A disputa era pela mesma cadeira, mas dividir alguns metros de estúdio já parecia pedir demais. No debate da Globo de 28 de outubro de 2022, Jair Bolsonaro chamou Lula para permanecer ao seu lado. O petista recusou sem consultar a diplomacia. Depois de uma campanha de ataques, os finalistas discutiam até a distância mínima entre eles.


O convite já tinha antecedente. Em 16 de outubro, no encontro da Band e de veículos parceiros, os candidatos podiam caminhar pelo estúdio. Além de argumentos e cronômetro, era preciso administrar o trânsito.


Bolsonaro: “Fica aqui, Lula, fica aqui.”


Lula: “Aliás, deixa eu lhe falar uma coisa?”


O gesto de Bolsonaro tocando o ombro do adversário produziu uma das fotografias do confronto. O formato aproximava fisicamente candidatos separados por acusações e projetos políticos. Um tentava manter o outro por perto; o eleitor acompanhava a discussão e a movimentação. A campanha ganhava uma coreografia pouco amistosa.


No primeiro turno, porém, a conversa já havia tomado caminhos mais improváveis. No debate da Globo de 29 de setembro, Soraya Thronicke questionou a atuação de Padre Kelmon na pandemia e sua defesa do governo Bolsonaro.


Soraya: “O senhor não tem medo de ir para o inferno, não?”


Kelmon, protestando: “Um padre sendo mandado para o inferno por uma mulher.”


A pergunta levou o encontro a uma instância que não estava prevista no regulamento eleitoral. No bloco seguinte, Soraya esclareceu a diferença entre fazer uma pergunta e determinar o destino do concorrente.


Soraya: “Não mandei o senhor para o inferno, perguntei se o senhor não teria medo de ir ao inferno.”


Feita a explicação, acrescentou:


Soraya: “Não deu extrema-unção porque o senhor é um padre de festa junina.”


A política brasileira já conhecia acusações de todo tipo. Naquela noite, acrescentou uma categoria com bandeirinhas. Antes disso, Soraya havia chamado o adversário de “Padre Kelson”. Corrigida, passou a tratá-lo como “candidato padre”. Acertar o nome acabaria sendo a parte mais tranquila daquela conversa.


Nas redes, a expressão encontrou material pronto: uma fotografia de Kelmon com chapéu de palha numa festa junina voltou a circular. Soraya também a compartilhou. Era a combinação que a internet costuma aproveitar: frase curta, imagem fácil e uma discussão que dispensava acompanhar o programa inteiro.


Kelmon também enfrentou Lula, que o chamou de “candidato laranja”. As interrupções convocaram um terceiro participante: William Bonner. O apresentador precisou deixar a mediação das propostas para explicar o funcionamento básico do encontro.


Bonner: “O senhor compreende as regras?”


E, na advertência a Kelmon:


Bonner: “O senhor concordou com elas, basta cumpri-las.”


O mediador anunciou a possibilidade de cortar microfones e pediu desculpas ao público. O regulamento, normalmente a parte menos emocionante de um debate, ganhava protagonismo. Bonner tentava produzir um efeito sonoro bastante simples: uma pessoa falando de cada vez.


A noite ainda trouxe uma troca involuntária de nomes. Simone Tebet chamou Soraya de “candidata Bolsonara” e se corrigiu. Em outro embate, Ciro Gomes pressionou Lula sobre o legado de seus governos. O petista incluiu o estado de espírito do adversário na resposta.


Lula: “Ciro, estou achando você nervoso.”


Tebet, por sua vez, atacou Bolsonaro:


Tebet: “Mente tanto que acredita na própria mentira.”


Entre nomes trocados, microfones ameaçados de corte e convites recusados, a campanha colecionou cenas que continuariam circulando depois do encerramento das transmissões. No último encontro, Lula e Bolsonaro não chegaram a um acordo nem sobre ficar perto. A decisão sobre quem ficaria com a Presidência coube aos eleitores.


Lula foi eleito em 30 de outubro de 2022 com 60.345.999 votos, 50,90% dos válidos. Jair Bolsonaro recebeu 58.206.354 votos, 49,10%.


Embates históricos

Cid x Cunha

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“Prefiro ser acusado por ele de mal-educado”, disse Cid Gomes, antes de contrapor a acusação de achaque dirigida a Eduardo Cunha. Em 18 de março de 2015, o ministro da Educação foi à Câmara explicar declarações sobre deputados “achacadores”. Apontou para o presidente da Casa e renovou ali o ataque. Cunha reagiu: “Não vou admitir que um representante do Executivo agrida parlamentares”. Cid ouviu “palhaço” do deputado Sergio Zveiter e deixou o plenário após ter o microfone cortado. A crise teve desfecho no mesmo dia: pediu demissão, aceita por Dilma Rousseff. Cunha anunciou que iria processá-lo.

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