A pergunta era sobre família. Levy resolveu responder com anatomia. No debate da Record de 28 de setembro de 2014, Luciana cobrava o reconhecimento dos casais do mesmo sexo. O candidato do PRTB tomou um desvio que nem seu aerotrem explicaria. Houve risadas na plateia, mas a repercussão ultrapassou a frase extravagante: a manifestação provocou indignação e acusações de homofobia. O assunto eram direitos; Levy o transformara numa controversa aula de biologia.
Não era a primeira vez naquela campanha que o candidato fazia uma pergunta mudar de destino. Em 1º de setembro, no encontro de UOL, Folha, SBT e Jovem Pan, o jornalista Kennedy Alencar questionou se o PRTB funcionava como legenda de aluguel. Levy não gostou do contrato.
Levy: “Kennedy, isso é o típico ponto fora da curva.”
A resposta avançou contra o jornalista, com uma referência a “língua de aluguel”. Chamado a comentar, Eduardo Jorge poderia defender Kennedy, contestar Levy ou aproveitar para atacar os dois. Preferiu procurar a saída de emergência.
Eduardo Jorge: “Eu não tenho nada a ver com isso.”
A plateia riu. Era uma candidatura à Presidência com direito a recusar serviço extra. O candidato do PV não pretendia ser fiador daquela confusão. Depois, aproveitou o tempo para defender uma reforma política. Primeiro afastou a encrenca; depois apresentou a proposta.
Nas redes, a declaração ganhou utilidade muito além da eleição. Cabia na discussão de família, no problema do escritório e na mensagem enviada ao grupo errado. Enquanto os adversários disputavam quem tinha razão, Eduardo Jorge conquistava o direito de não estar envolvido.
Luciana Genro adotava o caminho oposto. Se a provocação chegasse, receberia resposta , e não necessariamente com embalagem para presente. No debate promovido pela CNBB, em setembro, Aécio Neves associou a candidatura do PSOL a uma linha auxiliar do PT.
Luciana: “Com todo respeito, linha auxiliar do PT uma ova, candidato Aécio.”
A cortesia durou quatro palavras. Depois, veio a devolução. Aécio tentava colocar Luciana e Dilma Rousseff no mesmo endereço político; a candidata do PSOL recusava a mudança.
Em 2 de outubro, na Globo, os dois voltaram a se enfrentar. Luciana atacou o histórico tucano ao discutir corrupção. Aécio contestou as acusações.
Aécio: “Não seja leviana. Você não pode falar o que não sabe.”
Luciana, protestando contra o gesto do adversário: “Não levante o dedo para mim!”
Além dos programas de governo, discutia-se a posição adequada de uma mão. O mediador controlava o relógio; o controle dos nervos ficava por conta dos participantes.
No segundo turno, a discussão chegou à família dos finalistas. No debate de 16 de outubro, Dilma questionou a atuação da irmã de Aécio no governo mineiro. O tucano respondeu atacando o emprego do irmão da presidente na Prefeitura de Belo Horizonte.
Aécio: “A diferença é que minha irmã trabalhou muito e não recebeu, enquanto seu irmão recebeu e não trabalhou.”
Dilma: “A sua irmã e o meu irmão têm que ser regidos pela mesma lei, eles não podem estar no governo que nós estamos.”
A disputa era pela Presidência, mas a conversa já tinha chegado à árvore genealógica. Os parentes entraram na campanha sem precisar pedir voto. Eduardo Jorge talvez tivesse uma frase adequada para a ocasião. Dessa vez, porém, não estava no palco para pronunciá-la.
Em 26 de outubro de 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com 54.501.118 votos, 51,64% dos válidos. Aécio Neves recebeu 51.041.155 votos, 48,36%.
Desavenças históricas
Collor x Simon
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“Quais palavras?”, perguntou Pedro Simon. Em 3 de agosto de 2009, no Senado, Fernando Collor reagiu às referências do colega às relações com Renan Calheiros. Simon havia defendido o afastamento de José Sarney da presidência da Casa. Collor elevou o tom: “Eu quero que o senhor as engula e as digira como julgar conveniente”. O ex-presidente também rejeitou essa versão sobre uma articulação na China para lançar sua candidatura presidencial. “Não aconteceu ali não?”, indagou Simon. O confronto levou outros senadores a defender o gaúcho e expôs a tensão em torno da permanência de Sarney no comando.
