Ciro Gomes preparara-se para discutir o Brasil. No primeiro debate presidencial de 2018, precisou responder sobre uma suposta unificação socialista da América Latina. Em 9 de agosto, na Band, Cabo Daciolo apresentou a Ursal com a solenidade de quem revelava um grande segredo. Ciro não conhecia o plano. Daciolo parecia convencido de que conhecia até o que Ciro não sabia.
O candidato também atribuiu ao pedetista participação na fundação do Foro de São Paulo, o que não correspondia aos fatos. Ciro negou. A pergunta vinha com conspiração, acusação e uma certeza difícil de interromper. Ao adversário, restava incluir aquele interrogatório na conta de viver em democracia.
A Ursal virou busca, piada e montagem. Para uma eleição que ainda teria muitas surpresas, o debate oferecia uma primeira lição: não havia assessoria capaz de prever todas as perguntas.
Daciolo guardou a frase. Em 26 de setembro, no encontro de SBT, Uol e Folha, devolveu a Ciro:
Daciolo: “A democracia é uma delícia, uma delícia.”
Antes de criticá-lo por recorrer a atendimento médico particular, recuperou a ironia de agosto. O bordão voltava ao remetente quase sete semanas depois. Na campanha, até a réplica podia chegar com atraso.
Na mesma noite, Guilherme Boulos quis saber sobre políticas para as mulheres. Daciolo abriu a resposta lembrando a mãe e a esposa:
Daciolo: “Mãe, eu te amo, varoa, eu te amo.”
A mulher do candidato fez um coração com as mãos na plateia. Por alguns segundos, o debate presidencial adquiriu o clima de uma declaração familiar transmitida em rede nacional.
Boulos: “Daciolo, a gente já estava com saudade de você aqui no debate.”
A saudade tinha contexto: Daciolo ficara fora de encontros anteriores. Ele participava com seu estilo de pregação, ataques ao sistema financeiro e a convicção de que venceria no primeiro turno. Chegou a falar em 51%. O resultado mostraria uma distância considerável entre aquela previsão e a escolha dos eleitores. Faltou combinar com as urnas.
Henrique Meirelles também precisou ajustar o cadastro profissional. Daciolo o associou aos banqueiros; o ex-presidente do Banco Central respondeu que fora empregado de banco, avançando na carreira.
Meirelles: “Nunca fui banqueiro, fui bancário.”
A diferença entre controlar a instituição e trabalhar para ela virou matéria de debate. O esclarecimento arrancou risadas. Na disputa pelo Planalto, o currículo de um presidenciável estava sendo conferido como se o formulário tivesse chegado preenchido errado. Meirelles aproveitava a correção para cobrar estudo do adversário; Daciolo insistia na crítica ao poder financeiro.
Nem todos os confrontos daquela campanha permitiam a mesma leveza. Em 17 de agosto, na RedeTV!, Marina Silva enfrentara Jair Bolsonaro numa discussão sobre armas e violência. Ela o acusou de tentar resolver as coisas no grito. O episódio expôs divergências duras sobre segurança, direitos e a maneira de tratar os adversários.
No segundo turno, Bolsonaro e Fernando Haddad não se enfrentaram em debates. A campanha terminou sem o encontro entre os finalistas, enquanto as falas de Daciolo continuavam circulando fora do estúdio. A Ursal não precisava existir como plano para ter conquistado seu lugar no folclore eleitoral.
Jair Bolsonaro foi eleito em 28 de outubro de 2018 com 57.797.847 votos, 55,13% dos válidos. Fernando Haddad recebeu 47.040.906 votos, 44,87%.
Desavenças históricas
Renan x Tasso
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“Não aponte esse dedo sujo para cima de mim.” Tasso Jereissati enfrentou Renan Calheiros no Senado em 6 de agosto de 2009. Renan rebateu com acusações sobre o uso de jatinhos pagos pela Casa. Tasso disse que o avião era seu e respondeu: “Cangaceiro de terceira categoria”. Segundo senadores citados pela imprensa, Renan o chamou, fora do microfone, de “coronel de merda”. O tumulto começou depois que Tasso pediu a retirada de um manifestante favorável a Renan. José Sarney interrompeu a sessão. Tasso anunciou que buscaria o áudio para fundamentar uma representação por quebra de decoro parlamentar.
