparou ao microfone: Ivete Vargas: “F.D.P.!”. E Carlos Lacerda retrucou: “Vossa Excelência é muito nova para ser minha mãe!”.
