Um fiel conservador, que se declara de direita, embora seja contrário que temas políticos sejam tratados durante o culto. Por outro lado, defende direitos iguais para homens e mulheres e considera fé e ciência complementares. Essas são algumas conclusões apresentadas pela Pesquisa Evangélica Nacional 2026, divulgada pelo Instituto Valentes Intel. O levantamento feito com 14.933 evangélicos dos 27 estados do Brasil, mostra um retrato sobre fé, valores, comportamento, rotina e política da população evangélica brasileira. Em Minas foram cerca de 1.700 questionários respondidos, o que representa 11% do total. Destes, 54,8% são mulheres e 45,2% homens.

O público alcançado pela pesquisa revela, segundo o instituto, um retrato de maturidade e estabilidade: pessoas em sua maioria entre 40 e 59 anos, casadas, economicamente ativas e distribuídas por todas as regiões do país – com forte presença do Sudeste (42,6%) e do Nordeste (26,5%), os dois grandes polos da população evangélica nacional.

A Bíblia impressa continua sendo a principal escolha para a leitura das Escrituras entre os evangélicos brasileiros. Para 68% deles o modelo em papel é o preferido, enquanto 25,5% optam pelo aplicativo. Em Minas, a Bíblia física é a escolha de 60,4% dos entrevistados, enquanto 30,3% preferem a leitura no aplicativo.

Os resultados também apontam para uma presença significativa da religião no cotidiano: 85,5% dos entrevistados dizem frequentar cultos pelo menos uma vez por semana, 85,1% afirmam orar diariamente e 50,4% leem a Bíblia todos os dias. Além disso, 66,3% consomem conteúdo digital cristão diariamente.

De acordo com o instituto, a pesquisa alcançou majoritariamente cristãos maduros – 87,4% são evangélicos há mais de 10 anos ou desde a infância, enquanto novos convertidos (menos de um ano de fé) representam menos de 1% da amostra.

Contra política nos cultos

Outro dado que chama a atenção é que a maioria dos evangélicos brasileiros rejeita (52,5%) que as igrejas tratem de política nos cultos, contra 33,4% que aprovam. De acordo com o instituto, “o púlpito, para este público, é lugar de Palavras – não de palanque”. Em Minas, o cenário é semelhante. São 55,8% contrários ao tema nas cerimônias religiosas, contra 33,3% que aprovam.
Apesar de não querer que o tema seja tratado durante os cultos, eles se interessam por política. A maioria (53,1%) diz se interessar muito pelo assunto, 28,9% declaram que se interessam um pouco, 12,9% pouco e 5,1% nada.


Conservadorismo com
diferentes contornos

Um dos recortes apresentados pela pesquisa mostra que o conservadorismo entre os evangélicos não se manifesta da mesma forma em todas as questões analisadas.

Enquanto 67,8% se posicionam contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 70% são contrários à legalização da maconha, 85,7% defendem direitos iguais para homens e mulheres.

Outro dado mostra que 78,3% dos entrevistados consideram que ciência e fé se complementam, resultado que, segundo o instituto, acrescenta novas nuances à compreensão sobre valores e posicionamentos da população evangélica no país.

A pesquisa também identificou diferenças geracionais na identificação política. Entre os mais jovens, há menor polarização com os campos tradicionais de direita e de esquerda. À medida que a idade avança, cresce a identificação com a direita. No conjunto dos entrevistados, a direita aparece de forma predominante, mas os resultados indicam que o universo evangélico apresenta diferenças importantes de comportamento e posicionamento entre gerações e temas.

“Esta pesquisa oferece à igreja brasileira a oportunidade de se enxergar a partir de dados. Mais do que confirmar percepções, ela nos ajuda a compreender melhor quem são os evangélicos hoje, como vivem a fé, quais valores carregam e como se relacionam com as transformações da sociedade. Conhecer essa realidade é fundamental para que igrejas, lideranças e organizações possam servir de maneira cada vez mais consciente e conectada às pessoas”, afirma Daniel Caldeira Portugal, CEO do Instituto Valentes Intel.


Quebra do estereótipo

Para o historiador e professor de ciências da religião da PUC Minas, Rodrigo Coppe, os dados do levantamento desconstroem o estereótipo “fácil” do evangélico. Ele ressalta que essa população é muito estigmatizada na sociedade. “A pesquisa mostra uma tensão entre a rejeição majoritária ao casamento homoafetivo e a legalização da maconha e convive lado a lado com a ideia de direitos iguais entre homens e mulheres”, pontua.

Segundo Coppe, a igualdade de direitos entre homens e mulheres também pode ter interpretações diferentes para este público. “Pode ser o que está na lei, agora dentro de casa a vivência é outra. Isso também é muito relativo, já que há um grupo grande de evangélicas que são mães solteiras”, afirma.O especialista também acredita que a pesquisa desmonta um pouco a ideia de um bloco evangélico homogêneo e reacionário. “O reacionário é diferente de conservador. Ele tem a ver com querer voltar para um tempo em que as coisas eram de um determinado jeito. Só que o mundo evangélico não quer voltar para nenhum lugar. Eles querem construir um Brasil novo e diferente. Um país que não é mais totalmente católico e que vai sendo pautado pela cultura, pela forma de pensar e agir que tem a ver com o mundo evangélico”, analisa.

Coppe lembra que quase um terço da população brasileira é composta por evangélicos. “Não podemos mais falar em um nicho específico. Estamos falando de, praticamente, um terço da população.”Em relação aos temas políticos serem rejeitados pelos fiéis, durante os cultos, o especialista observa que existe um mundo simbólico para os evangélicos. “Estar na igreja significa um reconhecimento. O que o Estado não dá, a Igreja dá. Essa é a lógica. O líder religioso tem uma influência talvez de catalisar os desejos dos fiéis em um determinado político. Ele faz uma espécie de ponte, mas não necessariamente diz sobre o candidato.”

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Metodologia

Segundo o instituto, a pesquisa é um levantamento quantitativo, transversal e auto aplicado, feito por meio de questionário estruturado on-line e participação voluntária. Responderam o questionário 14.933 pessoas autodeclaradas evangélicas, escolhidas após processos de filtragem e validação dos dados. A pesquisa contou com 44 questões distribuídas em sete seções, abordando fé e prática religiosa, atitudes e valores, consumo, rotina, política, perfil demográfico e engajamento.
Os resultados foram ponderados pelo método de Raking (IPF), com calibração por sexo, região, escolaridade, renda e raça/cor. Foram utilizados como referência o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2024 (PNAD Contínua).
Ainda de acordo com o instituto, a pesquisa foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar formada por profissionais das áreas de Estatística, Sociologia, Ciência de Dados, Economia e Administração, com formação acadêmica stricto sensu e atuação em pesquisa e docência no ensino superior.

compartilhe