Alguns venceram com folga, em países como o Equador e o Chile. Outros se impuseram com vantagem mínima, como no Peru e na Colômbia.
De uma forma ou de outra, os políticos de direita da América Latina vivem uma onda de vitórias eleitorais que alterou o mapa de poder do continente.
Na terça-feira (28/7), a peruana Keiko Fujimori se tornou o caso mais recente de uma figura de direita latino-americana a assumir a presidência do seu país pelo voto. Ela venceu as eleições na sua quarta tentativa.
Já o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tomará posse no dia 7 de agosto. Com isso, a América Latina somará 12 chefes de Estado com posicionamento à direita no espectro político.
Esse número contrasta com o verificado no continente no início de 2023, quando havia 11 países administrados por governos de esquerda de diferentes tipos.
É verdade que as duas maiores democracias latino-americanas em número de eleitores — o Brasil e o México — mantêm governos de esquerda.
Mas o Brasil irá às urnas em outubro e tudo indica que a eleição será um duelo entre o presidente Lula e o senador de direita Flávio Bolsonaro.
Também é verdade que existem diferenças entre os diversos presidentes latino-americanos de direita. Alguns são mais radicais do que outros, com tendências populistas ou autoritárias.
Mas, de forma geral, eles próprios costumam se mostrar como parte de uma mesma família ideológica, expressando seu apoio eleitoral mútuo ou copiando símbolos polêmicos, como a megaprisão de Nayib Bukele, em El Salvador.
Mas o que há por trás desse fenômeno? E do que depende a sua continuidade?
'Problema estrutural'
Um dos motivos da ascensão da direita latino-americana é a ampla reivindicação popular por uma luta mais eficaz contra a criminalidade. A segurança pública, atualmente, é uma das maiores preocupações dos cidadãos do continente.
Em alguns casos, essa questão foi seguida por um aumento significativo da violência e da extorsão,
como o verificado em países como Equador e Peru.
Mas o medo da criminalidade também disparou no Chile.
Pesquisas realizadas no ano passado mostraram que a população chilena está mais preocupada com o crime e a violência do que a do México e da Colômbia, apesar desses países apresentarem índices de homicídios muito mais altos.
De qualquer forma, os candidatos de direita parecem personificar melhor essa demanda por segurança, quando não a impulsionam.
Keiko Fujimori, no Peru; Abelardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; e Nasry Asfura, em Honduras, chegaram à presidência com promessas de "ordem" e "braço forte" contra o crime.
Já Nayib Bukele é um dos líderes latino-americanos mais valorizados do continente.
O presidente de El Salvador se tornou um expoente da direita regional, por reduzir a violência das gangues do país ao decretar um estado de exceção que concentrou o poder, suspendeu garantias constitucionais e gerou denúncias de graves abusos.
Atualmente, a América Latina tem "governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública", segundo a professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, especializada na região.
"Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente", declarou Bressan à BBC News Brasil.
O fator Trump
Além da maior ênfase em políticas duras em relação à segurança, existem outros aspectos que diferenciam essa nova direita que ganhou terreno na América Latina dos conservadores tradicionais.
Um deles é o uso mais eficaz das redes sociais como instrumento de proselitismo, segundo especialistas.
Outro é a maior agressividade verbal contra seus adversários, particularmente contra a esquerda e a chamada cultura woke — em alguns casos, sem respeitar as normas básicas de convivência democrática liberal.
Esse estilo combativo coincide com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu governo procurou se alinhar a líderes latino-americanos de direita para recuperar a influência regional e neutralizar a China.
"Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia", segundo Bressan.
A pesquisa regional Latinobarómetro destacou que as mudanças políticas começaram a ocorrer no continente a partir de 2020, quando os latino-americanos passaram a se classificar levemente mais à direita, ano após ano.
A diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, vincula o fenômeno à pandemia de coronavírus, que "acaba convencendo as pessoas vulneráveis de que não vão sair do buraco em que se encontram".
"Essa queda de expectativas para o futuro gera essa demanda populista e de extrema direita", explica Lagos à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"É como se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso vir algo muito duro e drástico para que as coisas mudem'", segundo ela.
A mesma pesquisa também indicou que o apoio à economia de mercado na América Latina aumentou de 58%, em 2020, para 66%, em 2024.
Isso também pode explicar por que a ideia de reduzir o Estado, simbolizada pela motosserra na campanha que levou Javier Milei à presidência da Argentina em 2023, também foi apresentada por outros candidatos de sucesso no continente.
Fenômeno duradouro?
Mas os latino-americanos parecem votar, há anos, mais para punir seus governos no poder, do que por ideologia.
Na última década, os candidatos de oposição do continente venceram cerca do dobro das eleições, em relação aos de situação.
Contudo, os presidentes de direita que governam a América Latina enfrentam diversos desafios de gestão.
Milei ainda tenta fazer com que a economia argentina melhore de forma perceptível para as pessoas. Ele aplicou um drástico ajuste nas contas do país que, se por um lado reduziu a inflação, por outro provocou um aumento da pobreza e do desemprego.
O Equador, em 2025, registrou um dos maiores índices de homicídios do mundo. Foram mais de 9,2 mil assassinatos, segundo dados oficiais, mesmo com as políticas de "braço forte" e a mobilização militar ordenada por Noboa nos últimos dois anos.
E, no Chile, os índices de aprovação de José Antonio Kast caíram desde que o presidente tomou posse em março. Isso se deve à estagnação econômica, ao desemprego que aumentou para 9,4% entre março e maio e à criminalidade, que permanece uma das maiores preocupações da população.
"É um erro pensar que a direita veio para ficar", alerta Lagos.
Mas ele destaca que, antes do retorno da esquerda ao continente, poderão surgir "novos tipos de populismo".
"Se a direita não conseguir controlar a segurança, será o equivalente funcional à incapacidade da esquerda de eliminar a pobreza", explica Lagos.
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