Sérgio Tavares - Especial para o Estado de Minas
A cena inicial de “O mar é longe” ilustra, com tintas metafóricas, os conflitos que regem o segundo romance do paraense Airton Souza. Dois irmãos estão numa canoa conduzida por um pai rude que os abriga a ir com ele pescar no rio Itapecuru, pois não admite “hômi crescendo na casa dele à toa”. Os meninos são alvos de constantes agressões e ofensas, sobretudo o mais velho que, por conta do modo de se portar, é chamado de “mulherzinha, frouxo, qualira”. Em dado momento, a embarcação apresenta uma avaria e começa a inundar. Os irmãos percebem que, se todos forem engolidos pelas águas barrentas, chegará ao fim o ciclo de violência. No entanto, há um pacto firmado entre eles que se impõe à desistência pelo ódio, o cumprimento de uma promessa que transcende a vida interrompida.
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Quem narra a história é o irmão mais novo, uma espécie de guardião da verdade, cujo nome nunca é revelado. Testemunha e, ao mesmo tempo, agente dos fatos, sua lealdade a Balta faz com que compartilhe calado da fúria do pai ao irmão, dos ataques homofóbicos. Sobrevivendo da pesca, no interior do Maranhão, são crianças que aprenderam desde cedo a ler o mundo pela pedagogia do medo e suas práticas de resignação tatuadas no rosto e no corpo da mãe que, apesar dos alarmes dos vizinhos, não consegue absolver a família dos castigos do marido. Ao rés do chão, no ambiente pobre e selvagem, nenhuma saída os exime de mais sofrimento ou da morte. Então, ascendem a um plano subjetivo, imaculado pelo escudo da infância, onde a dor escorre para ilusões e pesadelos, partindo para uma fuga que se confunde com o desejo de conhecer o mar.
À revelia da mãe, na noite após o episódio do naufrágio, eles se lançam numa escapada que vai se provar uma jornada de formação, de dura aprendizagem. Souza dá sinais de se inspirar em João Guimarães Rosa e em Graciliano Ramos de “Vidas secas” para compor o esquema de narração e a estrutura de seu livro, mesclando o rústico com o lírico, num registro linguístico que ressoa as especificidades regionais do Norte do país. Pelas veredas de um território desconhecido, os personagens enfrentam a fome, o relento e os riscos passíveis a dois meninos que colocam um propósito lúdico acima de qualquer senso de autoproteção. Na concepção pueril, os perigos e as maldades que presenciam e experimentam, afinal, não muito se diferem dos traumas vividos em casa.
A trama entrelaça constantemente tais lembranças ao curso dos acontecimentos, valendo-se do discurso indireto para dar som a pensamentos, divagações e fragmentos de diálogos entre os irmãos.
Esse conjunto de frases é revestido por um verniz poético, que exprime as fraturas que trazem dentro de si e as que surgem durante o percurso a pé por estradas de terra. Embora utilize, algumas vezes, de uma certa intelectualidade que não combina com a natureza dos personagens, o recurso estilístico funciona para acessar um fundo psicológico no qual o compromisso fraterno se revela a força motriz inabalável na arriscada travessia até o litoral, tendo apenas um ao outro e um sentido idílico de salvação. Balta toma a frente nas decisões, arranja comida, providencia o papelão com o qual se abrigam. O narrador está sempre no anteparo do irmão; observando, reagindo, assimilando o novo mundo que se descortina e lhe toca tanto. Representar essa ternura só contida na inocência, em corpos corrompidos pela maldade, é o grande achado do livro.
Autor vencedor do Prêmio Sesc de Literatura com “Outono de carne estranha”, romance que aborda a relação amorosa entre dois garimpeiros num ambiente de extrema selvageria, Souza reprisa esse cenário de fissuras sociais, agora retratando a realidade daqueles que se refugiam na rua por conta do preconceito e da violência no seio familiar. Algumas passagens se caracterizam pela crueza escaldante, pelo impacto que provocam ao detalhar terrores mundanos e aqueles que se escondem por trás de um segredo tão perverso que se finge pesadelo. Se as águas do rio e do mar se diferenciam pelo grau de doçura, a dinâmica do movimento de ambas pode levar ao mesmo destino trágico. Ancorados em suas dores, os irmãos parecem eternamente aprisionados numa canoa que afunda.
SÉRGIO TAVARES é escritor e crítico literário
Trecho do livro
Próximo à cerca dos fundos que separava o terreno de nossa casa do de seu Ambrósio, o irmão se sentou no chão, debaixo do cajueiro. O olhar meio perdido, entre as paredes de tábuas enlodadas e os pedaços de mourões que serviam de cercas aos quintais de Lindalva e dona Dica, dos lados, e, na parte dos fundos, do de seu Ambrósio, que durante o inverno ficava tomado pelas ramas do maracujazeiro, que nunca floriam. Incomodado com as mãos sujas de terra, ele as esfregou no short. Num único movimento, juntou as pernas e as dobrou, num gesto estranho que eu nunca tinha visto ele fazer. Derreou a cabeça. Amparou o queixo em cima das dobras dos joelhos. As pontas das orelhas visivelmente arroxeadas. O osso de sua coluna, encurvado, deixou em mim o pressentimento de que uma leve movimentação para a frente o quebraria. De maneira mais nítida, Balta contou até sete e abraçou os joelhos. Os cotovelos pareciam soltos. De repente, entrelaçou os dedos das mãos, mantendo os pés curvados o tempo inteiro. Fechou os olhos e desatou a chorar, enquanto eu arfava recostado nuns galhos truncados do cajueiro que desciam por cima da cerca. A violência nos moldou. Foi o que pensei em dizer ao ver o irmão naquela situação, a chorar em minha presença pela primeira vez.
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O mar é longe
• Airton Souza
• Record
• 256 páginas
• R$ 69,90
